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POR EM 14/04/2009 ÀS 05:10 PM

Nosso corpo de dor

publicado em
Lya Luft tem razão quando diz que “A alma do outro é uma floresta escura”. Talvez também para o outro a nossa alma seja um inferno tenebroso e difícil de ser trilhado. Tanta escuridão nos caminhos faz com que os relacionamentos sejam fontes de ruído emocional e estresse. Mas não impede que sejam encontros de amorosidade e fraternura.  
 
Sabe-se que o animal humano é a maior fonte de estresse, medo e de perigo para si mesmo – com a tendência inevitável de mais pessoas viverem em grandes aglomerações urbanas, partilhando espaços apertados, aumenta a incidência de doenças nervosas, antigos transtornos psíquicos, que recebem novos nomes, e até conferem charme social a suas vítimas. É o corpo de dor da inapetência para a felicidade, transformado em sofrimento ambulatorial ou caseiro, como são milhares os casos.  
 
O corpo de dor das pessoas é tão tenso, vindo de antigas eras, de ódios e guerras travadas dentro do clã parental, que estar com elas é ser soterrados pelo estresse. Pois o sucesso que ostentam é o da vitória em serem mal sucedidas como pessoas. Só escondidas atrás de suas máscaras são palatáveis - sendo que algumas nem escondidas atrás de suas personas são suportáveis.
 
Conviver com nossa própria alma é muitas vezes um caminho tenebroso, que não se percorre sem medo e sem aflição. Mais terrível ainda é conviver com a alma de pessoas de quem gostamos, ou não. Saber que não sabemos de nada, ou que a mera informação vazia só ilumina a aparência das coisas e da vida, e não dá peso à inconsistência de existir, é tudo de que a pessoa precisa para aceitar o esplendor do Agora. Nesta humildade corajosa entra no aberto, e se põe a caminhar na lucidez de “sua nova vida perigosa”, no dizer vertiginoso de Clarice Lispector, a estranha.
 
Muita consideração ao que os outros dizem e pensam de nós nos mantém presos a lembranças amargas e emoções tóxicas de um círculo de sofrimento induzido. Felizes os que se permitem viajar pelas trilhas da vida com a leveza de quem se sabe passantes. Pois quem não se detém na memória da dor, e não gasta o seu tempo de viver no cultivo da agricultura do desencanto, não se torna agricultor de emoções venenosas.
 
Há pessoas cujo sucesso consiste em serem mal sucedidas – fazem de seu esplêndido fracasso um motivo para não saírem do palco das atrações lamentáveis, e estarem sempre na ribalta do fracasso em serem felizes. Devemos nos manter atentos, para não sucumbir ao fascínio de seu vazio abissal.  
 
Permanecer por muito tempo à orla do sofrimento cego pode nos cegar também. Assim como o lutar contra a inconsciência e o absurdo pode nos atrair para sua energia mortal e mortífera. O sofrimento cego (viciado em si mesmo) do corpo de dor da memória vive a drenar nossa energia. Ele nos parasita e nos paralisa, se entrarmos em sintonia com a fome do Alien interior, em que sua alma morta se transformou.  
 
Os doentes de alma e os áridos de espírito vivem a sugar a energia uns dos outros, sucumbindo à atração de seu próprio vazio abissal, que vem a ser tudo de que se alimentam, uma vez que não chegaram a cristalizar uma alma em si mesmos. Vivendo na periferia de seus interesses egóicos e mesquinhos, não conhecendo o amor, apenas o desejo de posse e a lascívia dos baixos instintos, não têm os sentidos abertos para o silêncio interior. Sua mente faz muito barulho, e assim os impede de acessar o dom criador que toda criatura traz em si.
 
Sendo vasta a incompletude e a solidão do Não-Ser em que vivem, vivem a promover e a celebrar os jogos de vaidades e as festas do ego, sendo os podres poderes do mundo aquilo que os atrai e interessa. Atrelados aos cavalos dos desejos, vivem à orla de si mesmos, só tendo olhos para ver os erros alheios, sendo completamente cegos para perceber os seus.
 
São tão pobres de mentes, em seu agarrar-se como náufragos à memória de seu corpo de dor, que aferram-se as ilusões vazias do que poderão ter no futuro, enquanto desprezam aquilo que têm. Se ao menos soubessem, como o sabia Nietzsche, que isto é mais difícil: “fechar por amor a mão aberta, e conservar o pudor ao dar”. 
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