Nunca imaginei que isto pudesse acontecer comigo, até que um dia...
Não se animem. Não é um conto erótico. São coisas que acontecem com a gente a todo instante. São pensamentos que varrem ou poluem nossas mentes até mesmo quando estamos dormindo. Meus maiores medos: perder um pênalti, voar, morrer queimado ou asfixiado, ter os pensamentos lidos por alguém.
Como todo ser humano normal (?!), não gosto de filas. Mesmo as filas pra se receber dinheiro, que é a razão maior de se viver (e morrer). Dentro da agência bancária lotada, eu só suportava aquela fila por causa da moça bonita a minha frente e um cheque ao portador prestes a ser descontado no caixa. Suas mãos delicadas seguravam uma pilha de carnês, duplicatas e meus desejos.
Enxerguei, abaixo dos seus ombros, uma tatuagem. O primeiro impulso, como qualquer impulso que se preze (atitude impensada), foi tocá-la, lamber a sua pele experimentando o sabor das tintas. “Quero grudar no teu corpo / feito tatuagem / que é pra te dar coragem / pra seguir viagem / quando a noite vem...” (Chico Buarque de Hollanda). Instinto domado, eu recuei.
O cabelo curtíssimo expunha a nuca tentadora e um minúsculo coração flechado. Logo abaixo, em letras garrafais, o nome de um homem: EDUARDO. Ainda mais abaixo, quase no meio das costas, como se fora o rodapé de um livro, uma “nota do editor”, um adendo, uma justa explicação em letras miúdas como se a cláusula de um contrato: “lembrança de um passado feliz”.
O dorso desnudo da moça contava uma estória de amor. Uma estória que talvez tivesse começado timidamente, só com a tatuagem do coraçãozinho flechado na nuca. A relação então evoluíra, ganhara força, tornara-se um compromisso pra valer, ao ponto de se registrar na pele o nome do homem amado. Um pacto de sangue, ou melhor, de nanquim. Aquele corpo, um dia, pertencera ao Eduardo. E era para a vida inteira, até que a morte (ou um advogado) os separasse. Não deu. Coisas que borracha não apaga.
Eduardo deve ter pisado na bola. Ou, simplesmente, o amor findou, secando a fonte, dando espaço à gastura, apatia e desassossego. Para mim, naquele momento, enquanto a bolsa de valores oscilava tão agudamente, Eduardo não passava de uma tatuagem inconveniente nas costas de uma mulher bonita.
Mas, e se ele estivesse morto? E se estivesse imerso em coma profundo e irreversível no leito de um hospital, num estado vegetativo crônico, no qual todos, principalmente os familiares e o Seguro de Saúde, desejassem que um blecaute elétrico acontecesse e o gerador a diesel não funcionasse?
E se ele tivesse desistido do Brasil, partido para um país distante a fim de trabalhar como um cidadão clandestino, ser humilhado por causa da latinidade, e fazer o pé-de-meia para retornar e escrever palavras novas nas costas daquela mulher? Meu Deus, quem seria, afinal, o Eduardo? Um ex-amante, um mártir político, um guru, um roqueiro, um filho que já morreu? Não. Ela me parecia jovem demais.
Não resisti. Toquei o ombro da moça e, é claro, ela me fitou assustada, reprovando o contato. Hoje em dia, as pessoas preferem não se tocarem, com medo dos germes, da gripe suína, dos seqüestros relâmpagos, de lhes roubarem a senha do cartão, de serem enganados por qualquer um, de perderem tempo conversando com estranhos. Aliás, nas grandes cidades, não há tempo para mais nada a não sair de casa todos os dias pela manhã em busca de dinheiro para se comprar coisas (ou pessoas) e pagar impostos ao Governo. A vida é uma engenhoca absurda da qual somos as porcas e as arruelas.
“Como vai o Eduardo?”, arrisquei. A fila andou e a beldade caminhou apressada até o guichê número nove, para se livrar de mim e pagar contas. Lá se foi a doce desconhecida, carregando nas costas (como se fossem as minhas próprias costas) uma dúvida atroz extremamente pesada: quem é Eduardo?





