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POR EM 29/01/2010 ÀS 09:28 AM

O Ponto G e outras letras do alfabeto

publicado em

Não sei por que cargas d’água o assunto Ponto G voltou à baila na mídia nos últimos dias. Mistérios subliminares da comunicação e marketing. Tanta coisa mais relevante com que nos preocuparmos, como o fracasso de Copenhagen, o filme do Lula, a tragédia do Haiti e o flagelo da dengue no Brasil, mas leigos e “especialistas em Ponto G” teorizam a respeito do mesmo.

“— Onde fica, afinal, o Ponto G?! Ora, é fácil: entre os Pontos F e H”. A piada é tão batida quanto a dificuldade que o ser humano tem em lidar com a própria sexualidade. É como se diz: fazer sexo é uma necessidade básica, fisiológica. O duro é sair de uma transa melhor do que quando se entrou nela.

Somente após o advento da pílula anticoncepcional e da minissaia nos anos 60 (combinação tão explosiva, como o tição e a pólvora, ou Pelé e a bola), a sociedade principiou a quebrar os tabus e as cabeças dos estudiosos, gente interessada no emaranhado psicológico em que estamos metidos.

As disfunções sexuais se constituem umas das mais frequentes queixas em consultórios médicos, principalmente ginecológicos. Quando uma mulher está infeliz, ou conta isto pro ginecologista, ou inventa um sintoma e sai peregrinando pelas clínicas até que algum profissional cuidadoso se toque que a doença não é física, mas mental (psicossomática).

Por outro lado, de natureza bruta, os homens só procuram assistência médica em última instância, quando a coisa degringolou e os amigos do peito, mais o balconista camarada da farmácia da esquina, falharam no “tratamento”. Não é por acaso que os homens morrem primeiro que as mulheres. Há uma grande dose de ignorância e preconceito. Além disso, o estresse é o pior ingrediente que se tem notícia para degradar a saúde de um ser humano. É. Homens são nervosinhos...

Falta de libido, anorgasmia e dor durante o coito são queixas frequentes no universo feminino. Mesmo com o sincero empenho dos homens (ainda que vários deles estejam se lixando para isto) em descobrir (e explorar) o Ponto G, é nítido que a maioria deles não sabe e não quer aprender a lidar melhor com a sexualidade.

Não existem estatísticas totalmente confiáveis. Afinal, quando se trata de revelar as experiências sexuais, costuma-se mentir à beça. Mas é certo que não somos tão bons de cama quanto afirmamos (mais um caso típico de propaganda enganosa). A clara divergência de interesses entre homens e mulheres ao fazerem sexo (que muitos, cinicamente, chamam de “fazer amor”) torna o convívio bem complexo, em especial para os casais com “relacionamento estável” (conceito simplista e puramente temporal), sejam eles casados ou não.

Senão, vejamos: mulheres são criaturas argutas, falantes e com aguçada sensibilidade tátil, olfativa e auditiva. Perca seu tempo (e ganhe admiração de uma mulher) explorando cada milímetro de pele, cuidadosamente perfumado com uma suave fragrância, debulhando palavras de incentivo (obscenidades sussurradas ao pé do ouvido). É satisfação garantida ou seu dinheiro de volta (brincadeira, gente!).

Homens são seres genitais, precipitados, imediatistas, e de visão muito aguçada. Pobres diabos facilmente abatidos por saltos altos e lingeries. Impacientes parceiros nas preliminares. Negligentes e sonolentos depois que o orgasmo acaba com a brincadeira.

Com naturezas tão distintas, não se admira que os conflitos sejam corriqueiros. Parece que homens e mulheres nascemos um para o outro somente no plano metafísico, nas penas dos poetas. Nenhum ser humano tolera reconhecer que fracassa na cama.

A mídia nos vende como criaturas fogosas, atletas sexuais, machos e fêmeas sempre disponíveis, animais fabulosos dotados de ereções prolongadas e orgasmos múltiplos. Dentro de casa, sobre colchões surrados ou mármores friorentos, perseguimos aquilo que a propaganda de cerveja garante que somos: tigresas 100% a fim e garanhões sarados.

Há uma legião de analfabetos sexuais em busca do Ponto G, os mesmos que transam com bonecas infláveis e xoxotas de silicone. Ainda que nem saibamos recitar o bê-a-bá da tolerância mútua, vasculhamos uma suposta área erógena, de dimensões milimétricas, que se oculta nalgum lugar dentro da vagina (ou nas imediações), longe, bem longe do cérebro.

E mais: agitadores incansáveis, os cientistas garantem que os homossexuais masculinos também possuem o seu Ponto G (a consoante em questão não se refere a “gay”, mas a “Gräfenberg”). Segundo se acredita, ele estaria localizado nalgum local dentro do canal retal, logo acima do ânus, de parede-e-meia com a próstata. Não somos mesmo risíveis criaturas?!

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Comentários (5)

  • Amanda e Brasigóis, agradeço pelos comentários.

    2 anos atrás por EBERTH VENCIO
  • Eberth, permita só mais uma brincadeirinha sobre o tema do seu interessante artigo sobre a outra descoberta da América que vem a ser o tal ponto G: o falocrata quer descobrir o ponto G/como se o cujo fosse a América do prazer./Sai como um Pedro Álvares Cabral/ou Cristovão Colombo,/cheios de sonhos/de descobrir novas terras/para no fundo saber/queo tal ponto G/fica entre o ponto F e o H/nos interstícios da falácia que há/entre o Ser e o não-ser/.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Aos que fazem o amor ausentes de seu corpo – e por esta ausência lamentável nem chegam a pressentir o amoroso corpo parceiro, seria lícito saber que Colombo Matteo, médico quinhentista, descobriu o ponto G do mapa da mina ( aquele minúsculo botão de carne, o guarda pulsante do palácio do prazer). Matteo, perseguido e condenado em punição de seu feito histórico, só não foi morto na fogueira inquisitorial porque salvara a vida do Papa, em uma sangria perfeita. No ano da graça de 1500 Pedro Álvarez Cabral descobriu o Brasil. Colombo Matteo descobriu o ponto G. para você. Enquanto isso, outro Colombo (o Cristóvão) “descobria” a América, dando-se início a uma das mais selvagens, civilizadas e cristãs campanhas de extermínio étnico da história humana.Sem falar que por causa do tal ponto G e adjacências já homens mataram e mutilaram quase o que se matou em guerras civis ou militares.



    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • O sexo de que se fala não é o mesmo sexo que se faz. Nenhuma transa, namoro ou encontro amoroso nos liberta da angústia de não nos bastarmos com quem somos: eis a solidão da eterna incompletude humana. Toda transa e todo transe nascem de só nos realizarmos no encontro impossível da nossa solidão com a do ser desejado. Incompletos e distantes de nós mesmos, estamos geralmente fadados a fazer de nossos encontros fracassos anunciados. Já dizia Matteo, espanhol descobridor do ponto G: O ponto G está perto demais, ou demasiadamente distante do que a maioria dos homens tem esperteza ou lucidez para alcançar. Os poucos que o conseguem se frustram, e ficam a hesitar entre o ponto F. e o ponto H.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Muito bom o texto! Adorei!

    2 anos atrás por Amanda


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