O ‘animau cinistro’ de Aristóteles
“A realidade é só uma ficção criada pela falta de utopia”. (Geraldo Carneiro)
O Homem (ser humano) que pensa, e quer viver de acordo com seu pensamento, não pode senão querer retirar-se da tempestade de absurdos que alastra-se como praga pelo mundo. Cada tempo tem sua cegueira, seu museu de obscuridades. Na bíblia a mulher é denunciada como cúmplice de Satanás — e por isso tem que sofrer e ser explorada e oprimida, diz a escritora Rose Marie Muraro.
Mas vendo a coisa por outro prisma, sabe-se que o mundo só terá jeito quando (e se) mudarmos o nosso jeito de funcionar no mundo e em nós mesmos. Pois terá de começar por nós mesmos a mudança que nele pretendermos fazer. Até porque todo descalabro e todo absurdo que vemos grassar em toda parte vem da inversão de consciência, da qual nascem as patologias pessoais, umbilicalmente ligadas à patologia de uma sociedade doente, e que vai se tornando cronicamente inviável, pelo Homo Sapiens, que transformou a si próprio em Homo Demens.
Palavras servem para definir, aclarar, mas são utilizadas muitas vezes para mentir, mistificar, ocultar, falsear. Assim são torcidas e re-torcidas, de modo inconsciente, ou por automático ato falho. Palavras são usadas para mentir ou matar em nome de Deus, da Liberdade ou da Pátria. Aquele que mata invocando as razões e motivos sublimes de sua religião ou ideologia classificam o morticínio coletivo por atos de terrorismo como justiçamento, e não como genocídio. Mesmo que não conheçam as vítimas inocentes de seu ato insano e selvagem. O mal está em não reconhecer o próprio mal que se pratica.
Que tantos se desentendam falando a mesma língua revela que a patologia coletiva é anterior — e maior — do que já pode ou poderá alcançar a extraordinária capacidade que o animal político de Aristóteles tem de comunicar-se em seu avançado nível de linguagem verbal. Onde muito se fala, invocando-se autoridade religiosa ou política, é onde se instaura caldo de cultura propício ao cultivo da manipulação de consciências, das mentiras piedosas, ou das perversidades cívicas.
Tanto já se fez em matéria de barbárie, em nome de ismos políticos ou religiosos, em nome de Deus, de Jeová, ou de Alá, ou de qualquer outra deidade que se queira criar. No “Fausto”, romance de Thomas Mann, o pacto que o jovem músico Adrien Leverkun faz para obter sucesso implica o ter que ficar longe do amor: “O amor esquenta”, lhe diz o Diabo, com quem negocia: “Tua vida deve ser frígida e, portanto, não tens o direito de amar pessoa alguma”.
Pior é que grande parte das pessoas do mundo impõe a si mesmos a condenação terrível, sem estar negociando diretamente com o Diabo (ou pelo menos não sabem conscientemente disto). Não fazem o pacto satânico para obter recompensas celestiais ou terrenas. Se se entregassem ao impulso cósmico do amor, que implica em cuidar fraternalmente de toda criatura vivente, de todos os reinos da natureza, tornar-se-iam mais humanas e, assim, mais sintonizadas com as leis naturais pelas quais as criaturas viventes e todo o cosmo funcionam. De Homo Sapiens a Homo Demens, o que se quer rei da criação se faz construtor de desastres.
Psicopatas distorcem a realidade, para não ver as coisas em sua verdade. Vivem em um mundo próprio, o de seu delírio. Assim como o esquizofrênico surtado, vivem de costas para a realidade. No caso dos psicopatas políticos, seu prazer consiste em produzir destruição e morte à sua volta, dirigindo sua destrutividade compulsiva e mórbida a inimigos reais ou criados por seu medo e ferocidade.
Vejo, em documentários, cenas de Hitler em seu bunker, nas montanhas (a toca do lobo) acariciando seu cão, sabendo do desastre em perdas materiais e humanas sofridas pela Alemanha, em sua investida contra a Rússia, que ele quis ver destruída, em seu ódio insano contra um povo e contra Moscou, que chamava de cidade maldita. Quase lambia ou se deixava lamber pelo cão, enquanto, à falta de soldados prestantes, mandava para a morte certa quase-crianças, ainda em idade de brincar. Pedia ao futuro de seu país um sacrifício insano e inútil, uma vez que o destino manifesto voltava-se contra a Alemanha nazista, quando esta sofria derrotas decisivas, nos estepes geladas da Rússia, mãe do temido general inverno.
Vendo-o acariciar seu cão, afagando jovens impúberes, que mandava para a morte certa, em uma guerra já perdida, penso em quanta miséria coletiva pode produzir o caráter encouraçado de um psicopata político. Isto Willhelm Reich já sabia — denunciara-o em seus livros, queimados em praça pública, sendo ele, revolucionário estudioso dos labirintos do psiquismo, perseguido em todos os lugares por onde passou. Até mesmo nos Estados Unidos, país que se diz berço e paladino da liberdade.
Neste país o extraordinário seguidor e depois dissidente de Freud foi encarcerado como louco e criatura daninha à sociedade. Mal sabiam os que o prenderam, que seus estudos já apontavam para a patologia social e política que resultaria no desastre da inversão de consciência, que ameaça destruir as fontes de vida do planeta, e provocando guerras e crises econômicas em escala planetária.





