O dinheiro sujo do almoço grátis
Na edição de 3 de março deste ano do “New York Times” há uma matéria cujo tema tem sido alvo crescente das discussões no meio médico, com reflexos para toda população, mais cedo ou mais tarde. Trata-se da relação entre a indústria farmacêutica e os médicos, e, nesse caso, médicos professores de uma universidade que é considerada uma das melhores do mundo.
Não é novidade para ninguém que médicos ganham brindes de representantes que vão de canetas e chaveiros a agendas e calendários. Todo mundo sabe também que os médicos ganham amostras grátis de medicamentos. De maneira geral, tanto os médicos quanto os pacientes, encaram esses pequenos presentes como inofensivos. E são mesmo. Ou alguém se imagina receitando mais por causa de uma caneta ou agenda? No caso das amostras, inclusive, são úteis aos pacientes. Por exemplo, pode-se testar um colírio para pressão ocular sem que o paciente gaste com o teste. Se o colírio funcionar, aí é que o paciente passará a comprar.
O problema começa quando os presentes aumentam de tamanho. Jantares caros, viagens (às vezes internacionais, com tudo pago). Vai ficando difícil não se deixar influenciar, ainda que subconscientemente. (O mesmo vale para integrantes do governo, diga-se de passagem, cujo código de ética, se não me engano, permite presentes de até cem reais apenas). Essa influência é tão impressionante que pode tomar conta do indivíduo mais cuidadoso. Certa vez eu estava num congresso em São Paulo e assisti a uma palestra, patrocinada por um laboratório farmacêutico, dada por um expoente em determinado tema. Acontece que eu conheço razoavelmente bem a pessoa e sei que é essencialmente ético. Mas sua palestra foi tão enviesada pro lado do medicamento em questão que chagava a ser ridículo.
Por outro lado, já tive também a oportunidade de assistir a palestras de “expoentes” (cabem as aspas aqui pois se trata de expoentes de marketing mais do que de medicina) também patrocinadas e também enviesadas, só que neste caso era descarado. Infelizmente, nem todo mundo na platéia tinha esse discernimento. Comentando com amigos (mais atentos) no intervalo, ficamos surpresos de constatar que a maioria não tinha se dado conta do descaramento.
Voltando a Harvard. A questão lá é que a indústria farmacêutica desenvolve várias pesquisas em conjunto com os professores da universidade, e esses nem sempre são transparentes com seus alunos. Hoje em dia exige-se que o pesquisador diga em sua aula ou em seu artigo se tem algum tipo de afiliação financeira com algum laboratório. Por conta disso há um grupo de alunos e professores fazendo um movimento para diminuir as ligações entre a indústria e a universidade.
Se isso acontecer, será o caso clássico de se cometer um erro para consertar outro. Ora, Harvard é boa, entre outras razões, porque é rica. Tem muito dinheiro para pesquisa e para pagar bem seus professores e ter laboratórios bem montados. As fontes dessas riqueza são muitas (doações, mensalidades caras, etc), mas está entre elas o dinheiro fornecido pelas indústrias. Principalmente no caso de financiamento de pesquisas. Se cortarem ou diminuírem esse fonte, a universidade perderá com isso (não só Harvard, mas qualquer universidade).
Uma besteira parecida com a Lei Seca. Em vez de investirem na fiscalização da obediência da lei que já existia, inventaram outra mais rígida sem dar o suporte da fiscalização. Resultado: logo, logo tudo voltou a ser o que era antes. É o que deveriam fazer no caso da relação indústria-universidade, ou seja, fiscalizar para coibir abusos.
Se é verdade que não existe almoço grátis, não necessariamente é verdade que o dinheiro que paga o almoço é sujo.
Flávio Paranhos é médico. Coordenador da Coleção Filosofia & Cinema e autor do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial). Colunista da revista Filosofia Ciência & Vida (Editora Escala) e dos sites www.revistabula.com e www.mundomulher.com.br














