O editor maluco
Duas moças de corpos longilíneos, uma ruiva e a outra loira, gestos elegantes, cabelos bem tratados, dentição perfeita e óculos de grife. A vestimenta casual e esvoaçante completava com esmero o belo conjunto. No meio da manhã de uma segunda-feira brava, dessas que ocorrem depois de um feriadão, elas bateram à porta do editor. Ele é mais conhecido pelo humor azedo do que pela sensibilidade refinada que se espera de alguém que exerce uma profissão tão cheia de sutilezas.
Na presença daqueles dois exemplares femininos perfeitos, estaria mais inclinado a fazer uns gracejos de natureza lúbrica do que arrotar o seu mau humor costumeiro, mas como a esposa trabalha na sala ao lado e de comum mantém a porta aberta, não lhe restava outra alternativa: ia mandar mesmo era de mau humor.
— Pois não! — disse secamente, sem olhar direito pras moças, enfiando uns papéis no espeto, ao lado do telefone. (Mais um gesto de mau humor do que de insinuações eróticas).
As moças entreolharam-se ligeiramente perdidas.
— É que minha amiga — disse a ruiva — escreveu um livro... ouvimos dizer que o senhor é o editor mais conceituado daqui e tal...
— A loira escreveu um livro... hum! procura outro editor. Não tenho interesse não. A não ser que seja a história de suas experiências apimentadas. Ou então um depoimento do tipo: Eu, fulana de tal, sequestrada e estrupada aos 12 anos...
— O senhor está sendo deselegante... — protestou a loira.
— De que trata seu livro? — meio que ponderou o homem detrás da mesa, fazendo um gesto tardio para as moças se sentarem. Ele também sentou e enfim as olhou nos olhos.
— O livro dela, diz a ruiva, é um romance denso que aborda ambições, crimes, mercado de arte, psicologia, uma trama de engolir o fôlego. Uma história séria e muito interessante.
- Bobagem, diz o editor em tom professoral. Qualquer história realmente séria e interessante já foi escrita e está na Bíblia. Quando alguém quer ler uma história interessante vai na Bíblia. Livro moderno tem que ter é fofoca, pimenta no dos outros. É isso que o mercado quer.
— O senhor é preconceituoso e nivela as coisas por baixo...
— Ah, meu deus, eu mereço... Mas o que você já fez antes, assim de extraordinário que possa dar red bull à sua assinatura?
— Olha, disse a ruiva, ela é a artista plástica Sira Yasbeck, reconhecida mundialmente. Eu sou a marchand dela. Será que isso conta?
— Taí, gostei dessa história. Uma loira bonita, que pinta quadros, famosa pelo mundo afora, e seu macho é uma ruiva também bonitona. Me traz essa história escrita com ganchos, laços, suspenses e contrapontos que eu tenho o maior prazer em publicar.
— Um grosso, isso é o que o senhor é — disseram em uníssono. E as moças foram saindo como dois anjos escoiceados, esvoaçando dentro da manhã de pleno sol.















