O apito dos afogados
Vai virando tradição; este ano fui outra vez pescar no Pantanal, no rio Paraguai, na foz do rio Miranda. Pela força com que bate na margem esquerda, o Miranda provoca na margem direita do Paraguai um apêndice, que conduz a água pela mata adentro, até muito longe; a conhecida baía de Albuquerque. Nessa baía, a 40 km de Corumbá, na Pousada do Gordo, foi que novamente ficamos.
Minha turma era quase a mesma do ano passado. O Carlos Magalhães, chefe da expedição, seus filhos Daniel e Alessandro, este meu genro. Esta, a turma de Goiás. De Minas vieram duas turmas a se juntar a nós: o tio Zé com os seus, de Luz, e o primo Marcelo com sua galera de Belo Horizonte, trazendo um carregamento maluco de minhocuçus. O sonho de todos era o mesmo de sempre: fisgar o Grande Surubim.
Chegamos à pousada e reinava o maior tititi. O bizu da vez era que o presidente Lula tinha estado recente em sua fazenda às margens do Miranda e ele próprio pegara o maior surubim dos últimos tempos, desses que só vão mesmo em anzol de presidente. E para dar exemplo aos circunstantes, retornara o peixe ao rio. Agora, esse surubim-açu estaria por ali, entre o Miranda e o Paraguai, numa corredeira, num remanso. E como peixe tem a memória fraca, estava pronto para morder outro anzol. A ideia de pegar o que agora já era chamado de O Surubim-Lula, mais os azougues da Paceña boliviana, deixava a todos alvoroçados para a pescaria, a começar na manhã seguinte.
Logo achei que aquela história só podia ser invenção do Gordo para animar os fregueses. Mas eu não disse nada. Pescador com senso crítico vira estraga-prazeres. Aquela noite, os que dormiram, sonharam com o Surubim-Lula, labutando na linha. Os que não dormiram sonharam acordados. E na manhã, conforme o combinado, com o sol rompendo nas cabeceiras do rio, numa alvorada radical, corremos numa algazarra de jardim-de-infância para o cais, onde as canoas nos desfiaria em duplas, para dar início à grande pescaria.
Nem sei qual foi o critério, mas formei dupla com meu amigo Carlos Magalhães, um circunspecto diretor de multinacional que quando chega à beira do rio costuma liberar as alegrias amarradas. O nosso piloteiro era o Adenilson, mais conhecido como Nego, filho de outro piloterio. Ao entrar na canoa, fomos logo cuidando de ajustar a tralha: encastoar o anzol, prender a chumbada, pôr a linha de maior calibre no caniço mais resistente, tudo para pegar o Surubim-Lula.
Os outros já estavam indo, deixando as marolas para trás, e nossa canoa não aluía. Perguntei ao piloteiro: E aí, Nego, não vamos? Ele disse, apontando com o beiço: O salva-vidas! Peguei um que estava no fundo da embarcação, mas era diferente dos que a gente usou no ano passado. Não era em forma de colete. Era uma argola passada no pescoço, com duas talas descendo pelo abdômen, de onde pendiam duas tiras para se atarem às costas. Aleguei: com essa porcaria, vou me afogar. Ao que o piloteiro retrucou com cara de gaiato: Aí você apita! Vi que realmente havia um apito preso ao equipamento. Nosso condutor completou galhofeiro: É norma da Marinha.
Carlos não achou graça e ficou meio invocado. Ao fim do dia, sem pegar nenhum peixe prestável, desabafou: todo o nosso aparato de proteção no mundo, no frigir dos ovos, de nada não nos valerá. Não passa de apito de afogado.





