Nossos demônios no escaninho
"Na verdade, a única coisa errada com o mundo é o Homem". (C.G. Jung). Difícil apontar o que no ser humano mais o aniquila: se o seu medo da morte, ou o seu medo da vida. Do mesmo modo, não é fácil saber qual dos dois movimentos é o mais destrutivo. O que deixa as pessoas tão cheias de medo são os monstros que elas próprias inventam, sustentam e depois rejeitam, como se nada tivessem a ver com elas. Quanto mais negam, rejeitam e projetam os demônios de sua invenção, mais terrível será o inferno em que vivem - e mais em personas pérfidas e sinistras se tornarão.
A projeção da sombra (o atribuir a outrem sentimentos e emoções desagradáveis ou inferiores, que nos pertencem) é o recurso do método adotado de modo automático, por todos os povos ditos civilizados. C.G. Jung considera ser natural que a pessoa queira se libertar dessa inferioridade: ela quer saltar sobre a própria sombra. "A maneira mais direta de fazê-lo é colocar tudo o que seja escuro, inferior e palpável nos outros".
A sombra que rejeitamos em nós é projetada na direção de pessoas, grupos étnicos e religiosos, ideologias e preferências sexuais. A negação da sombra assinala o limite máximo de realidade que podemos suportar. Para T.S. Eliot, insuspeito poeta, "A humanidade não agüenta muita realidade". Dito de outro modo: a mente humana não suporta encarar a sua própria sombra. E, à medida em que a nega, mais a fortalece. Ao trancar seus monstros interiores no escaninho, transforma-os em Franksteins terríveis e mortíferos.
Wilhelm Reich pergunta por que quase ninguém conhece os nomes dos verdadeiros benfeitores da humanidade, enquanto "qualquer criança conhece os nomes dos generais e da praga política". Para ele, a resposta para a questão de haverem mais estátuas em homenagem a heróis guerreiros do que para lembrar os feitos dos heróis da paz está em que "As ciências da natureza estão constantemente introduzindo na consciência do homem que ele é, fundamentalmente, um verme no universo. O arauto da praga política está constantemente repisando o fato de que o homem não é um animal, mas sim um "zoom politikon", ou seja, um não-animal, um defensor dos valores, um ser moral.
"Ah! Quantos males foram perpetrados pela filosofia platônica do Estado! Está bastante claro o motivo pelo qual o Homem se interessa mais pelos políticos do que pelos cientistas da natureza: o homem não quer que lhe recordem o fato de que ele é, fundamentalmente, um animal sexual. Ele não quer ser um animal", assinala W. Reich. O recurso automático de quem não quer assumir sua sombra é projetá-la sobres outros - reforcemos tal verdade. Daí o perigo que representam os puritanos e os moralistas fanáticos. Quanto mais reprimidos, mais devassos e cínicos se tornam.
O bode expiatório é a encarnação da estratégia humana de projeção da inferioridade ou fissura psíquica ou moral que não quer admitir em si mesmo. Nós projetamos para que outros sejam responsabilizados por nossos pensamentos perversos, transformados em atos amorais e hediondos. Assim, quando um bandido ou criminoso é apanhado pela polícia, muitos respiram, aliviados pelo fato de que escaparam por enquanto.
O analista junguiano Edward C. Whitmont enfatiza que, se quisermos enfrentar o desafio do mal no mundo, precisamos assumir nossas responsabilidades em termos individuais: "Precisamos reconhecer a objetividade arquetípica do mal como um aspecto terrível, dotado de força sagrada, que inclui a destruição e o apodrecimento, e não só o crescimento e a maturação. Então poderemos nos relacionar com nossos semelhantes como vítimas, tanto quanto nós, e não como nossos bodes expiatórios".
O bode expiatório existe (ou é criado) para que possa expiar as culpas e pecados da sociedade, de uma pessoa que se oculta, ou de nós próprios. Assim, o outro será sempre o culpado por tudo de ruim e nefasto que nos acontece. Exemplo simbólico de tal mecanismo infantil (presente até mesmo entre crianças) é a folclórica malhação do Judas. Erich Neumann sintetizou a visão junguiana da sombra que negamos: "A sombra é o outro lado. É a expressão da minha própria imperfeição e da minha natureza terrena: o negativo que é incompatível com os valores absolutos, ou seja, o horror da passagem da vida e do conhecimento da morte".
Enquanto existir alguém que possa ser culpado pelos pecados da tribo ou de um indivíduo, é certo que não faltarão escribas e fariseus, sepulcros caiados da hipocrisia religiosa, a apontar o dedo acusatório. Assim o pecador que se esconde de sua sombra estará a salvo. No mais das vezes, os que acusam e inventam culpados para as desgraças coletivas ou individuais estão a ocupar altos cargos na política, tornando-se senhores das guerras (vide o patético terrorista de Estado, senhor da guerra e da morte chamado Bush).















