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POR EM 15/12/2009 ÀS 10:35 AM

Meu caso com a Voltswatt

publicado em

Nos idos de 2003, a indústria automobilística Voltswatt lançou um concurso nacional de contos, com o tema "Meu Caso com a Volts", em busca de histórias incríveis, envolvendo veículos seus. Dizia que há sempre um caso interessante, original e inusitado, tendo como personagem um modelo Voltswatt, e a indústria queria conhecer a história de cada concorrente, a saber como os carros da marca interagiam com a vida da pessoa, no caso a protagonista do fato. E o fato poderia ser dramático, divertido, místico, familiar, sentimental ou profissional. Valia tudo, desde que verídico e narrado com talento literário, no limite entre vinte e quarenta linhas de texto. 

Os 50 melhores trabalhos receberiam prêmios especiais, entre eles três automóveis do ano, zero quilômetro, nos modelos Sedan,  Turbo e Power, aos três primeiros colocados, e um home theater — receiver + DVD player integrados + cinco caixas de som e um subwoofer de marca e modelo que seriam definidos pela Voltswatt — para cada um dos outros 47 classificados. 

Achando que talento me sobrava, eu que nunca tivera nenhum caso com um carro daquela indústria ou de qualquer outra marca — pelos simples fato de que, até então, jamais possuíra um —, pensei que ainda assim poderia tentar, dando uma de criativo e, quem sabe, ganhando um daqueles prêmios. Ato contínuo as idéias me foram vindo, meio que na base da escrita automática, e saiu-me o que se segue, com laivos de duplo sentido: 

“Mas como assim, meu caso com um Voltswatt? Que me conste, se não me falha a memória, nunca tive, ao longo dos meus sessenta anos de vida, um caso Volts, sequer um tufo de estopa. Bem que eu gostaria, pois ainda é tempo, de ter um caso com uma dessas máquinas maravihosas da Volts. Ah, John Lennon, imagine-me num carro desses, rodando pelas deploráveis rodovias brasileiras e, todavia, curtindo, ao lado de Michelle Pfeiffer, as ensolaradas praias deste imenso país! Mas cadê o dinheiro? Sou filho adotivo da pobreza. E pensa que a Mariquinha, minha abnegada e possessiva esposa, permitiria uma delícias dessas: eu mais a Michelle Pfeiffer? Mais fácil a Mariquinha, escorpiniana das Alagoas, encher de bolachas a carinha linda da Michelle. E a minha. 

Com o devido respeito, eu queria ter um caso com a gostosa da Voltswatt, que no caso não é Michelle Pfeiffer, mas alguma musa ou deusa na indústria de automóveis. Quem sabe, agora, com esse concurso, eu possa ter o meu caso, ou melhor, o meu carro? De qualquer modelo, tanto faz. Voltswatt é sinônimo de boa viagem. (Comercial a cobrar). 

Como é que é? O caso? Que caso? Ah, sim! Que cabeça, esta minha, que já ia me esquecendo. Como eu já disse, o meu caso com um Volswatt é que nunca tive um Voltswatt, e estou criando caso por isso. E que conversa é essa de que se reserva o direito de verificar a veracidade da história? Perguntar não ofende: querem um caso, um conto ou um depoimento? Um caso é um caso, não raro picaresco, hilário e até folclórico. Quanto à natureza do caso, há casos e casos, e cada caso é um caso. Já o depoimento é uma declaração dos fatos, e o conto é ficção, conquanto se misturem, no âmbito do verossímel, a ficção e a reaidade. E não se diz que quem conta um conto acrescenta um ponto? 

Ah, querem fatos verídicos, história verdadeira? Pois fico lhes devendo a história, até porque ainda não tive o gostinho da aventura ou do affair com um Voltswatt, pelo simples fato de, repito, não possuir o bendito Volts. Pois não é certo que, para se tar um caso, é preciso possuir? Amiúde me perguntam se tenho carro e respondo que os únicos pneus com que me locomovo, além dos pneus do transporte coletivo, são os solados de borracha dos meus sapatos. E como não sou pobre soberbo, se não posso ter um Voltswatt, durmo sonhando com um computador, pela falta que ele me faz. Viajo pelo mundo dos sonhos e vou lendo os outdoors: É VOLTSWATT? ENTÃO BOA VIAGEM.” 

Encerrei, assim, com esse comercial então gratuito — agora não é mais: se aproveitar a idéia, tem que pagar —, o meu texto para o concurso da Volts. Até hoje não sei quais foram os ganhadores dos três carros e dos 47 DVDs devidamente equipados. Que eu me lembre, não recebi nenhum comunicado sobre o resultado do certame, daí nem me interessei em tomar conhecimento. É visto que não acreditaram na minha história, de resto verdadeira. E tudo porque eu não tinha, como até hoje não tenho, um carro da Voltswatt, para ter tido um caso com a mesma. Parece-me um caso de capricho feminino — vingança? — por um caso que não deu certo, tanto é que não houve. Mas, agora, é esse o meu caso com a Volts, como acabo de contar. Compenso-me transformando aquela minha história em crônica e, ao mesmo tempo, numa espécie de paródia. Talento não me falta para tanto.

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