O Rancho Apaloosa e a égua do Abelardo

Commedia dell´arte para Hélverton Baiano, chegado nos temas sacanas.
O morto rico, bem-vestido num caixão dourado; os olhos vítreos, mal-fechados para o mundo. O funeral, o velório, o pranto, tudo televisado, na sala da consternação. Todos ali muito consternados, e tudo documentado, porquanto bem-conceituado o estimado cidadão. A viúva Hipólita, fingida — choraminfungando-se desatenta, senão que se fazendo de esquecida de toda a gente à sua volta —, ajeita a gravata do Abelardo, seu morto marido, pega o estereótipo do bordão social e paga o mico ao que lhe vai dizendo: Sorria, querido; você está sendo filmado, amor da minha vida.
Com a finesse desse mico — sim, porque gente fina é feita de marfim —, não há que se omita, em horas tão distintas e defuntas, o sorriso de solidariedade às gafes e mortes da sociedade. Mas o cadáver, por que sorri, o miserável?
Fútil, frívola, volúvel, colunável, Hipólita ainda não sabe, mas ele não lhe deixou nada desta vida, nem mesmo a casa em que ela vive, pois foi vendida em segredo. O grana da venda, ele esbanjou toda, gozando a vida com garotas de programa, dissoluto e generoso, até pagando em dobro o que lhe era cobrado.
Ele passava dos sessenta, Hipólita só tinha trinta, mas não foi com ela que esticou as canelas. Com ele, ela era frígida, quando não fingida. Ele se havia ou bem se virava com uma tal de Brígida, também com as Magnólias de vida alegre — a vida fácil, dizim os antigos — e as Margaridas de vida breve — bemmequeres e malmequeres —, fortuitos amores, efêmeros prazeres; a síncope cardíaca por conta de um fuque-fuque dos quintos, dito esfola-pinto.
Milionário mão-aberta, perdulário, era, por outro lado, um velho muito esperto. Astuto, dissimulado e prevenido, o filho da puta. Antes que morto, já pronto o testamento. Por espólio, recebeu Dona Hipólita — distinta e abnegada esposa, segundo a lábia do advogado — um envelope negro — a cor do luto — a ela endereçado. Dentro não havia carta, não havia nada escrito, apenas um papel em branco, e, colado neste, um presente para a consorte: a careta de um ciclope recortado da mitologia grega, com o olho único bem aberto, e ali como se dissesse: Sorria, querida; você está sendo filmada, flor fingida da minha vida.
Boa peça lhe prega o Abelardo. Via de perto o que longe estava, os corpos que se juntavam, rolando na relva, por trás das sebes que de todo não ocultavam os vultos e movimentos, como não se lhes ocultam as sombras ao sopro do vento que se move. Os olhos de olho no que há para se ver, atentos ao mover-se da rosa-dos-ventos — e ali os físicos atributos de Hipólita —, seriam mesmo de ver os giros e fingimentos da esposa, a descarada mentira, a verdade estampada na cara-metade, que pouco parava em casa; vezes havia em que ali nem fazia pouso.
Quem observa, desconfia do vai-vem de todo dia, do que há de lúbrico nos bagos de uva que se levam à boca; no jeito de chupar e morder o sugestivo morango melado de leite condensado; no modo de dançar, nos bailes do clube, o tango de coxas e cachos, de saliências e reentrâncias, se esfregando e se enroscando nos machos; a ver-se lá o que sempre se advinha, a desova das alcovas com o púbis de Anúbis, a pélvis de Adônis, as ancas famintas da mulher de trinta. E que bela pinta na bunda tem a vagabunda!
A fortuna se foi, bonita Hipólita. Dilapidada em hipódromos e cassinos, dado que era o Abelardo a enfiar dinheiro no rabo de equinos, no roubo das cartas e na cova de veludo de putas mui traquinas. Um viciado compulsivo, apostando tudo em corridas, já se dando por tudo ou nada, já perdido ao peso da inadimplência, cheques sem fundo e a falência de suas empresas, incluso o Rancho Apaloosa.
