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POR EM 05/01/2010 ÀS 01:19 PM

Marcados para morrer

publicado em

Revista BulaNa sangrenta realidade do país, amontoam-se os corpos de menores assassinados, de uma forma ou de outra. São meninos e quase meninos ainda, longe dos lares, da escola e do sadio lazer que lhes é devido. São os meninos do Brasil. E como lhes será o ano de 2010? Será apenas mais um Ano da Copa? Ou mais um ano eleitoral que nada lhes dá? Mais um ano negro, que lhes rouba a infância, e com ela a vida e o futuro? 

As notícias diárias sempre falam em tantos ou quantos os números de mortes, mas o número exato nem sempre se divulga, podendo alterar-se a cada momento, para mais, infelizmente, porque os jovens enveredam-se por caminhos abissais, muitas vezes sem volta. 

Múltiplos os crimes de pedofilia, de rituais satânicos, de pais que espancam até a morte, mas o envolvimento com o tráfico de drogas é apontado como o principal motivo. E são filhos de famílias pobres — de miseráveis periferias —, mas há também os de classe média e de classe alta; no inferno das drogas, os ricos também morrem, sem piedade —  não há exceções. 

As pobres famílias, impotentes, despreparadas, padecentes de uma estrutura familiar em derrisão, clamam e choram em vão numa sociedade degradada pelos vícios — álcool, drogas e outros produtos nocivos —, como gritam pela falta de ética,  e pela injusta e desumana distribuição de renda. Veja-se aí, por exemplo, o crime do salário mínimo, o maior desse país, enquanto os parlamentares, supostos representantes do povo, mais advogam em causa própria e têm vencimentos milionários, fora o que vem por fora. Ainda assim, alguns deles, os desonesos, lesam os cofres públicos, com o aval da impunidade, e até — desgraça das desgraças — com alguma ajudazinha “legal”, à sombra da letra das leis. 

Reclamam, as pobres famílias, também da ausência de maior impulso e eficácia nas políticas sociais — cidadania real para todos: infância, adolescência, juventude, adultos, idosos. E reclamam da omissão, inoperância ou falta de maior ênfase nas ações das chamadas “autoridades competentes”, amiúde nem sempre competentes a contento, como seria de se esperar, uma vez que são funcionárias, pagas para trabalhar. Estas, por suas vezes, até com justiça, cobram melhores condições de trabalho. 

Clamam por justiça, pais e mães das vítimas, e as autoridades da Segurança sempre alegando carência de mais políticas públicas de prevenção e repressão às drogas. Já outros defendem a elaboração e vigência de legislação específica, obrigando o tratamento ambulatorial de jovens menores usuários de drogas. Acredita-se  que essa obrigação contribuiria para minimizar os índices de mortes nessas faixas etárias. O certo é que esperar que o menor queira se tratar do vício não está funcionando. Eis aí a infância e a juventude condenadas, marcadas para morrer. 

Tatuada pela violência, com a carne sangrande no anzol dos “piercings”, a sociedade se estremece e teme pela vida de seus fihos, teme pelo dia seguinte e teme já pela próxima hora, pois não se sabe a que horas, quando e onde um menor a mais estará morto pelos traficantes. Pertinente, numa hora dessas, ou antes que o pior aconteça, o alerta das autoridades e dos psicólogos, no sentido de que as famílias se preocupem com a (re)estruturação do lar, reatando os laços afetivos ou em conflito, praticando mais a compreensão, o diálogo, acalorando mais os sentimentos amorosos. 

É claro que não é fácil — estando-se num inferno social e familiar —; é muito difícil, muito difícil mesmo, mas não impossível; e não de todo impossível em algum caso, já dado como causa perdida. E é claro que toda tentativa ajuda, tudo ajuda quando a consciência se madruga e o papel de cada um não se omite. 

Sempre é tempo para a reconstrução, desde que haja vontade, querer, predisposição. Revisão de valores, reforma, renovação. Isso vale para toda a sociedade, inclusive os governantes, alguns deles fazendo corpo-mole, empurrando com a barriga os aflitivos problemas que lhes cumprem e não querem enfrentrar. Mas querem a reeleição, “pedem votos com a mesma cara de tacho”, expressão popular para falta de vergonha, cara-de-pau. 

Prefeitos, governadores, presidentes da República, a família, a escola, o Ministério Público, a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, o Conselho Tutelar e outros apêndices, e a Câmara dos Deputados e  o Senado Federal, todos, por sua vez e conjuntamente, têm que atuar de forma mais efetiva e eficaz. Somar vontade política com os reais interesses sociais, buscar e aplicar recursos de combate ao narcotráfico e à violência. Estão aí fazendo o quê, mesmo, já que os dados são negativos? 

Nem só de corrupção — que também deve ser atacada por todos os flancos e com o máximo rigor — pode viver ou sobreviver uma sociedade que se quer evoluída, humanizada e justa, em sintonia com uma verdadeira cidadania e qualidade de vida. Estão faltando homens nesse país, eticamente falando. Está faltando governo. Mais governo. 

A segurança pública é um dever constitucional do Estado, como também é dever de cada um fazer a sua parte, e tanto isso é válido quanto saber que a educação primária da criança começa na família e que temos sido pais defeituosos. Vêm do berço e do coração da família os primeiros passos e a primeira escola do filho que se coloca no mundo e se entrega à sociedade, para dela participar, viver e se realizar como indivíduo e cidadão, e não para ser assassinado. Morto por alguém já por si mesmo destituído de humanidade, quando não uma fera parida pelos porões da sociedade mal-estruturada. A loucura expulsa do  negro útero social, para infelicitar os outros com um sofrimento infinito — a dor de mãe, de pai —, incrustado na alma. A marca do “X” — “Eliminado” — acrescentada na lista negra do narcotráfico.

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Comentários (3)

  • Braz, nossas tragédias coletivas são previsíveis, até mesmo anunciadas, por má virtude da moral complacente de nossos políticos populistas, que "flexibilizam" aquilo que é inflexibilizável - mexem no que é imexível, como já dizia o pitoresco Ministro Magri, um dos pioneiros do peleguismo petista. No Brasil tem sido assim: enquanto uns vivem (e enriquecem) de tanto tirar encostos de ovelhas incautas, outros sobrevivem às custas de ocupar as encostas de morros, dando as costas ao perigo, ao viver em situação de risco.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Grato, bom Baiano, e bom não porque me elogia, mas por ser bom mesmo, ué. E dizer BOMBAiano, não implica dizer "homem-bomba".

    2 anos atrás por Braz
  • Valdibraz dá uma aula de ciências sociais. Parabéns!

    2 anos atrás por Hélverton Baiano


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