Menos clássicos e mais contemporâneos
Marcelo Coelho e Antônio Cícero, em suas colunas na “Folha de São Paulo” de, respectivamente, 13/05/2009 e 30/05/2009, percorreram caminhos diferentes, mas chegaram ao mesmo lugar. O primeiro, comentando o lançamento do livro “Kalevala” (um épico finlandês traduzido por José Bizerril e Álvaro Faleiros, e editado pela Ateliê), diz acreditar que “temos pavor de ler os clássicos de qualquer literatura” e que “perdemos tempo com muitos livros atuais, deixando autores como Goethe, Dante, Virgílio e Montaigne para quando estivermos bem velhinhos”.
Antônio Cícero, por sua vez, defende a leitura dos clássicos da filosofia, em detrimento de seus comentadores contemporâneos. O “desejo de ser contemporâneo”, acredita, “não passa de sintoma de um agudo provincianismo temporal. Quando se manifesta no campo da filosofia, talvez o melhor antídoto para ele seja exatamente a leitura cuidadosa dos clássicos.”
Isso me fez lembrar do quanto é comum se ouvir de escritores, quando perguntados o que aconselham outros escritores a ler, que privilegiem os clássicos. Faz-me lembrar também daquelas listas (de que o editor da Revista Bula, Carlos Willian, tanto gosta) de leitura de fim de ano, recheadas de clássicos estrangeiros e de insultos a autores brasileiros.
Discordo triplamente. Pra começo de conversa, não acho que Marcelo Coelho tenha razão ao inferir que lemos mais contemporâneos do que clássicos. Se é pra chutar, chuto o exato oposto. Imagino basicamente dois tipos de leitores não-escritores (os leitores-escritores são diferentes, explicarei depois): a maioria é leitora de best-sellers estrangeiros (eventualmente um brasileiro como Paulo Coelho ou Luiz Fernando Veríssimo, guardadas as devidas proporções entre os dois, quantitativa e qualitativamente); a minoria é leitora de clássicos estrangeiros (“Dom Quixote”, “Crime e Castigo”, “Guerra e Paz” seriam bons exemplos de livros consumidos por esse grupo). Por último, correndo por fora, há os leitores-escritores que lêem a si próprios (e eventualmente são lidos por vestibulandos). Portanto, o grupo que lê “literatura brasileira contemporânea” é disparado o menor.
Em segundo lugar, discordo também de Antônio Cícero. Penso que ele está confundindo o que lê a academia por dever de ofício com o que o que lê o “filosofiófilo”. Filósofos diletantes só querem saber de clássicos. Nem sequer ouvem falar desse ou daquele candidato a filósofo contemporâneo. “A República” de Platão e a “Ética a Nicômaco” de Aristóteles, “O elogio da loucura” de Erasmo de Roterdam e a “Utopia” de Morus, “O príncipe de Maquiavel” e “Assim falava Zaratustra” de Nietzsche são certamente muito mais lidos do que qualquer medalhão de qualquer universidade de prestígio brasileira ou estrangeira.
De onde tirei isso? É chute, já disse. Vem de minhas impressões em conversas em festas e outras formas de sociabilização com não-escritores e não-filósofos. Absolutamente não-científico. Mas eu seria capaz de apostar dinheiro nesse meu palpite.
Em terceiro lugar, discordo tanto de escritores que sugerem privilegiar os clássicos, quanto daqueles que acreditam que não se faz coisa que preste em literatura ou filosofia no Brasil. Escritor brasileiro vivo tem que ler, sim, bastante escritor brasileiro (e estrangeiro) vivo. Leitores eruditos, por seu turno, não sabem o que estão perdendo quando desprezam a literatura contemporânea nacional. Tem muita coisa boa sendo feita por aqui. Arrisco ir além. Existem vários escritores brasileiros que dão banho nos queridinhos de fora do momento (Philip Roth, Ian MacEwan, etc, a lista é longa).
Eu disse antes que o grupo de leitores de escritores nacionais contemporâneos é formado (basicamente) por... escritores nacionais contemporâneos. Caio em contradição? Não, porque essa turma costuma ler também os clássicos (daqui ou de fora), sem que seja necessário que escritores já com fama estabelecida lhes digam isso.
Não defendo que não se leia clássicos. Não sou estúpido. O que defendo é que não se privilegie os clássicos. Como tudo na vida, há que ter equilíbrio. Leia-se uns e outros. Igualmente.