Sorria, senhora minha sedutora, diria o Abelardo, agora. Ele que era dado aos clássicos eróticos, além dos cascos sonoros dos cavalos na pista, ao carteado privado, às rodadas de canastra em noites de sábado, bem como aos acochos das mulheres as quais chamava de “minhas éguas” e que cobria a gosto, promovendo orgias danadas de boas com os diabos do corpo.
Ficam-lhe, ó bela Hipólita, a moral da história e o desdém do falecido: sorri melhor quem sorri por último, malgrado o pinto caído, posto que também defunto. Restam-lhe, cara senhora, o negro envelope e o ciclope de olho em seu pranto inútil. Mas ouça o que a sua própria consciência lhe diz: vá em frente e seja feliz, aproveite o que ainda lhe apeteça, antes que o tempo passe e a solidão da velhice só lhe deixe os bagos murchos de uva-passa e um patético flopflop, dito consolo de viúva, desses que se lubrificam e vibram e se compram no Sex Shop.
Escroto! A vida continua, Abelardo, e você me paga! Eu me vingo de algum modo. Ainda fisgo um desses ricos com olhar de peixe morto, pois o peixe morre é caindo de boca, a menos que fisgado pelo rabo. Eu sou agora a viúva brava que nem saúva. Sou a mulher-aranha, a viúva negra venenosa, com veneno nas entranhas e na saliva, com estricnina no cuspe. Custe o que me custe, ainda terei o meu próprio Rancho Apaloosa.
Na rua, o gaiato pregão do vendedor de ovos e uvas: Ovo e uva boa!, fazendo rir com o que soa, o óbvio: Ô viúva boa!
Unicórnios a galope povoam os sonhos eróticos de Hipólita, nua no olho da rua, pelada no meio da chuva, empinando o rabo. O povo jogando ovo e dando viva, viva ao ciclope de olho arregalado, montado na égua do Abelardo.
De resto, à parte o jogo sujo da morte com o testamento, o que doravante importa para Hipólita é que Abelardo é morto. Morto o Ciclope que já não o habita. Fecha-se o esquife, fecha-se o olho. Ciclope, o caralho! Pro raio que o parta, Abelardo, seu patife! Você já é carta riscada do meu baralho. Por enquanto, eu me conforto: vamos lá, se não deu certo é porque não tinha que dar.
Agora é partir pra outra, ou não me chamo Hipólita. Pisca-lhe o olho, a ela, o ciclope de negro envelope, com ar de comparsa. Que bela farsa! E nota-se que Hipólita possui — encima-lhe o fino lábio, enfeita-lhe a fuça — um buço ruço, misto de pardacento a fúcsia, rubrovioláceo tirante a brinco-de-princesa, vistosa flor no jardim. Sim, a ruiva sombra de um bigode furta-cor, refulgindo-se consoante a incidência da luz solar. E não se diz que com mulher de bigode nem o diabo pode? Puta catinga de bode. Sim senhor. E pois não há, também, no jardim, a maligna comigo-ninguém-pode, de natureza cáustica e venenosa? Refulge a fulva penugem labial da viúva ruiva. Dia virá, ó vulva, em que ela terá o dinheiro na mão. O mundo dá muitas voltas, e não faltará ocasião. Vende-se o Rancho Apaloosa. Ou: Rancho Apaloosa vai a leilão. Vendido pra Dona Hipólita. Nas voltas do mundo, até as pedras se encontram de volta.
E assim chegamos ao fim de um conto engraçado e rimado, escrito para quem tenha senso de humor com os desencontros de amores passados e perdidos. E por coisas do passado não nos xingue de porcos chauvinistas algum espécime remanescente mais exaltado, tampouco nos linche com a pecha de machos ressentidos por conta de belas feministas, delas que perdemos para sempre naquela batalha das igualhas entre os sexos, de retração entre os opostos — contrários às leis da física, pela qual pólos iguais se repelem e pólos opostos se atraem, como ímã —, e de nós o nexo perplexo, que choramos, gememos e suspiramos por elas neste vale de lágrimas. Ó alma irmã, ímã gêmeo!
Ah, que belo desfecho! Bravo! Bravíssimo! Das vezes tão doces quanto as casquinhas de sorvete de ameixa com cereja e os beijos com os dentes vorazes do desejo.





