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POR EM 09/08/2010 ÀS 11:31 AM

Mídias Sociais: muito cacique para pouco índio

publicado em

De todas as profissões de moda dos últimos anos — de jornalista a profissões relacionadas ao petróleo, passando pela engenharia ambiental — nenhuma causou tanto barulho e fez tanto barulho no mercado de trabalho como a profissão de analista de mídias sociais. Antes gostaria de esclarecer: sou escritor, roteirista, webwriter e analista de mídias sociais. Pois é. Eu também sou analista de mídias sociais. Portanto, vou cortar na minha própria carne.
           
Mas por que esta profissão relativamente nova faz tanto barulho e atrai tanto os jovens? Em primeiro lugar: comodidade. Caímos aqui na estória do “eu gosto de me comunicar, vou fazer comunicação”. Só que a frase muda para “eu gosto de redes sociais, vou ser analista de mídias sociais”. Mas gostar e ser heavy user de redes sociais NÃO faz de ninguém um profissional nisso. Assim como o fato de eu usar óculos desde os quatro anos de idade não faz de mim um oculista, ou o fato de eu dirigir 30km pro trabalho todo dia não me faz um engenheiro mecânico ou piloto profissional. Mas é claro, não sejamos xiitas: em alguns casos o gosto pode ser transformar em profissão. PODE, vejam bem. Não necessariamente.

Porém, isso tem sido uma constante no mercado. E como hoje em dia a maioria das empresas se preocupa mais em conseguir mão de obra barata que faça mil coisas ao mesmo tempo, elas contratam estas pessoas. E como poucos clientes entendem realmente de mídias sociais, eles vão empurrando o trabalho com a barriga, enganando a si próprios e ao cliente. E neste exato ponto nasce o outro problema: o analista de mídias sociais caga-regras.

Você já topou com um desses. Ele tem um ano, um ano e pouco de experiência. Fez meia dúzia de cursos, vai a todos os seminários sobre internet e mídias sociais, e acha que tem a resposta para todos os problemas do cliente, e que o que todos fazem é errado, e o que ele faz é certo. É aquele sujeito fanático, sem a menor noção de comunicação como um todo, e que acha que mídias sociais resolvem qualquer problema de qualquer cliente. Eles dizem que tudo o que outras agências fazem é errado e só a deles faz certo. Nunca fizeram uma campanha grande de sucesso, mas vivem criticando quem faz. Vivem citando autores da moda, vomitando teorias lançadas no dia anterior e balbuciando termos em inglês sem a menor necessidade. Adora gráficos, relatórios, tabelas, números absurdos, e, pelos seus cálculos, cada campanha sua atinge, em média, um número de pessoas equivalente a três vezes a população da Terra.

O caga-regras não entende de marketing, publicidade ou antropologia. Só entende das ferramentas. Tem conta em pelo menos setenta e duas redes sociais. Conhece todas elas, incluindo seus plugins, ferramentas e complementos. Fica até as dez da noite na agência, quando poderia ter resolvido tudo até as seis. Mas ele adora dizer que trabalha até tarde. Para o caga-regras quem sai na hora e tem vida social não é um bom profissional.

O terceiro problema é o que eu chamo de “personal trainer gordo”. Você contrataria um personal trainer gordo? Se consultaria com um fonoaudiólogo gago? Então porque confiar em um analista de mídias sociais que não sabe utilizar minimamente bem as redes sociais? Neste exato momento aposto que você está pensando que, como diria o poeta, “traficante bom é o que não usa droga”. Concordo em gênero, número e grau. Mas o traficante vende um produto que faz efeito por si só. Ele não precisa fazer nada, só vender. Já o analista de mídias sociais não. Ele vende algo que ELE vai ter que executar. E como ele vai executar bem um serviço para o cliente, se ele não o sabe fazer para si próprio?

