O apito dos afogados II

Acho mesmo que todo aparato que o engenho humano seja capaz de montar sobre, por baixo e até forada Terra para ter controle sobre os fatos e tornar sua vida mais previsível e segura não passa, no frigir dos ovos, de um apito de afogados. Nos mesmos moldes daquele apito que a Marinha exige seja colocado nos coletes salva-vidas e que você deva soprá-lo em caso de afogamento.
Todo sistema de segurança humano é montado sobre uma plataforma de pré-requisitos para funcionar. E a primeira providência de uma situação emergencial ou de desastre é criar o clima de pânico, instalar um ambiente de singularidade, com a exclusão de todos ou de alguns pré-requisitos, de tal sorte que nada funcione conforme o planejado. Qual afogado terá fôlego para soprar o apito?
Acreditava-se que não havia em parte alguma lugar mais seguro do que o interior das Torres Gêmeas, até o ataque de 11 de setembro de 2001. Elas (as torres) estavam no local mais protegido, do país mais protegido do mundo. Afinal eram o coração financeiro do sistema globalista (a configuração atual do Leviatã pós-industrial). Eram mais que isto; o ícone de um sistema de vida que chegou a um ponto de hegemonia tal a ponto de se julgar sem rival.
Mas quando o campeão de estratégias assimétricas, o líder que permanece vivo para convencer os liderados a morrem pela causa, o sinistro Osama bin Laden despejou os fumegantes aviões dos próprios americanos sobre as malfadadas Torres Gêmeas, no miolo de Manhantan, não restou um dispositivo sequer para afugentar a ameaça alqaedeana. Tudo virou apito de afogado.
O próprio presidente americano, o prepotente e belicoso George W. Bush, com o cu na mão, fugiu como um ratinho de esgoto, e ficou ziguezagueando entre bases militares, rodeado de guarda-costas e mísseis antiqualquercoisa, desconfiado agora de que nem os apitos da Casa Branca poderiam ser soprados na iminência de outros ataques suicidas.
Para não ser tão colonizado e ficar só pegando exemplo dos outros, o caso do recente apagão no Brasil é um outro caso de apito de afogado. As autoridades do setor dizem que o sistema de geração e transmissão de energia do Brasil é mais seguro do planeta Terra. De Marte não se sabe. Ainda assim, se houver alguma falha no fornecimento de energia, você pode ligar para o telefone tal que em pouquíssimo tempo uma equipe de norrau aparecerá para corrigir o problema.
Mas bastou que alguns trovões (que não houve) latissem para um centro de distribuição na região Leste de São Paulo para semear um blecaute em 18 estados, incluindo os mais populosos e ricos do País, levando o pânico a elevadores, estoques de alimentos e remédios e UTIs. A partir de então os telefones não funcionaram para chamar o pessoal da emergência. E quando alguém conseguiu comunicar com sinais de fumaça, os carros de socorro não se deslocaram, porque os semáforos não funcionavam e as ruas se entupiram com os automóveis baratinados. Todo o aparato de prevenção de imprevistos do sistema de força do País se revelou um apito de afogado.
Pior é quando a burocracia monta um esquema de controle do controle do controle para controlar a verba que é pública mas insiste em se tornar privada. Os responsáveis pelos círculos concêntricos de controle se fecham em quadrilha e ninguém quer soprar o apito. Mas se alguma pessoa sopra inadvertidamente, ah,meu amigo, aí ninguém escuta.





