O galo e as sombras
Era o mais parrudo daquela ninhada; pelo menos uma vez e meia o tamanho dos outros pintinhos. Seu porte avantajado foi acentuando-se mais e mais à medida que o tempo. Ainda sob a aba da mãe, chegou a mais que o dobro dos irmãos. Quase um frango. Bem desajeitado. Mas nenhum outro de sua geração logrou ser tão graúdo.
Foi o primeiro a manifestar os temperamentos de macho. Tirar um canto, ensaiar uma dança ao redor das franguinhas, arrastar uma asa para uma galinha popozuda.
O caseiro um dia me disse, a título de sugestão: “Este nós vamos deixar pra galo.” “ Não seria pra galinha?” — caçoei. “É...” — e conforme o sugerido a sorte do frango foi selada; seria o galo do terreiro.
Em pouco tempo vieram as barbelas, a crista de meia roseta, as esporas afiadas, a plumagem de fantasia; essas coisas de aparatos de galo. Quando a macheza definiu bem, chegou a manifestação da valentia incondicional.
Começou o processo de revogação dos concorrentes. Tornou-se um emérito encrenqueiro contra os demais frangos. E, com o uso impiedoso de suas armas, foi eliminando os rivais. O caseiro chegou a encher o freezer com os frangos que perdiam o duelo. Pra não pegar infecção nos ferimentos ele, o caseiro, matava os sobreviventes depois da derrota.
Eliminados os concorrentes de sua iguala, o macho presumido partiu para comprar desavenças com os galos mais velhos, que gordos e distraídos no bem-bom de seus haréns, sequer percebiam a ameaça que vinha vindo. Com o vigor da juventude e a habilidade adquirida nas batalhas em série, foi batendo um a um até dizimar a nobiliarquia dos galos estabelecidos.
Finalmente absoluto, unificou os haréns e o comandava com ordens duras e punições severas. No entanto, um dia o caseiro viu e me mostrou que havia uma galinha no bando que na verdade não era galinha. Suas decorações de macho eram bem discretas, não batia no peito nem cantava como os galos, mas era um galo que, protegido pelo disfarce, vinha comendo pelas bordas. Chegou a ponto de, certa vez que uma galinha morreu deixando órfã uma ninhada, esse galo dissimulado assumiu os pintinhos e como mãe os tratou, mas sempre com extremo cuidado, para não se submeter às investidas do macho do lugar.
O galo convicto nunca descuidou de cantar pro sol se pôr, pro dia nascer perfeito. Sempre protegeu o bando, arranjando ninhos, localizando melhores pastos, trucidando serpentes e teiús, afugentado os gambás, desferindo golpes de esporas e berros de proprietário contra os gaviões. Agora, já entrando na madureza, pegou umas esquisitices. Deu pra quebrar os ovos nos ninhos das galinhas chocas, como a eliminar os rivais no nascedouro. À tarde ou de manhã, quando sua sombra se projeta em alguma parede, ele se arrepia inteiro, compra briga com a própria sombra, desfere golpes malucos ao vento. Até peita a parede, numa luta inglória.
Ele não sabe por que nem por quem, mas fareja no ar que seu reinado está indo pro beleléu.