Analistas de mídias sociais que só usam as redes sociais para falar da própria vida, vomitar teorias, gráficos e apresentações de grandes nomes da área ou fazer criticas veladas, tem uma pequeníssima chance de obter sucesso ao utilizá-las para o cliente. Ninguém precisa ter dezenas de milhares de seguidores no Twitter, mas se você tem poucas dezenas deles, isso é um sinal de que o que você fala não é interessante. Logo, por que eu devo achar que você falaria algo interessante sobre a minha marca? E aí vem o argumento apelidado de “feio, bobo, chato e cara de melão”: dizer que ter muitos seguidores não é sinal de competência. Concordo, não é. De maneira nenhuma. Mas não ter quase nenhum também não, concorda?

Mas não existem bons profissionais? Mas é lógico que sim! Existem ótimos profissionais. Pessoas competentes, que estudam, se preparam, que entendem que neste mercado poucas verdades são universais e, acima de tudo, gente que não caiu de pára-quedas na profissão porque “gosta muito de redes sociais”.

Bom, era isso, amigos. Se você discorda, concorda ou quer meu endereço pra enviar uma bomba, é só comentar que eu respondo. E parem e pensem no que eu disse, pois muitas pessoas pensam assim, mas poucas admitem, em nome de um corporativismo bajulador e de uma atitude “neutra”. Mas muita gente — muita mesmo — vai concordar. Tenho certeza.

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Comentários (23)

  • Concordo plenamente, em número, gênero e grau.
    Não basta gostar de RS é necessário entender td o processo.
    Saber postar é muito fácil, difícil é fazer com que as pessoas leiam o que vc posta e comentem.

    1 ano atrás por Luciana Araújo
  • A maioria dos "analistas de mídias sociais" que conheço são na verdade entusiastas de mídias sociais. Pessoas que acham que o combo Blog + Twitter + Facebook resolve qualquer coisa e que formam verdadeiras torcidas organizadas para comemorar cada vacilo na mídia "tradicional". Gente que arrota as estatísticas de acesso à internet do IBGE, mas que não faz a menor idéia do contexto de produção desses números. Uma garotada que vive de ppt de palestras, mas não sabe quem diabos é Castells. Quer saber? Estou pegando é abuso! Blé.

    2 anos atrás por Mônica
  • Não acredito em especialistas em mídias sociais. Eles ainda não existem e talvez, não existam nunca. No máximo temos estudiosos e pesquisadores. Só isso.

    2 anos atrás por Sales Neto
  • Lembrando que como bem lembrou a @nbolsoni, eu também fui um caga-regras nesse texto.

    2 anos atrás por Léo Luz
  • Vi o meu antigo chefe em tudo o que você falou! Só que ele não vendia coisa para ele executar, ele vendia coisas absurdas e mandava eu executar. E o pior de tudo, não entendia a maioria das coisas que ele vendia, ele não fazia um plano, não sabia usar... não estudava o cliente antes de fazer uma proposta, simplesmente vendia a mesma coisa para todos os clientes por um valor ridículo (Juro, ele copiava a mesma proposta para todos). Esse valor ridículo fazia com que todos ficassem maravilhados com a coisa... mas depois quem tinha que executar? Eu, é claro. Eu acredito que existem muitas pessoas como esse meu antigo chefe em muitas agências espalhada por aí. É exatamente por isso que vemos campanhas toscas e absurdas na internet =/

    2 anos atrás por Bruna
  • Conheço vários sujeitos que se denominam "analista de mídias sociais", "especialista em mídias sociais", "SEO em mídias sociais" e por aí vai. Nenhum deles o é, de fato. São apenas pessoas que adorariam ser pagas para ficar navegando na internet e postando no Twitter. Considero esta "profissão" um tanto quanto virtual - diria até que ela não existe, que não passa de um título inventado por heavy users de internet que adorariam ser chamados de "especialista" em qualquer coisa. Sempre que recebo qualquer currículo que comece caracterizando o dono do próprio como "qualquer-coisa-em-redes-sociais", não tenho dúvidas: nem leio o restante. Vai para o lixo.
    Abraço!

    2 anos atrás por Fernanda
  • Melhor post ever!

    Agora todo mundo quer ser Analista de Mídias Sociais, mas ninguém quer estudar. É o que eu mais vejo ai, todo santo dia.

    2 anos atrás por Vicky
  • Ter bom senso, acima de tudo, é condição sine qua non, seja lá qual for a sua profissão. Falta isso em demasia no universo de mídias sociais. A própria área vive seus anos áureos, é mais do que um hype, é uma necessidade nos dias de hoje.

