O morto não presta
Estou lendo o livro “Além do Vão da Janela”, do escritor Fausto Valle, uma coletânea de contos lançada recentemente na II Bienal do Livro de Goiás. A obra seduz ao ponto de me incitar a reescrever um conto há tempos adormecido na gaveta dos escritos expurgados, um autêntico purgatório onde poemas e outros textos meia-sola aguardam segundas chances. Muitos deles jamais se salvarão da minha negligência. Alguns serão colocados à prova, como o conto que agora eu lhes conto, invadindo o espaço das crônicas semanais na Revista Bula.
“ — Você está chorando pelo seu pai, mas creia: ele não merece as suas lágrimas. Você sabe, ele não prestava”.
A mulher interrompeu o pranto, estupefata, indignada com o comentário atravessado sem pé e nem cabeça. Sentada ao lado do vistoso caixão de maçaranduba, negociado às duras penas por mil e trezentos reais, ela se comportava com um cão de guarda, atenciosa e fiel como sempre fizera. Levantou a cabeça expondo um semblante lamentável daqueles que sofrem. Aprumou os olhos sepultados em olheiras para fitar a interlocutora.
“ — Seu pai foi deplorável. Todo mundo sabe disso. A imprensa, os vizinhos, os paroquianos... Enxugue o seu rosto, mulher.”
A sala estava repleta de gente, pessoas conhecidas, rostos estranhos também, e mais aquele vereador que nunca faltava a um velório sequer. O funeral seguia desanimado como tinha que ser. Vagaroso, entediante, quente e empestado com o fedor nauseabundo das flores a enxergarem o defunto. Quase sempre é mais fácil pagar do próprio bolso por uma coroa de rosas do que encarar os parentes ou o próprio morto.
O comentário descabido incomodou a moça que era filha única, a criatura mais descontrolada naquele antro. Não contava jamais que alguém viesse denegrir a imagem do pai num momento tão dramático, ocasião das mais inoportunas para desfilar fraquezas.
“ — Vim aqui pra lhe dizer aquilo o que a maioria dessa gente preferiria gritar aos quatro cantos da cidade, mas não têm coragem. Não vou mentir, querida. A morte do seu pai foi uma das melhores coisas que aconteceram nos últimos anos para a humanidade.”
A moça finalmente se levantou da cadeira, irada, disposta a enfrentar a antipática, a incógnita confidente a sussurrar nos seus ouvidos. Levantou tão depressa e estorvada que esbarrou o corpo num candelabro, derrubando-o no chão, por muito pouco não atingindo um bando de carpideiras a chorar pelo morto, ainda fosse ele um crápula.
“ — O que foi, filha?” quis saber a mãe, assustada com o lampejo da moça.
“ — É essa maldita mulher a me dizer coisas do pai”.
“ — Que mulher, minha filha? Que mulher?”.
Não avistara mais a enxerida. Teria ela fugido ou se acovardado para o embate? Quem seria aquela criatura inconveniente e tão íntima da verdade? Olhou aflita para o corpo. Ele tinha um semblante tranqüilo e parecia até mesmo sorrir, um misto de Gioconda com Al Capone. Abanou a mão trêmula quatro vezes, criando vento, afugentando uma indesejável mosca metálica a zunir sobre a pele fria do falecido. O rosto enigmático fazia crer que ele apenas dormia. Um mesmo sorriso endiabrado que ele botava na cara quando invadia o quarto para molestar o sono da filha.






