Morra! Morra! Morra!
O jogo estava equilibrado. Zero a zero. Estádio lotado. Bandeiras deflagradas. Foguetório. Cheiro de enxofre. Animação total das torcidas uniformizadas. De repente, um lance polêmico, e o árbitro se engana, comete um deslize. Ele tem olhos bem humanos (ao contrário do que afirmam os comentaristas e seus video-tapes), e erra. “É claro que foi pênalti”, garante o locutor inflamado do alto da sua cabine.
Ecoa o refrão: “Vai morrer! Vai morrer! Vai morrer!”. São cerca de vinte mil pessoas, numa só voz, hostilizando, ameaçando o homenzinho de uniforme preto. Estão todos muito agitados, mas o jogo segue. É isto, é apenas um jogo, mas parece uma batalha. No campo, um atleta quebra o nariz do colega com uma cotovelada bem encaixada.
O clima esquenta. Os jogadores se cospem nos rostos e trocam empurrões. A polícia, devidamente orientada por uma matilha de cães, invade o campo. Começa a pancadaria. O público permanece extasiado. Um pequeno grupo de torcedores do time visitante começa a ser linchado. Jogam sobre eles assentos de cadeiras e pedaços de concreto. A maioria aprova o ataque, afinal, são torcedores do time adversário, ou seja, não passam de inimigos. Ambulâncias conduzem os feridos. Os ânimos são contornados dentro das quatro linhas. Recomeça a partida. Assim como no início, termina empatada. E a vida muda muito pouco por causa de um jogo. Mas o resultado desagrada a todos. Os jogadores, estrelas maiores do espetáculo, concedem entrevistas, cometem inúmeros erros de concordância, transferem para o árbitro o ônus do “fracassado empate”, prometem revanche, tomam uma ducha gelada e vão para casa crendo mesmo que são notórios artistas.
A multidão deixa o estádio, briga no estacionamento, apedreja alguns ônibus, saqueia pequenas lojas, e dá muito trabalho para polícia, pros cachorros adestrados e para os cinegrafistas que não perdem o menor ato de vandalismo. Domingo que vem tem mais...
Portanto, séculos se passaram, mas ainda temos os nossos próprios “coliseus”, arenas nas quais nos comprazemos com a dor e com a miséria alheia. Vislumbrados com a violência, assistimos a ela entusiasmados como crianças entretidas com seus novos brinquedos. Antiga mesmo, só a nossa sórdida fascinação pela tragédia. Como dá prazer, por exemplo, espreitar pela relva, pegar de surpresa um animal silvestre que pasta, e matá-lo à bala... Ora, ainda que cruéis, “as tradições devem ser respeitadas”...
A crueldade tem duas pernas e caminha pelas ruas das grandes cidades. Imaginem vocês: um estranho desaba sobre a calçada, debate-se em abalos epilépticos e, logo, forma-se ao redor dele uma multidão que a tudo assiste deslumbrada. Ninguém toca no sujeito, ainda que ele afogue na própria saliva e os lábios se tornem azulados. Cuspes, perdigotos, vocês sabem, são importantes vetores de doenças infecto-contagiosas... como o preconceito.
Quando, enfim, a vítima se banha com urina, alguém mais centrado se lembra de chamar o SAMU. A multidão desanima e dissipa em busca de mais desgraça. Aquele ali não morre mais. Fim do bizarro espetáculo. Alguém se aproxima do desconhecido e dele toma conta. Com uma das mãos, afaga o corpo ofegante; com a outra, sem que ninguém mais perceba, surrupia o pouco dinheiro que há no bolso. São assim as cidades e seus roteiros dantescos.
Tentado pelo consumismo desmedido, assistimos pela TV de tela plana o supra-sumo da violência. Tecnologia digital. As imagens melhoraram muito, mas o ser humano não para de piorar. Então, sentados em sofás confortáveis, adicionamos pipoca com guaraná à nossa curiosidade sórdida. Qual “brother” vai deixar a casa hoje à noite: o viado, a sapatão, o pegador ou a popozuda? Não suportamos viver sem nos rotular.
“Datenas” e outros alardeadores da miséria humana garantem bons índices no ibope ofertando uma programação televisiva em que personagens da vida real protagonizam a barbárie. São flagrantes hediondos, cenas de tirar o fôlego, o portfólio da maldade, um enredo da crueldade que fascina e agita a galera. Não há trégua editorial. Nada que exista de bom neste mundo (e eu sei que não são muitas coisas...) merece ser enaltecido no obituário, ou melhor, noticiário.
A alta tecnologia também se presta à violência. Um dos vídeos mais acessados na internet, em todo o mundo, mostra um rapaz portador da Síndrome de Down sendo surrado por um grupo de estudantes italianos. Sangue frio de quem a tudo filmou, impassível (nem ao menos a lente treme...). Os vídeos de humilhação e truculência têm boa aceitação entre os internautas, embora ainda percam de capote para os sites de pornografia e sexo explícito, os campeões de acesso. Afinal, sem um bocado de diversão não dá pra tocar a vida. Ninguém é de ferro, nem mesmo as grades virtuais que nos prendem à pequenez do viver.
Ora, bolas: quem precisa de leões famintos e gladiadores sanguinários, se ainda temos uns aos outros para barbarizar?





