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POR EM 09/12/2008 ÀS 11:34 PM

O planeta Lutz

publicado em

José A. Lutzenberger, cientista-ecólogo, profeta e poeta do viver - foi um dos primeiros, dentre os brasileiros a denunciar a devastação ecocida do planeta azul, tenha sido pura luz, nesta nave planetária, a orbitar sistema vivo que órbita a estrela sol. Ele esteve entre os pioneiros cientistas que a viram como o sistema vivo que é.

Tendo iniciado sua carreira como executivo de multinacional produtora e espalhadora de venenos agrícolas, mudou de lado, ao perceber que trabalhava contra o ser humano e pela destruição dos sistemas da Vida. De modo incansável, corajoso e profético, ele apontou para a fragilidade deste sistema capaz de reconstruir a si mesmo, se não for inteiramente destruído pelo Homo Sapiens.
           
Michel Foucoult assegurou que o Homem, tal como é e como se vê, é bem recente, datando de algumas centenas de anos - antes, por não se saber existente, era apenas um ente - não havia iniciado ainda a construção do Ser.

É terrível constatar que, mesmo existindo como Ser há tão pouco tempo, esta criatura, a única auto-consciente, tenha sido capaz de tamanha destruição, contra si mesma e contra a natureza de que é parte, e de onde tira o seu sustento. Mas há quem se afine com idéias de filósofos medievais, para os quais, grosso modo, a hominidade existe apenas como conceito, em nossos intelectos.

Na versão mais radical, de Ockam (1285-1347) conhecida como nominalismo, as idéias gerais não existem, são apenas nomes, ruídos que aplicamos a coisas reais, para designar semelhanças. A se acreditar nisto, talvez seja lícito pensar que em verdade "só existe a Vida - a menor dentro da maior, e todas dentro do Espírito Divino", segundo Edgar Alan Poe.

Lutzenberger partilharia com o etílico-sombrio poeta norte-americano esta visão da unicidade da Vida, percepção que defendeu e vivenciou, como arauto da Nova Era. Alguém com lucidez profética, capaz de perceber que "Ciência é a contemplação da beleza divina do universo. É um diálogo límpido e não destrutivo com tudo o que vive".

Como Albert Einstein, sabia José Antônio Lutz: "Toda vida é sagrada, inclusive aquela que perante o Homem parece inferior a si próprio".  A coragem com que denunciava a desumanidade e irracionalidade do mercado e da tecnologia fizeram com que fosse muito breve sua estada como Ministro do Meio Ambiente de Fernando Collor - a quem devolveu o cargo, com a dignidade e desapego que lhe eram inerentes, ao perceber que não teria apoio para fazer as mudanças necessárias no setor.

Para ele, um cientista capaz de emocionar e emocionar-se, a natureza nunca é obstáculo, mas solução: "A sociedade do desperdício não é sustentável, não pode sobreviver. Quanto mais PNB (Produto Nacional Bruto) mais exploração das fontes de vida, e mais desastres ambientais. Ele formulou uma imagem precisa, a denunciar a insensatez de tal modo de viver
 
O modo como devastamos os sistemas vivos dos quais dependemos para viver pode ser comparado à insanidade de uma pessoa que vai ao seu banco, pega todo seu dinheiro e o gasta irresponsavelmente, e acha que ficou mais rica com isto. "Beleza, harmonia e felicidade não se avalia com a medida do dinheiro. Estão longe de ser colocados como valores no mercado de futuros e de juros dos cassinos financeiros internacionais.

O Deus mercado é cego às verdadeiras necessidades da espécie humana. A dimensão de sua realização é a obtenção do lucro a qualquer custo. As gerações futuras não são objeto de sua preocupação". Ao mercado só interessa o que alimenta sua cupidez e usura. O Collor dos "negócios especiais" de PC Farias  reclamou, certa vez, de seu ministro: não entendia sua linguagem. De fato, não poderia mesmo entendê-la, o ambientalista reconhecido internacionalmente era um corpo estranho em sua equipe de aloprados criadores de neologismos "imexíveis" e de expropriação inédita na História.   

Para Lutzenberger, a globalização que nos impingiram os centros mundiais do poder (e da nova ordem mundial do Deus mercado) é a de fazer com que os pobres produzam e vivam com a mesma irresponsabilidade ambiental com que o fazem os ricos. Os pobres abriram mão do estilo de vida simples e harmonioso em relação à natureza, e passaram a ser tão consumistas e predadores quanto aqueles que historicamente colocaram no altar de sua adoração o consumir coisas, pessoas, produtos e ilusões, tornando-se elas mesmas coisas e produtos de consumo.

O resultado é o terem os agricultores tradicionais se rendido à tecnologia, a ponto de serem hoje apenas chofer de tratores e aplicadores de venenos químicos. Os médios e grandes produtores de soja que foram iludidos pela propaganda da Monsanto, que vende as estéreis sementes transgênicas de soja como solução para a excessiva aplicação de defensivos, hoje constatam que precisam aplica-los em quantidade ainda maior do que antes.

Tornaram-se escravos de uma multinacional, uma vez que todo ano têm de comprar novas sementes e insumos, sempre do mesmo amo tecnológico, a que ficaram atrelados, devendo remeter fielmente os royalts da servidão a que se submeteram. Afinal, a indústria que conta/conta/mina a nação".  

Em sua ganância por mais lucros, a tecnologia chegou ao ponto de produzir sementes sem poder de auto-geração, com risco de contaminar lavouras não transgênicas, o que pode levar o planeta Gaia à total esterilidade agrícola. Aos agricultores, todos os custos e lucros. Às indústrias de sementes e pesticidas, todos os lucros.  

Lutz certa vez denunciou, em palestra, a voracidade com que o ser tecnológico fura buracos na terra, em busca de petróleo, ou a devastar florestas e o cerrado, para obter carvão industrial, em vez de explorar outras fontes de energia, como a do sol, do mar e dos ventos. "O petróleo não está na terra para que o tiremos de lá, para nossas orgias energéticas, mas para que a vida possa continuar"  em si mesma, e não para a orgia do consumo de nossa civilização industrial global, que se tornou insustentável, a ponto de precisar de seis planetas iguais à terra, caso todos os povos fossem consumir nos mesmos padrões do europeu e norte-americano.

No sítio Rincão Gaia, seu corpo enrolado em pano de algodão, foi colocado diretamente em um buraco feito na terra, como ele queria. Assim pode voltar rapidamente ao seio do organismo Gaia, de onde veio. No momento da entrega de seu corpo à terra, caiu uma tempestade violenta, tornando mágico o momento para cerca de 200 pessoas presentes.

Era a natureza se manifestando, para receber o velho Lutz. Assim como também em forte chuva saudou a passagem do espírito de Mozart, que em seu leito de enfermo ainda há pouco compusera para si mesmo um réquiem imortal. Assim como de um modo ou outro os elementos saúdam e agradecem a vida fecunda e dinâmica dos grandes seres que vêm para melhorar este hotel do tempo.

À sombra de um umbuzeiro, árvore símbolo da resistência da vida, que mesmo ferida refaz a si mesma, ainda reverbera sua energia solidária e fraterna do gaúcho, de família alemã, que assim viveu e trabalhou - para que a vida possa continuar.    

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