Mídias Sociais: muito cacique para pouco índio
De todas as profissões de moda dos últimos anos — de jornalista a profissões relacionadas ao petróleo, passando pela engenharia ambiental — nenhuma causou tanto barulho e fez tanto barulho no mercado de trabalho como a profissão de analista de mídias sociais. Antes gostaria de esclarecer: sou escritor, roteirista, webwriter e analista de mídias sociais. Pois é. Eu também sou analista de mídias sociais. Portanto, vou cortar na minha própria carne.
Mas por que esta profissão relativamente nova faz tanto barulho e atrai tanto os jovens? Em primeiro lugar: comodidade. Caímos aqui na estória do “eu gosto de me comunicar, vou fazer comunicação”. Só que a frase muda para “eu gosto de redes sociais, vou ser analista de mídias sociais”. Mas gostar e ser heavy user de redes sociais NÃO faz de ninguém um profissional nisso. Assim como o fato de eu usar óculos desde os quatro anos de idade não faz de mim um oculista, ou o fato de eu dirigir 30km pro trabalho todo dia não me faz um engenheiro mecânico ou piloto profissional. Mas é claro, não sejamos xiitas: em alguns casos o gosto pode ser transformar em profissão. PODE, vejam bem. Não necessariamente.
Porém, isso tem sido uma constante no mercado. E como hoje em dia a maioria das empresas se preocupa mais em conseguir mão de obra barata que faça mil coisas ao mesmo tempo, elas contratam estas pessoas. E como poucos clientes entendem realmente de mídias sociais, eles vão empurrando o trabalho com a barriga, enganando a si próprios e ao cliente. E neste exato ponto nasce o outro problema: o analista de mídias sociais caga-regras.
Você já topou com um desses. Ele tem um ano, um ano e pouco de experiência. Fez meia dúzia de cursos, vai a todos os seminários sobre internet e mídias sociais, e acha que tem a resposta para todos os problemas do cliente, e que o que todos fazem é errado, e o que ele faz é certo. É aquele sujeito fanático, sem a menor noção de comunicação como um todo, e que acha que mídias sociais resolvem qualquer problema de qualquer cliente. Eles dizem que tudo o que outras agências fazem é errado e só a deles faz certo. Nunca fizeram uma campanha grande de sucesso, mas vivem criticando quem faz. Vivem citando autores da moda, vomitando teorias lançadas no dia anterior e balbuciando termos em inglês sem a menor necessidade. Adora gráficos, relatórios, tabelas, números absurdos, e, pelos seus cálculos, cada campanha sua atinge, em média, um número de pessoas equivalente a três vezes a população da Terra.
O caga-regras não entende de marketing, publicidade ou antropologia. Só entende das ferramentas. Tem conta em pelo menos setenta e duas redes sociais. Conhece todas elas, incluindo seus plugins, ferramentas e complementos. Fica até as dez da noite na agência, quando poderia ter resolvido tudo até as seis. Mas ele adora dizer que trabalha até tarde. Para o caga-regras quem sai na hora e tem vida social não é um bom profissional.
O terceiro problema é o que eu chamo de “personal trainer gordo”. Você contrataria um personal trainer gordo? Se consultaria com um fonoaudiólogo gago? Então porque confiar em um analista de mídias sociais que não sabe utilizar minimamente bem as redes sociais? Neste exato momento aposto que você está pensando que, como diria o poeta, “traficante bom é o que não usa droga”. Concordo em gênero, número e grau. Mas o traficante vende um produto que faz efeito por si só. Ele não precisa fazer nada, só vender. Já o analista de mídias sociais não. Ele vende algo que ELE vai ter que executar. E como ele vai executar bem um serviço para o cliente, se ele não o sabe fazer para si próprio?
Analistas de mídias sociais que só usam as redes sociais para falar da própria vida, vomitar teorias, gráficos e apresentações de grandes nomes da área ou fazer criticas veladas, tem uma pequeníssima chance de obter sucesso ao utilizá-las para o cliente. Ninguém precisa ter dezenas de milhares de seguidores no Twitter, mas se você tem poucas dezenas deles, isso é um sinal de que o que você fala não é interessante. Logo, por que eu devo achar que você falaria algo interessante sobre a minha marca? E aí vem o argumento apelidado de “feio, bobo, chato e cara de melão”: dizer que ter muitos seguidores não é sinal de competência. Concordo, não é. De maneira nenhuma. Mas não ter quase nenhum também não, concorda?
Mas não existem bons profissionais? Mas é lógico que sim! Existem ótimos profissionais. Pessoas competentes, que estudam, se preparam, que entendem que neste mercado poucas verdades são universais e, acima de tudo, gente que não caiu de pára-quedas na profissão porque “gosta muito de redes sociais”.
Bom, era isso, amigos. Se você discorda, concorda ou quer meu endereço pra enviar uma bomba, é só comentar que eu respondo. E parem e pensem no que eu disse, pois muitas pessoas pensam assim, mas poucas admitem, em nome de um corporativismo bajulador e de uma atitude “neutra”. Mas muita gente — muita mesmo — vai concordar. Tenho certeza.





