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POR EM 26/05/2010 ÀS 06:51 PM

MBA em Felicidade

publicado em

MBA é uma sigla inglesa dentre tantas outras (na modernidade, antes de tudo, é preciso resumir, condensar, economizar tempo até mesmo com as palavras; tempo é dinheiro; não temos tempo a perder; etc e tal...). Significa “Master in Business Administration”. Aportuguesando, quer dizer “Mestre em Administração de Negócios”. Por que, então, não se diz MAN, ao invés de MBA? Seria a língua inglesa mais glamorosa? O velho complexo de vira-latas enraizado na alma brasileira? 

Andraus (sim, ele tem o mesmo nome daquele edifício incendiado em São Paulo nos anos 70) está sentado no alpendre de casa colocando em dia as correspondências acumuladas. Telegramas de condolências têm aos montes, mas ele nem abre. Joga tudo dentro de um cesto de vime pra ler, quem sabe, qualquer dia desses. Já tinha lacrado fotografias, roupas, brinquedos e outras lembranças do filho. Podia, sim, engavetar telegramas solidários da mesma forma.

Comerciante rico e bem sucedido, ele se depara com um folder luxuoso enviado por um instituto especializado em pós-graduações para empresários: marketing (por que, diabos, não escrevem logo “mercadologia”?!), gestão de pessoas (este deve ser mesmo um curso muito útil, pois alguém ensina alguém a lidar com outro alguém, ou seja, tolerar, treinar, influenciar, dominar e domar pessoas), gestão empresarial, mercado de capitais, gestão de negócios, controladoria e finanças corporativas...

Andraus (sua vida pegou fogo nos últimos dias) até se impressiona com a qualidade do material de propaganda, com o brilho e a textura do papel, com a elegância dos modelos humanos fotografados (olhando superficialmente, eles parecem mesmo criaturas felizes e bem sucedidas...). Mas não se anima com a oferta de aperfeiçoamento profissional, mesmo a preços módicos e parcelamento generoso das mensalidades. Ele pensa: quanto tempo demandará até que a vida tome de novo um rumo?

São ofertados vinte cursos de especialização, nas mais diversas áreas do conhecimento, com ênfase na administração de negócios. É a sua praia. Mas o impoluto empresário permanece afogado em lágrimas, um turbulento mar de dúvidas que destroçaram a vida da família como se fora um tsunami. Ele campeia o folder com os olhos em brasa (não para de pensar no filho um só minuto), mas não encontra o MBA que mais que se ajuste ao contexto. Quem sabe, ó Pai (Andraus perdeu quase toda fé ao trocar de mal com Deus...), um MBA em Felicidade, em Tocar a Vida, ou Começar de Novo... Por um instante, ele se lembra da canção do Ivan Lins que tem este mesmo título, mas não consegue cantar. Desde que enterrou o menino, Andraus só faz chorar.

Esteve com o psiquiatra. O doutor negou a ele a prescrição de sedativos e outros medicamentos para tapear a dor (deixa doer!). Explicou que o luto naquele tipo de situação dura, em média, uns quatro meses. Que tivesse paciência e aguardasse o tempo ajeitar as coisas. Se cresse em Deus, rezasse. Dar tempo ao tempo... Logo ele, empresário dos mais tarimbados, um viciado em trabalho, um provedor dedicado com pouco tempo disponível para o lazer, o prazer, o convívio familiar e outras simplicidades como assistir à chuva caindo.

Corroído por dentro, pego de surpresa por um cruel revés da vida, Andraus percebe que nem o conhecimento, nem a fortuna acumulada, nem o poder podem livrá-lo de tamanho sofrimento. É verdade, como dizem: dinheiro não traz felicidade, e nem desfaz a infelicidade de ter carregado, ele próprio, o corpo inerte do único filho arrebatado por um acidente doméstico jamais imaginado. Ainda que ele se considere um fiel serviçal do tempo, por que os ponteiros do relógio simplesmente não voltam atrás e desfazem o acontecido? Quando se está tomado pela melancolia e pela desesperança, idealizamos irrealidades até risíveis.

Apesar de ser um homem culto, Andraus sente-se um ignorante de marca maior. Já não se julga tão seguro quanto antes da morte do filho. Sinceramente, ele anseia que alguém, algum profissional tão competente quanto ele, consiga colocar a sua vida novamente sobre os trilhos. Um psiquiatra. Uma psicóloga. O médium indicado por um parente. Um pastor bem intencionado. O padre de sotaque estrangeiro. Um estranho qualquer que já tenha perdido um filho e superado o desespero.

Andraus tem certeza que nunca amou nenhuma outra criatura viva de forma tão visceral. Sentindo-se um nada, o “Nowhere Man” imaginado e cantado por John Lennon, ele rasga o folheto de divulgação em vários pedaços, até que os dedos, acometidos pela dor e pela cãibra, não conseguem mais picotar o papel. São pedaços incontáveis como ele. Algo que, talvez, no futuro, se remende e cole. Um mosaico dos mais grosseiros e surpreendentes. Uma imagem muito anômala que retrate a vida de uma forma tão fidedigna e crua. São mistérios da existência que não se aprendem nem com mil MBA.
 

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