O arauto transcendental
Era uma tarde de dezembro com seu mormaço costumeiro em que eu despachava na UBE os papéis do dia-a-dia. Nada de extraordinário parecia acontecer naquele turno, a não ser por umas muriçocas rajadas, que dizem ser transmissoras da dengue, que insistiam em me cortejar. Eu tentava esmagá-las entre as mãos. Elas apenas recuavam em vênias, como quem agradece pelo aplauso.
Nisso a secretária me anuncia um escritor novato, que desejava me falar. À primeira vista, não parecia alguém ligado a livros. Alto e esquelético. Pele crespa, cabelos maltratados, com jeito de quem cresceu com alto déficit calórico e exerce alguma atividade ao sol, na poeira. Talvez fosse tratador num confinamento de bois.
Convidei-o a sentar-se. Parecia espantado, olhando ao redor com sofreguidão. Mas curiosamente me solicita que feche a porta. Queria me dizer algo em segredo. Confesso que fiquei cismado, mas o atendi. Mais à vontade, começou a falar como quem tivesse comido molho de quiabo.
— Moço, sou muito pobrinho e não gosto de ser famoso. Só quero 50 mil preu comprar uma casa pra minha mãezinha!
— Como assim, 50 mil? — indaguei.
— Ah, como sou lerdo. Aí o sr. não vai entender mesmo. É que eu escrevi o livro mais importante do mundo. Tá lá em casa. Mas não quero publicar no meu nome, que eu não tenho temperamento pra ser famoso. Por isso eu vendo ele pro sr. por 50 mil, compro a casinha pra minha mãe, e pronto. O sr. pode assinar o livro como autor. Não precisa nem me fazer agradecimentos.
— Mas o que de tão importante você escreveu nesse livro?
— Meu livro revela a origem do universo. Não só do universo, mas até a origem de Deus.
Até hoje a ciência consegue ir só até o Big Bang. Mas eu, não. Meu livro vai até zilhões de anos antes do Big Bang. Até zilhões de anos antes do infinito.
Meio bolado, indaguei: você já ouviu falar de Einstein, Humbble, Stephen Hawking?
— Ih, essa turma pra mim é tudo neném. Eles tão engatinhando numa coisa que eu sei voar. As teorias deles só passam rapando.
— O que você cursou? Estudou onde?
— Eu só fiz o primário numa escola rural. Mas com estudos não chega aonde eu cheguei não. O que eu sei foi tudo revelação de Deus. Revelação direta, sem intermediários. Sou pobrinho e não gosto de ser famoso. O sr. me comprando o livro, pode se preparar pra receber o Nobel.
— Mas por que Deus escolheu você?
— Isso também tá no meu livro. E tem menos de 100 páginas. Deus, o sr. sabe, não tem gagueira na língua nem faz rodeios. É direto. É 50 mil e eu compro a casinha pra minha mãe.
Depois de dizer um tanto de outras coisas igualmente assombrosas, foi saindo, meio perturbado. Então eu disse: deixa eu dar uma olhada, quem sabe?
Já na rua, foi andando pra direita. Mas imediatamente, retornou pra esquerda com determinação e se foi, sem me dar esperanças.















