O marido da mulher-coisa
Tavares passou dos trinta solteirão da silva xavier. Alcançou os quarenta e dos quarenta já ia passando, completamente insensível aos apelos do casamento. Não que fosse gay ou frio, tão pouco auto-suficiente, daqueles que se contentam com os orifícios artificiosos de mão, no sexo artesanal.
Ocorre que Tavares era detentor de uma fobia incontornável em relação à intimidade. Dormir na mesma cama respirando os vapores recíprocos, fazer duetos de tosse e outros sons escrotos, confundir os dejetos no mesmo pinico, escovas se abraçando no mesmo porta-trecos... essas coisas lhe causavam gastura.
Sem contar que pelava de medo de ter que enfrentar um diálogo e isso levasse a parceira ao fatal convite: Bem, vamos discutir a relação?! Não. Tavares jamais cairia numa armadilha dessas. Para suprir sua necessidade de fêmeas, ele as pegava nos bordéis, nos inferninhos, nas baladas. Com o cuidado de não repetir para não travar intimidades. Sexo só com estranhas.
Agora por último andou lendo essas revistas de psicologia vulgar e descobriu que existe um tipo de mulher que lhe despertou grande interesse: a chamada mulher-objeto ou mulher-coisa.
Em suas rotineiras garimpagens de fêmeas descobriu uma baixinha, de nome Leylane, que se enquadrava perfeitamente no que ele imaginava ser o perfil de mulher-coisa.
Com ela travou um relacionamento distancioso, artificial, sem nunca deixar que ela arrombasse os arames de seus feudos pudorentos. Entraram num jogo como se estivessem num túnel com um tigre correndo atrás: não havia outra opção que não fosse sair do outro lado. E sair do outro lado implicava cumprir os rituais do que mais lhe causava urticária: casamento.
Cumprindo as regras do jogo, Tavares desposou Leylane. Mas era público e notório que Leylane era uma típica mulher-coisa. Todo mundo sabia. Mas todo mundo mesmo. Inclusive o Estado, em suas ramificações burocráticas.
Depois da nupcial cerimônia, saíram numa viagem errática de lua-de-mel; o homem refratário e sua mulher-coisa.
Foi então que Tavares percebeu que a burocracia é um negócio mais pernicioso que um relacionamento íntimo. Como levava uma mulher-coisa, teve problema logo no posto do Ibama. Ali foi multado porque havia pegado uma mulher que não atingira ainda (e não iria atingir nunca) as medidas mínimas exigidas para a espécie.
Algumas dezenas de quilômetros depois foi novamente multado numa blitz do Inmetro, porque a coisa que levava não obedecia aos padrões métricos para aquele tipo de objeto.
Ao fim do dia, já cansados, suarentos e mal-cheirosos, Tavares foi interceptado numa barreira da Vigilância Sanitária. Onde não só foi multado, como teve sua mulher-coisa apreendida, sob a alegação de “impróprio para o consumo”.





