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POR EM 04/07/2010 ÀS 03:03 PM

Não parece, mas é apenas um jogo

publicado em

Uma telha quebrada. Uma trinca na comunheira. Uma vigota empenada. Sabe-se lá. Pouco importa. Ele assiste a uma goteira que vaza pelo teto da sala de estar, estorvando mais um jogo do Brasil na Copa. Você sabe: brasileiro ama futebol. Ele detesta mesmo é o esquema tático “dungalizado”, as goteiras, as infiltrações e as suas próprias imperfeições.

Não menos enfurecida, a esposa reclama do tapete encharcado d’água e que fora presente de casamento. “Lembra como você me amava quando nos casamos?”, ela pensa, mas não diz. Com toda certeza o tapete vai adquirir, sim, pode crer, aquele cheiro desagradável de cachorro molhado, um odor incomodativo que jamais sairá das suas entranhas. Mais um motivo para a revolta entranhar no humor e no desamor daquele casal.

O mofo tomou conta do teto nos últimos dias. Ela bem que avisou: “tem alguma coisa errada com este telhado”. O Brasil vencia fácil o jogo (cronistas esportivos apressados previram até uma goleada), mas houve um intervalo, pausa para se calçar sapatos altos, e o vento danou soprar ao contrário. As celebridades tremeram em campo (percebem como o Kaká se parece com Paul McCartney na fase da beatlemania?!), e o ambiente na casa ficou mais inóspito, apesar das gargalhadas das crianças e suas “vuvuzelas” ensurdecedoras. O resultado foi dois a um para a Holanda. Os comentaristas vasculham motivos para o fracasso, repetem os gols até não se aguentar mais, desejam toda má sorte possível aos “rivais argentinos” que, a priori, nada tem a ver com o infortúnio dos atletas brasileiros. Fomentam, acirram uma rivalidade sulamericana absolutamente besta e contraproducente que, espera-se, jamais saia das quatro linhas do futebol e das churrasqueiras.

Desavisada dos podres do mundo, a filha caçula pergunta se aquelas piadas envolvendo argentinos não se tratam de “bulling” (a violência da moda nas escolas). Ele balança a cabeça, afirmativamente, calado, e xinga um inimigo invisível, arrastando a mesa do lugar para escapulir da goteira, deseducando aquela criatura tão pequena.

Mandaram a meninada brincar no quarto e começaram a faxina. Não dá pra limpar tantas diferenças assim de uma vez só. Não dá pra entender. Não dá pra subir no telhado agora. As telhas estão encharcadas e seriam facilmente debulhadas com o peso do corpo pisoteando nelas. O problema só pioraria. Aliás, é preciso malhar um pouquinho, perder a barrigona. Não era assim quando a gente se casou.

A limpeza prossegue num clima tenso em que verdades inquietantes são ditas, repetidas, disfarçadas nas entrelinhas. São provocações comparáveis apenas aos insultos e cuspes trocados entre os profissionais do futebol. Se ele tivesse coragem, dava nela um “carrinho-por-trás”, aplicava uma “voadeira”. Calma lá. Casamento não é um jogo, embora perdas e ganhos sejam frequentes. Bem que o padre alertou: “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte os separe”. Quase sorriu ao se lembrar do que os amigos lhe disseram: “até que o advogado os separe, sua besta...”.

Enfim, começa o noticiário. Noventa por cento de futebol, dez por cento de notícias ruins. Fiasco na Copa. Flagelo no nordeste brasileiro. Cidades pernambucanas e alagoanas devastadas pela enchente. Milhares de pessoas desabrigadas. Dezenas de desaparecidos. Parece uma cena dantesca. E é mesmo. Campanha do agasalho. Campanha para arrecadação de alimentos. Campanha de 2014. Já tem gente sonhando com 2014! Eita, povo bobo! Para ignorante, todo castigo é pouco.
 
O marido garante que não moverá mais um só músculo até que noticiário termine. É preciso rever os gols de Brasil e Holanda pela décima oitava vez. Sofrer com a câmera-ultra-lenta. Que beleza a tecnologia: nacos de grama levitando, arrancados pelas chuteiras dos gladiadores... a “jabulani” atravessando duas vezes a linha do gol brasileiro...

“Mas, depois do noticiário tem a novela das oito. E eu? Como é que eu fico? Eu é que não vou ficar limpando a casa na hora da novela. Não sou sua empregada. Se você tivesse cuidado do telhado, quando eu avisei, nada disto teria acontecido”. O jogo fica duro, embolado no meio-de-campo, mas não há ninguém para aplicar cartões amarelos. Então, cada qual continua a reclamar do outro, das suas adiposidades, da feiúra, das goteiras na sala, do dinheiro escasso, do sexo muito ruim, de Deus (afinal, alguém deve ser culpado por tanto sofrimento...), da vida, enfim. “Aliás, esta vida é uma merda”, concluem convictos.

Cansadas de esperar pelos pais que não comparecem para brincar, as crianças caem no sono. Cai também um silêncio vergonhoso sobre a casa. Finalmente, a televisão foi desligada e a discussão acabou. Parou de chover. Parou de pingar na sala. Tem-se a impressão que o próprio tempo parou. O amor, de tão parado, parece que nunca existiu.
 
Porque, para o ser humano, a satisfação é porto inatingível. O “stone” Mick Jagger — que virou figurinha carimbada nos estádios africanos — já cantava em “Satisfaction”: “I can’t get no satisfaction, but I try, but I try...”. Absolutamente insatisfeitos com o hoje (os mais ansiosos já sofrem até com o futuro do qual nem se sabe), o homem não para de reclamar. Movido pelas comparações impertinentes (um de nossos mais execráveis vícios), cobramos providências terrenas e até do divino.

Tenho um amigo, estudioso da doutrina espírita, que vive repetindo, solene, aparentemente conformado: “precisarei de várias reencarnações para reparar os danos do passado...”. Quando eu pergunto por que motivo ele não começa agora mesmo (por exemplo, fazendo as pazes com o seu pai, com o qual não fala há uns dez anos), ele desconversa, me confunde com dogmas totalmente incompreensíveis, inaceitáveis a uma ovelha desgarrada e pragmática como eu.

Ódio à “jabulani”, goteiras no teto, casamentos malfadados, relações hipócritas, são apenas exemplos da incongruência humana, de seu estreito limiar de satisfação. Só nos resta ler, estudar, refletir e tentar compreender o sentido da vida. Agarrarmo-nos à literatura, ao conhecimento milenar concebido pelos grandes filósofos e pensadores da História da Humanidade que, supostamente aflitos e desajustados quanto agora eu me sinto, registraram com a pena, o papel, a insônia e a lamúria mental, os seus particulares e dolorosos sentimentos acerca da raça humana.

 

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Comentários (3)

  • Alexandre e Laura, fico agradecido pela leitura e comentários. Tiau.

    2 anos atrás por eberth vencio
  • Ainda bem que acabou.

    2 anos atrás por Laura
  • Não sei se por ser muito pessismista, ou se já ter colocado o futebol no seu devido lugar, já aos 35 minutos me levantei e fui religar a vida.

    Mas a frase: "Cansadas de esperar pelos pais que não comparecem para brincar, as crianças caem no sono. ", me faz pensar no que realmente é tão simples e tão importante na vida.

    Vamos ser realmente patriotas e ajudar o pessoal da enchente mais uma vez.





    2 anos atrás por alexandre braga


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