Desenho de  Wendy MacNaughton
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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:50 AM

O que realmente importa

publicado em


Cena 1 – Sala de apartamento classe média. Pai tentando ler.


Filha (7 anos, linda) — Papai, o que é guilhotina?

Pai (contrariado) — Hmmm?

Filha — O que é guilhotina, papai?

Pai (conformando-se com a interrupção, ma non troppo) – Guilhotina? Por que você quer saber?

Filha — Eu vi essa palavra numa revista sua.

(Era uma revista de história)

Pai — Guilhotina é um instrumento pra cortar a cabeça de uma pessoa.

Filha (assustada, ma non troppo) — Mesmo? Por quê?

Pai — Não se usa mais, foi muito usada na França, há muito tempo. Cortou-se um bocado de cabeças na época.

Filha — Por quê?

("Por quê?" é a pergunta fundamental. Esquecemo-nos disso, mas as crianças não)

Pai (querendo dar um fim na conversa) — Tinha uma moça que gostava de croissants e achava que bastava dar croissants pro povo, que ele quietava.

(Pausa. Pai volta aliviado pra leitura. Mas obviamente sua resposta tinha sido insatisfatória).

Filha — Papai, o que são croissants?


Cena 2 — Mesma sala do mesmo apartamento. Mesmos pai e filha.


Pai — (Cortando o charuto com uma guilhotina) — Tá vendo isso aqui? É uma guilhotina também. Corta a cabeça do charuto.

Filha (divertida com a utilização elástica da palavra) — E dá pra cortar o dedo também, né?

Pai — Dá isso aqui, que é perigoso menina.

(Pai acende o charuto e curte a música. Lacrimosa do Réquiem do Mozart. À sua frente alguns livros. Um deles é a análise do Anjo exterminador, do Buñuel, feita pelo Bráulio Tavares, ed. Rocco)

Filha (manuseando os livros) — Papai, o que é exterminador?

Pai (soprando a fumaça do charuto pra longe da menina) — É alguém que mata todo mundo (não lhe ocorreu explicação melhor, ia citar Schwarzenegger, mas achou melhor não).

(Filha pega a caneta vermelha que o pai sempre carrega para riscar seus livros enquanto os lê — ele não sabe ler sem riscar — e um pedaço de papel. Deixa o pai em paz por bem uns cinco minutos)

Filha — Papai, olha (mostra o desenho).

Pai — O que é? Deixa ver... (estuda o desenho por uns segundos — a filha, apesar da idade, desenha bem — certamente muito melhor do que ele). É uma nuvem e uma guilhotina em cima da nuvem?

Filha (toda contente porque o pai acertou na mosca seu desenho) — É o anjo exterminador.

(Pai desiste de ler. Apaga o charuto. Vai curtir a filha. O desenho fica guardado entre as páginas do livro. Daqui a uns vinte anos o pai abrirá esse livro e derramará uma lágrima. Ou muitas).
 

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