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POR EM 26/01/2009 ÀS 08:56 PM

Na hora de nossa morte, amém!

publicado em


Após conturbada reunião zentranscendental, Isadora, num acesso de surpreendente, que chegou a ser confundido com lucidez, enfiou um espeto no ventre, ao tempo que se desatava em risos frenéticos, admirando os jorros vermelhos. Antes de morrer, produziu alguns garranchos com o sangue. Por ocasião do suicídio de Cândido Martírio, seu marido, soube-se então que era o nome do filho que ambos desejaram. Não escapou viv’alma naquela família pioneira no destemor suicida. O lugar foi tomado por um tempo de uma exuberante agonia, dando muito trabalho a todos, especialmente aos coveiros e fabricantes de caixões.

O enterro dela teve acompanhamento da banda de música, assim como os suicídios seguintes, até que os conterrâneos de Suisse Da Mata D’Ouro ficaram impossibilitados da cerimônia, porque vários músicos da banda resolveram também se matar. Um tocou a noite toda, tentando uma instrumental asfixia, mas como as mortes eram de sangue enfiou uma tesoura no peito ao som da fúnebre sinfonia Vermelha Celeste. O segundo foi encontrado com um punhal no umbigo. O terceiro, tocador de tuba, amarrou o instrumento no pescoço, cortou os pulsos para colorir a água do Rio das Mortes, onde se jogou.

O tempo dos suicídios tomou conta de tudo e de todos no lugar, até a poesia morria de se matar. O primeiro poeta morreu três meses após o suicídio de Isadora, assim que publicou sua obra-prima intitulada Suicidou-se. Esse poema seria recitado, futuramente, na celebração da missa de sétimo dia do suicídio do prefeito, Mortiniano Funebrino. Funebrino sofreu um colapso administrativo, cortou os órgãos genitais e os jogou no vaso sanitário.

O vice-prefeito vibrou sem demonstrar. Arrumou enterro chique e condoeu-se, apesar de já ter se tornado adversário dos que adotavam aquela prática considerada por ele e seus correligionários como “a politicamente correta e nobre atitude fúnebre”.

A administração do vice-prefeito entrou em colapso pela constância das mortes e pela impossibilidade de contorná-las. Suicidar-se era um ato de bravura para a maioria da população, um nobre gesto que amenizava tudo. Pensou-se na determinação dos destinos celestes, depois do suicídio do vigário da Paróquia. A comunidade cristã passou então a acreditar nos desígnios da natureza.

O vice-prefeito, dissimulando, marcou então uma reunião urgente no salão paroquial para o dia seguinte. Na reunião, como em todas elas, cansado de ouvir potoca, o homossexual Didô Cara de Asa da Silva armou-se com uma navalha e começou a se cortar todo, tirando, inclusive, o “pingulim”. Os presentes aplaudiram, até que Mortídio Putrefacto se lembrou, e foi repreendido, da necessidade dos socorros e o levou para o Hospital das Fraquezas. O paciente foi submetido a uma proctocirurgia incisiva, para que, segundo o diagnóstico médico, pudesse morrer satisfeito.

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