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POR EM 23/02/2010 ÀS 02:51 PM

O General e os veadinhos

publicado em

Raymundo Nonato de Cerqueira FilhoNão se trata de uma animação dos estúdios Disney, nem de uma fábula de La Fontaine. Maria Antônia quer sim se casar. A piauiense é enfermeira, “encalhada” (como ela mesmo se declara) e garante correr contra o tempo na busca por um grande amor. 

Entre um curativo e outro, a simpática enfermeira reclama que aqui nesta cidade o “índice de viadagem” (de novo, palavras saídas da boca de Maria Antônia) está elevadíssimo, e ela não consegue namorado de jeito nenhum. Conversando com amigas, todas, assim como ela, emperradas na solteirice, Antônia desconfia que haja muito hormônio na carne bovina que se consome na região, fator responsável pelas alterações nas gônadas de homens e mulheres. 

Quem sabe — ela teoriza — não haja uma sabotagem na empresa de saneamento que abastece a cidade com água tratada. A suposta proliferação de algas azuis (e de outras cores do arco-íris) produziria toxinas danosas ao DNA celular, fazendo com que homens preferissem homens, e mulheres perdessem a delicadeza. Maria Antônia planeja mesmo é voltar pro Piauí, “terra onde os homens não negam fogo”. Lá se toma água diretamente no poço... 

Também oriundo do Nordeste brasileiro, um general das Forças Armadas (e que tem nome de cabra-macho) fez, recentemente, uma declaração polêmica à Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Indicado para ocupar uma vaga no Superior Tribunal Militar, o general foi sabatinado (e sacaneado) pelos senadores. Lá pelas tantas, eis que brota a capciosa questão: “ — O senhor é favorável à presença de homossexuais nas Forças Armadas?”. 

Depois de respirar fundo, prevendo o impacto negativo da resposta, o general disse que não, que não era favorável à presença de gays nas Forças Armadas. A não ser que o soldado fosse um “gay digno”, discreto, não declarado, camuflado. Enfim, que não saísse do armário, muito menos se perdesse em trejeitos efeminados dentro do quartel ou no front de batalha. Além dos traficantes que mandam na vida da gente, estamos em guerra contra quem mesmo?! 

A declaração do general, conforme ele próprio já previa, incitou o ódio entre os gays alistados e não alistados, e um relativo grau de indignação entre os heterossexuais. A maioria, contudo, assinaria embaixo. 

Ainda que imerso em preconceito, o militar expressou com relativa delicadeza o seu pensamento. Afinal, como qualquer autoridade autoritária faria, poderia ter retrucado com truculência, esmurrado a mesa, perdido a compostura. Não. Ele não mentiu. Expressou a sua verdade, a verdade na qual acredita. A verdade que predomina entre os recrutas, os oficiais e — como negar — a população brasileira. Obrigado, general, por não mentir para os ilustres senadores (a recíproca quase nunca é verdadeira...). 

Não se tem notícia de um exército que se gabe, que aceite de bom grado a presença de gays em suas tropas. Os EUA, que se autointitulam baluartes e defensores da liberdade de expressão, após expulsarem milhares de recrutas nos últimos anos, estão revendo a legislação vigente, pois a mesma não tolera a presença de gays nos seus quadros. Como se sabe, alguns países ainda mais conservadores tratam os casos de homossexualidade com a chibata, a lâmina da espada ou o fuzilamento. Não tem conversa.  

Há anos o homossexualismo foi retirado do rol de doenças mentais pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Retirar um código de um livro repleto de moléstias até que não é tão difícil quanto se imagina. Complicado mesmo é que a sociedade conviva plenamente com a homossexualidade no cotidiano, nas repartições públicas, dentro da empresa, na escola, na vizinhança, na turma do futebol, entre os colegas da sauna, no pessoal do carteado, dentro da igreja, no meio da parentalha, na casa da gente, um filho, uma filha, o próprio cônjuge adepto da bissexualidade. 

Cada qual ao seu jeito, o general e Maria Antônia defendem um ponto de vista que ainda vigora em nossos dias. Viver em sociedade tem destas coisas. Discursos antagônicos, comportamentos contraditórios. Se o craque do nosso time predileto (gay) faz um gol decisivo, é promovido a semideus. Se ele perde um pênalti, é uma “bichona” incompetente que deveria apanhar na cara. A hipocrisia corre nas veias. 

Embora, polido, o general expressou um sentimento arraigado na sociedade brasileira e que deve demorar muitas gerações para fenecer. Na mesma situação, frente aos sisudos senadores, microfones, câmeras de televisão, muitos mentiriam veladamente. A maioria se coloca favorável à diversidade de opinião, à liberdade de expressão e à opção sexual, desde que os “veados” e as “sapatas” sejam os filhos dos outros. 

Parabéns, general, por não mentir. Mesmo que tenha desagradado a muitos, mesmo que tenha sido um lamentável equívoco, uma declaração antiquada, uma gafe, um contundente exemplo de insensatez. Mas, cuidado, senhor: não se deve contar sempre com a “incapacidade dos homossexuais em liderar exércitos”. Alguns historiadores garantem que Hitler era gay.

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Comentários (2)

  • Caro Brasigóis, Hitler foi incompetente (felizmente) ao não cumprir o seu plano de dominação. Contudo, um líder eficiente e extremamente carismático que convenceu uma nação inteira nos primeiros anos do seu regime. Grato pelo seu comentário, amigo. Abraço.

    2 anos atrás por eberth vêncio
  • Todo louvor a este General, que não foi hipócrita, nem foi tangido como gado, na onda do politicamente correto. Quanto a Hitler, se de fato era gay, não foi tão competente assim, no plano militar, haja visto o desastre a que levou a Alemanha, e todas as nações que a insanidade nazista arrastou e arrasou.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio


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