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POR EM 16/11/2009 ÀS 10:44 AM

O poeta de vestidinho vermelho

publicado em

O poeta de vestidinho vermelhoEliosvaldo Neves é um poeta medíocre, mas teve uma idéia genial. Ele finalmente sacou que a sociedade, berço de toda hipocrisia, cultua o podre como se fora o suprassumo da intelectualidade. Apesar do Q. I. limítrofe com a idiotice, ele assim concluiu ao ver pela televisão (Eliosvaldo quase não lê jornais e livros...) a notícia da universitária safadinha que quase foi apedrejada pelos colegas dentro da faculdade por ter comparecido à aula trajando um vestidinho vermelho colado ao seu corpinho gorducho. A pergunta que não cessa: seria a sua calcinha também vermelha?!

Não bastasse o tumulto proporcionado pela fogosa e pelos universitários hipócrita-excitados, a diretoria julgou que seria justo e urgente banir a falsa loira do seu plantel. Eu soube que eles retroagiram na decisão, preocupados com os processos judiciais que certamente pipocariam, garantindo assim alguma grana à protagonista e seu astuto advogado.

Antenado às raras oportunidades para aparecer na fita e mostrar o seu “trabalho”,  Eliosvaldo entendeu que, protagonizando uma cena tosca no local certo e na hora certa, certamente a sua poesia viria à tona e o mundo tomaria conhecimento da sua existência, mais ainda, da genialidade e pujança da sua obra (cocô) poética. Teimando com literatura em Goiás tem muito tempo, o dublê de poeta se sentia injustiçado pela comunidade e humilhado pelos demais escritores, intelectuais do pedaço que ele considerava uma verdadeira “panelinha”.

Em breve, a moça do vestidinho vermelho (hum!!...vermelho... a cor do prazer, do pecado, e do uniforme do Vila Nova Futebol Clube...) vai conceder muitas entrevistas em programas de auditório, e brilhar nas páginas de revistas pornográficas em ensaios vitaminados. Nada mais justo e tesudo. Homem feio e de poucos predicados físicos, Eliosvaldo Neves sabia que mesmo aparecendo num ato contundente que alcançasse todos os meios de comunicação do país, não seria convidado a posar nu para revistas direcionadas ao público gay masculino. Teria os seus cinco minutos de fama sem precisar expor o pênis diminuto aos outros homens. Logo, tocou adiante o plano.

Precisava apenas de uma oportunidade singular. Foi então que soube da notícia. Um intelectual goiano morrera assassinado e o velório já estava rolando. Nunca tinha ouvido falar do sujeito. Pela resenha do segurança do cemitério, Eliosvaldo soube que a vítima era uma um médico renomado, professor universitário e um escritor dos mais respeitados no meio cultural goiano, incentivador das artes em geral. O cara nem devia ser tão bom o quanto diziam, afinal, nunca ouvira falar dele. Com certeza, era mais um daqueles escritores da “panelinha”, filhinho de papai, um burguês amigo d’algum secretário da Cultura.

Trajando o seu surrado paletó xadrez e a boina bege sempre encardida, Eliosvaldo Neves adentrou a sala de velório lotada derretendo-se em lágrimas. Supostamente comovido, ele abraçou os familiares com uma intimidade inequívoca. Reviu dezenas de escritores algozes e os açoitou com o seu desprezo. Uma idosa desavisada gastou tempo com ele explicando que o corpo do intelectual seguiria em breve para outra cidade, onde seria enterrado pelos familiares. Quer dizer, Eliosvaldo precisava agir rápido, antes que retirassem dali o cadáver.

Arrastou uma cadeira, subiu e principiou o discurso. Mesmo trocando o nome do defunto ilustre algumas vezes, Eliosvaldo prosseguiu a sua fala inflamada, provocando mal estar e indignação naqueles que já o conheciam, e uma estupefação, uma quase admiração, nos demais presentes que nem desconfiavam da farsa. Usando de estratégia maquiavélica, o hábil Eliosvaldo não enveredou pelos dados biográficos, detalhes da vida do morto. Abriu a bolsa hippie, catou o acervo amarrotado e declamou um seu poema velho e ruim à beça, e que ele jurava, fora escrito em tributo ao morto.

Impaciente, um jornalista dedurou o trovador ao segurança, aquele mesmo que passara todas as dicas a respeito do falecido. Como ele se negasse a descer do palanque improvisado (afinal, queria ler mais uns dois ou três poemas em memória ao querido amigo), Eliosvaldo saiu dali no colo do guarda.

Ainda não fora daquela vez... Eliosvaldo Neves teve um azar danado. Nenhum canal de TV filmara a sua derradeira (e sacrílega) homenagem. Irritado por não ter nascido uma universitária gostosa de vestidinho vermelho, o aspirante a poeta desceu a rua, ruminando a sua indignação com Deus, com a sociedade, e com os malditos escritores da sua terra natal.

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Comentários (1)

  • Por um minuto eu tive que parar de ler pra conferir se a coisa não tinha mesmo acontecido. Boa, Eberth.

    2 anos atrás por Tainá


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