    E nessa, como sabemos, entra todo mundo. Tem Twitter com 45.000 seguidores? WOW, é você que a gente quer. Triste.



    2 anos atrás por Raquel Arellano
  • Fala Léo. Muito bom o texto, divertido como sempre. Tenho visto muitas empresas recrutando o cara só pq ele tem muitos seguidores e tem um Twitter ativo. Isso de modo algum revela se o cara tem uma visão estratégica ou bom senso na hora de escrever em prol de uma marca.

    2 anos atrás por Fabner
  • O que fazer para ser um bom analista de mídias sociais? Pensar ALÉM de mídias sociais. Não achar que mídias sociais vão salvar o mundo, até porque, um belo 30 segundos no intervalo do Super Bowl ainda supera qualquer campanha de mídias sociais em apenas alguns segundos, se seu objetivo for somente exposição. Não ser bitolado, estudar propaganda (porque, quer os xiitas queiram ou não, MS ainda está mais para propaganda do que para qualquer outra área), antropologia, comportamento do consumidor, APRENDER A ESCREVER, aprender a adequar sua linguagem a cada público alvo etc. Isso aí qualquer um sabe, além disso é o "plus a mais", como diria o poeta. Aí se separam os homens dos meninos (sem pedofilia, pessoal)

    2 anos atrás por Léo Luz
  • Eu concordo com o texto, só que na verdade existem muitos "Analistas" só na bio do twitter mesmo. Porque dentro de agência, com carteira assinada eu pelo menos não conheço...



    2 anos atrás por Vitor Paranhos
  • A dúvida surgiu inevitavelmente: mas o que fazer então pra ser um bom analista de mídias sociais?


    2 anos atrás por Renata
  • o texto é bom, mas ficou só no "critiquês". Assim é fácil. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. O que fazer para ser um bom "analista de mídias sociais"?

    2 anos atrás por nanico pedrosa
  • Léo, nao vou mandar uma bomba pra tua casa!
    Curti teu texto! Beijo.

    2 anos atrás por Dianne - Poa, RS
  • Esse não é um problema específico de analistas de redes sócias, mas sim de analistas da internet como um todo.

    2 anos atrás por Lauro Gonçalves
  • Certo. O texto fica no bate assopra. Faltou dizer quem são eles, e mais, o que fazer para não sê-los.

    2 anos atrás por Fred
  • Oi Leo,

    Parabéns pelo texto, faltou apenas mencionar os "cyber gurus"do momento.

    Abraços,



    2 anos atrás por Tatiana Tosi
  • Léo, primeiramente quero te parabenizar pelo texto, muito bom mesmo.

    Segundo, hoje em dia tem mt gente dizendo que é analista de mídias sociais, mas também tem muita empresa que não quer gastar dinheiro e contrata estagiário para fazer isso, sem nem ao menos ver se ele tem alguma capacidade para isso, capacidade até do tipo de ter conta ativa em redes sociais. Ou seja... Temos dois problemas... Mas como o Filipe disse, isto acontece em qualquer nova profissão que apareça.

    2 anos atrás por Ju M Olinto
  • Isso é comum em qualquer "nova profissão" que não tenha uma formação acadêmica bem definida. A consultoria por si própria sofre com este tipo de problema. E mídias sociais ainda são uma novidade no Brasil. Agora é aguardar que as empresas procurem profissionais realmente qualificados para que o mercado equilibre.

    2 anos atrás por Filipe
  • ótimo texto.

    2 anos atrás por Marcela Borges

  • Hoje qualquer Zé Mané virou analista de mídia social no Brasil. A grande diversão do cara ainda é o Orkut e ele pensa já pensa que pode oferecer serviços de “consultor de mídias sociais”.


    2 anos atrás por Almir
  • Um ótimo texto, Léo. É exatamente o que a gente vê. Pessoas que criam um conta no twitter ontem e ja dizem "então agora eu tbm sou analista."

    2 anos atrás por Deeercy
  • Você esqueceu de dizer o que é preciso pra deixar de ser um caga-regras...

    2 anos atrás por juemba


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