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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

Nona

publicado em

Não foi sonho. Nem delírio. Aconteceu pra valer. Estava passeando num parque qualquer (não, não vou contar qual) e topei com Ludwig van (o “van”, contaram-me, é por conta de uma ascendência belga, não tem nada de nobre, mas vai dizer isso a ele, o metido), que lia algo distraído e falava sozinho. Soluçava.

— Pôu! — achei por bem ajudar com o soluço, mas ele continuou caminhando, lendo e soluçando. Cutuquei seu ombro direito.

— Ahn?

— O que fazes aqui, Ludwig, peripateticamente?

— O quê?

Repeti, mais alto. E ele:

— Sem essa de Ludwig, por favor. Não force intimidade. E pode usar a terceira do singular mesmo.

— Nossa, que humor.

— Como é?

— Que humor — gritei.

— Desculpe. É que estou enrolado com essa peça musical há mais de trinta anos...

— Deixa eu adivinhar —  fiz suspense, como se eu já não soubesse – A nona.

— Como você sabe?

— Sei de tudo. Pode perguntar.

— Samovar? Você é russo?

— Perguntar, pode perguntar — gritei de novo.

— Ah, sim. Até logo.

— Calma, que pressa, parece o coelho da Alice.

— Calvície? Não, não tenho problema com isso. Olha aqui.
           
Ele me mostrou a vasta e desgrenhada cabeleira. Pã, pã, pã, pã, pensei, engatando a quinta.
           
— Que livro é esse?
          
— Hein?
          
— O livro — gritei mais uma vez (ô, saco!).
          
— Ah.
         
Ele me mostrou: Ode à alegria, Schiller.
          
— Claro, claro.
           
— Agora com licença, que preciso me encontrar com von Goethe.
          
— Deixa esse cara pra lá, ele vendeu a alma pra Mefistófeles. Tenho uma sugestão.
           
— Hein?
           
Puta merda, como pode esse fdp ter feito a mais bela música já concebida por alguém! Respirei fundo, e, magnanimamente, repeti mais alto. Daí ele, sem muito interesse, tipo me desprezando:
           
— Mesmo?
          
— O quarto movimento, faz o seguinte: primeiro só melodia sem voz, uns dez minutos, sei lá, isso você resolve. Mas aí... Pega aí o livro, vê se me acompanha. Entra o tenor, quem sabe um barítono, “O Freunde, nicht diese Toene”, etc”. Lá pelo “Deine Zauber”, etc, entra o coro junto, repetem uns três versos, depois uma soprano acompanha o tenor na altura do “Wem der grosse”, etc...
           
— Perna grossa? Quem? Onde? Sou chegado numa b...
           
Desisti. Pior pra ele.
 

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