Natureza em fúria
Deus fez o mundo em seis dias, e tudo o que nele existe, diz a metáfora do texto bíblico, no qual se apóiam os criacionistas. Mas as ruas e estradas, com seus desastres e acidentes, deixou por conta do Homo Sapiens, o mais inteligente dentre os terráqueos. A sequência de catástrofes naturais, de calamidades do clima, que devastam quase o Brasil inteiro, nesta estação de chuvas, chega a parecer cruel, com ricos e pobres, flagelados e abonados — os muito pobres, atirados aos cinturões de miséria, nos baixios dos rios, nos fundos de vale, são os que mais sofrem. Todo ano têm suas casas tomadas pelas águas de rios que sobem demais, depois que caem as chuvaradas. E perdem tudo o que têm — o de comer e o de deitar, os alimentos do sobreviver, os eletrodomésticos, comprados à custa de sacrifícios imensos.
Famílias inteiras (ou parte delas) é soterrada por pedras e barrancos que descem, em períodos de intensa chuvarada. É de partir o coração ver o choro dos sobreviventes e das equipes de salvamento, que na maioria das vezes nada mais conseguem salvar, a não ser resgatar os corpos que não ficam sob toneladas de lama. O Rio de Janeiro, que não é só a zona sul da orla marítima, onde se localizam os hotéis de luxo, foi particularmente atingido neste final de ano, na baixada fluminense, cujas populações ribeirinhas ficaram debaixo d água. Triste espetáculo de morte e destruição. Uma pousada em local distante, na Praia Grande, foi soterrada pela encosta sob a qual foi edificada, espremida entre o morro arborizado e a pequena faixa de praia. Cenário paradisíaco para se viver em tempo de seca, mas ambiente perigoso, em estação de chuvas a cair em bátegas insistentes.
Como no naufrágio do Bateu Mouche (alguém se lembra) muitos quiseram ir para longe dos centros urbanos trepidantes, passar a última noite do ano, não sabendo que teriam a última noite de seu tempo neste planeta sujeitos a coisas belas e sublimes, mas também a calamidades. Brindavam a um Ano Novo repleto de prosperidade, saúde, alegria e felicidades, quando desceram toneladas de pedras, árvores e lama. Até agora, quando escrevo, no dia primeiro de janeiro, foram quinze corpos encontrados.
Mas, considerando que a pousada estava lotada, onde estão as demais pessoas. Tanto no caso do Bateu Mouche quando no da Pousada e das casas em Angra dos Reis, os que puderam gritar, dentro da noite iluminada pelos fogos, não puderam ser socorridos, sequer ouvidos. Do naufrágio poucos escaparam, por saber nada, ou ter alcançado um salva-vida, antes de o barco descer, com toda a festividade e alegria a bordo.
Como são frágeis os viventes do caminho, diante da força da natureza! Assim, quando projetarmos uma viagem, ao iniciá-la, é prudente verificar as condições dos veículos que irão nos transportar (inclusive o dos nossos corpos, que veículos o são, de outros andares do ser, que nos constituem). E também perguntar à natureza: e quanto a você, amiga, quais são os seus planos? Isto mesmo sabendo que a natureza é indiferente aos nossos planos, desejos e ambições.
Quando umedece, e tem de descer, o morro desce — a encosta não dá encosto, o tsunami avança, quando há terremoto ou tempestade. E não pergunta a cor, nacionalidade, nível cultural ou econômico das pessoas que irá matar, que choupana ou palácio destruirá, que animal ou ente afogará. Muitos pagam com suas vidas a imprudência de construírem casas e hospedarias na base de encostas cuja cobertura vegetal, não obstante sua aparente solidez, é apenas fina capa de uma rocha, muitas vezes íngreme e perigosa.
Diante do cataclismo, do acidente, ficamos tão chocados que recusamos aceitar a morte coletiva, que chamamos de “morte estúpida” — e menos ainda tomamos o fenômeno destruidor de natural. Não aceitamos que a destruição seja um fato inerente à natureza, da qual fazemos parte. Não levamos em conta que nosso ego/ismo e nossa ambição faz de cada criatura humana um garimpeiro cego e insensato, que deixa à sua passagem rastros de destruição. Festejando ou estando a salvo, embarcado em chuva constante, ou aportado no seco, devemos dar graças por esta graça. No dizer do cronista Sinésio Oliveira, “A luz ainda está acesa, e o dia maduro no quintal da nossa vida. Façamos ceia dele quanto podemos devorá-lo”.





