O jogo mais chato do mundo
Num espetáculo de teatro, quando mais de quinhentos espectadores comparecem, os atores se emocionam, há brindes nos camarins, e pizzas são pedidas pelos tele-entregas. É a certeza do sucesso, o reconhecimento do público após meses e mais meses de trabalho árduo, ensaios, muita ansiedade e falta de grana. O teatro, que deveria ser popular, não é ofício pra qualquer um. Nem pra quem faz; nem pra quem assiste.
No futebol brasileiro, quando dá menos de cinco mil pagantes no estádio, muita gente critica, menosprezando os clubes, desfazendo da própria profissão, querendo saber por que é que o povo sumiu dos estádios meu-deus-do-céu... Penso que os promotores deste esporte no Brasil estão é “pegando o boi”, como se diz na gíria. O teatro, por exemplo, não conta com tantos otários como o futebol...
Motivos para os torcedores debandarem dos estádios não faltam. A começar pelos próprios jogadores, em sua maioria, muito incultos, falantes, robotizados, manipulados por procuradores mercenários, e que trocam de clube como se trocassem camisas após os jogos. Como tudo na vida, fala mais alto o dinheiro, em detrimento do compromisso moral, do empenho da palavra, e mesmo da formal assinatura de contratos. Nada que um bom advogado não destrinche e resolva.
Os analistas entendidos garantem que o futebol de hoje está “pegado”, viril, formal, previsível, chato de se ver. A força física sobrepuja a habilidade dos atletas. E ai daqueles que ousam driblar e fazer jogadas de efeito. São caçados no gramado pelos próprios colegas de profissão, intimidados a pontapés, xingamentos, ameaças e cusparadas. Com medo de perder os empregos milionários, a maioria dos técnicos de futebol incentiva o jogo covarde, optando por táticas retranqueiras que fazem do gol um acidente de trabalho.
Grande parte das praças esportivas brasileiras está caindo aos pedaços. São espeluncas perigosas de se freqüentar e não proporcionam o mínimo conforto ao torcedor. A começar pelas cadeiras, rigorosamente emporcalhadas, defeituosas, ou mesmo, inexistentes. Tomados por estupidez gratuita, há quem as arranquem para ferir terceiros em atos flagrantes de selvageria. Os assentos não são numerados, de tal forma que, nos jogos mais importantes, quando o público invade o estádio numa espécie de transe e amnésia coletivos, há que se chegar com muita antecedência, sob risco de assistir em pé ao jogo, apesar de ter pagado caro pelo ingresso.
Quem se aventura a usar os toaletes tem que fazê-lo sem parcimônia. Os mictórios estão sempre sujos e mal cuidados. Dentro deles, homens se espremem disputando espaço para urinar em latrinas deploráveis. Alguns se julgam mais espertos e aliviam as bexigas ali mesmo dentro das pias e lavatórios.
Há muito tempo, as emissoras de televisão mandam no futebol brasileiro. As tabelas e horários dos jogos baseiam-se na programação das novelas e na boa vontade dos executivos pomposos. Chega-se ao cúmulo, por exemplo, da transmissão de jogos pelos canais abertos para a própria cidade onde ocorrem as partidas. E mais: quem tem bala na agulha, compra a assinatura da TV fechada e assiste aos jogos em casa, sem gritos de guerra, sem empurrões, sem cambistas, sem as “ôlas” e sem mijo no lombo. Ou seja, só sendo besta pra ir ao estádio.
A autoridade pública, inoperante em vários aspectos, colabora em muito com a falência e descrédito do futebol. Leis esquisitas, arbitrárias, ditam novas regras que insultam a inteligência e o bom senso. Por incompetência, proíbem-se: a venda de cerveja nos estádios e nas imediações; a entrada de torcedores trajando a camisa do seu time; o acesso de adolescentes desacompanhados dos pais; o uso de bandeiras e instrumentos de percussão, etc. Quer dizer, já que são incapazes de identificar, prender e processar os arruaceiros e os bandidos travestidos de torcedores, prejudicam a grande maioria que é pacífica, ordeira, educada e, claro, trouxa. São medidas tão duvidosas como cortar o próprio pescoço para tratar uma dor de cabeça.
Quem se arrisca a ir de ônibus para o estádio, depara-se com latas de sardinhas onde os trombadinhas deitam e rolam. Os que vão de carro próprio, entregam-nos à vigilância compulsória dos “flanelinhas”, habitualmente gente desempregada em busca de uns trocados.
Resumindo, ficou tão insano a gente sair de casa para ir ao estádio de futebol que, em breve, só os idiotas e os fanáticos o farão. Cuidado, senhores cartolas: com educação e cultura o fanatismo atrofia, e os teatros começam a ficar lotados...
Parece mesmo que o futebol vai se tornar tão somente um burocrático jogo de estúdio, sem cor, sem torcida, sem emoção. Tudo por causa da incompetência, burrice, ganância, prepotência, má fé, ou todas estas coisas juntas.














