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POR EM 16/02/2009 ÀS 05:07 PM

O que havia de comum entre o Wando e os Beatles?

publicado em

Em quem você atiraria os seus tamancos ou alpercatas? Ah, se a moda pega... Do jeito que brasileiro é criativo, sabe-se lá que objeto utilizaria como arsenal de protesto. Ovos chocos e tomates podres são coisas do passado. Tortas na cara já perderam a graça. Eu, por exemplo, cria rasteira do cerrado goiano, usaria como munição caroços de pequi ainda dentro da casca. A pelota verde bem serviria para atingir o alvo com mínima chance de erro, sem baixas civis pelo fogo amigo.

Antes das eleições norte-americanas um jornalista iraquiano, valendo-se de nato talento bélico, arrancou do pé o sapato e o arremessou na direção do então Presidente George W. Bush. Gritando cobras e lagartos contra a autoridade americana, o hábil manifestante ainda teve tempo de sacar o outro pisante para uma segunda tentativa (afinal, todos têm direito a uma segunda chance...). Ambos os projéteis de mocassin passaram raspando pelo estupefato presidente. Demonstrando estar em boa forma física, Bush balançou o corpo duas vezes, desvencilhando-se com sucesso do ataque surpresa (parecia Sugar Ray Leonard no ringue). A cena hilária, apesar de grave, percorreu o mundo todo. Muita, mas, muita gente mesmo lamentou que as sapatadas tivessem errado o alvo. Bush foi um cara mau...

Na semana passada, inspirado no episódio iraquiano, um sujeito valeu-se do surrado tênis para tentar ferir o Primeiro Ministro chinês Wen Jiabao, quando este palestrava na Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha. Os seguranças logo se jogaram sobre o rapaz, cujo nome não foi revelado. Não se sabe ao certo o que motivou o ataque. A ousadia do atirador de tênis fez o Premier chinês arregalar os olhos de espanto.

Na bela canção “Geni e o Zepelim”, Chico Buarque de Hollanda (o bom) conta que uma cidade apavorada se quedou paralisada, pronta pra virar geléia, frente ao ataque surpresa de um Zepelim gigante. Todos, contudo, foram salvos por Geni, o travesti que, heroicamente, aceitou dormir e se lambuzar com o comandante da estranha nave. Após a partida do algoz misterioso, ao invés de gratidão, Geni ouviu do povo o enfático refrão: “Joga a pedra na Geni / Joga a bosta na Geni / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir / Ela dá pra qualquer um / Maldita Geni!”. Entre Geni, Bush e Jiabao, fico com o travesti. Sim. Conforme a letra da música, Geni cativara outro forasteiro: eu.

Wando era um sortudo. Ou não. Quando ídolo da mulherada (casada ou solteira, não havia limites para a libidinosa paixão...), estando no auge de sua carreira artística, o cantor teve o palco alvejado inúmeras vezes por calcinhas vermelhas (em sua maioria) atiradas por fãs ensandecidas. Reza a lenda que o cantor guarda baús lotados com peças íntimas de todas as cores e matizes, novas ou usadas, limpas ou marcadas com corrimento. Explorando o universo brega, Wando deixava as mulheres enlouquecidas e os maridos preocupados. Hoje, longe do charme meloso daqueles anos, o cantor pode se vangloriar da sorte. Embora o mau cheiro seja equivalente, antes sofrer uma chuva de calcinhas do que sapatos, ou cuecas...

No auge da beatlemania, nos primeiros anos da década de 60, os quatro garotos de Liverpool, embalados por sucessos contagiantes e nevrálgicos como “She loves you” e “I want to hold your hand”, sofriam com o arremesso de jujubas, balinhas, gomas de mascar e outros docinhos atirados pela legião de fãs tresloucadas que lotavam os auditórios da Inglaterra e dos Estados Unidos. Equivocadamente, as fãs buscavam, daquela forma, homenagear os carismáticos roqueiros. Em suas memórias, os Beatles relatam que repudiavam o assédio açucarado das moçoilas que algumas vezes provocaram tombos e outros acidentes no palco. Foram doces aqueles anos em que a música funcionava como instrumento de mudança social. Hoje em dia...

Quando já não existem mais entendimento e diálogo nas relações humanas, abre-se um campo funesto para a agressividade, atitudes como aquelas que envolveram os atiradores de sapatos. Para protestarem, para se fazerem ouvidos, muitos radicalizam ficando nus em público, abrindo faixas com palavras de protesto, quebrando protocolos, ofendendo o status quo. Durante o Movimento Hippie na década de 60, a juventude protestava deixando as cabeleiras crescerem, não tomando banho, transando como animais que eram (e somos), e se empanturrando de maconha, LSD e heroína.

Cada qual sabe onde lhe dói o calo. Cada qual emprega as armas que têm. Há que se tirar proveitos dos incidentes, como os ocorridos com Bush e Jiabao. Que os políticos jamais se afastem do povo, fazendo-se de surdos aos seus clamores mais legítimos, sob risco de se transformarem em alvos ambulantes. Wando e os Beatles foram exceções e gozavam de algo em comum: o amor incondicional dos fãs.

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