Marcados para morrer
Na sangrenta realidade do país, amontoam-se os corpos de menores assassinados, de uma forma ou de outra. São meninos e quase meninos ainda, longe dos lares, da escola e do sadio lazer que lhes é devido. São os meninos do Brasil. E como lhes será o ano de 2010? Será apenas mais um Ano da Copa? Ou mais um ano eleitoral que nada lhes dá? Mais um ano negro, que lhes rouba a infância, e com ela a vida e o futuro?
As notícias diárias sempre falam em tantos ou quantos os números de mortes, mas o número exato nem sempre se divulga, podendo alterar-se a cada momento, para mais, infelizmente, porque os jovens enveredam-se por caminhos abissais, muitas vezes sem volta.
Múltiplos os crimes de pedofilia, de rituais satânicos, de pais que espancam até a morte, mas o envolvimento com o tráfico de drogas é apontado como o principal motivo. E são filhos de famílias pobres — de miseráveis periferias —, mas há também os de classe média e de classe alta; no inferno das drogas, os ricos também morrem, sem piedade — não há exceções.
As pobres famílias, impotentes, despreparadas, padecentes de uma estrutura familiar em derrisão, clamam e choram em vão numa sociedade degradada pelos vícios — álcool, drogas e outros produtos nocivos —, como gritam pela falta de ética, e pela injusta e desumana distribuição de renda. Veja-se aí, por exemplo, o crime do salário mínimo, o maior desse país, enquanto os parlamentares, supostos representantes do povo, mais advogam em causa própria e têm vencimentos milionários, fora o que vem por fora. Ainda assim, alguns deles, os desonesos, lesam os cofres públicos, com o aval da impunidade, e até — desgraça das desgraças — com alguma ajudazinha “legal”, à sombra da letra das leis.
Reclamam, as pobres famílias, também da ausência de maior impulso e eficácia nas políticas sociais — cidadania real para todos: infância, adolescência, juventude, adultos, idosos. E reclamam da omissão, inoperância ou falta de maior ênfase nas ações das chamadas “autoridades competentes”, amiúde nem sempre competentes a contento, como seria de se esperar, uma vez que são funcionárias, pagas para trabalhar. Estas, por suas vezes, até com justiça, cobram melhores condições de trabalho.
Clamam por justiça, pais e mães das vítimas, e as autoridades da Segurança sempre alegando carência de mais políticas públicas de prevenção e repressão às drogas. Já outros defendem a elaboração e vigência de legislação específica, obrigando o tratamento ambulatorial de jovens menores usuários de drogas. Acredita-se que essa obrigação contribuiria para minimizar os índices de mortes nessas faixas etárias. O certo é que esperar que o menor queira se tratar do vício não está funcionando. Eis aí a infância e a juventude condenadas, marcadas para morrer.
Tatuada pela violência, com a carne sangrande no anzol dos “piercings”, a sociedade se estremece e teme pela vida de seus fihos, teme pelo dia seguinte e teme já pela próxima hora, pois não se sabe a que horas, quando e onde um menor a mais estará morto pelos traficantes. Pertinente, numa hora dessas, ou antes que o pior aconteça, o alerta das autoridades e dos psicólogos, no sentido de que as famílias se preocupem com a (re)estruturação do lar, reatando os laços afetivos ou em conflito, praticando mais a compreensão, o diálogo, acalorando mais os sentimentos amorosos.
É claro que não é fácil — estando-se num inferno social e familiar —; é muito difícil, muito difícil mesmo, mas não impossível; e não de todo impossível em algum caso, já dado como causa perdida. E é claro que toda tentativa ajuda, tudo ajuda quando a consciência se madruga e o papel de cada um não se omite.
Sempre é tempo para a reconstrução, desde que haja vontade, querer, predisposição. Revisão de valores, reforma, renovação. Isso vale para toda a sociedade, inclusive os governantes, alguns deles fazendo corpo-mole, empurrando com a barriga os aflitivos problemas que lhes cumprem e não querem enfrentrar. Mas querem a reeleição, “pedem votos com a mesma cara de tacho”, expressão popular para falta de vergonha, cara-de-pau.
Prefeitos, governadores, presidentes da República, a família, a escola, o Ministério Público, a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, o Conselho Tutelar e outros apêndices, e a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, todos, por sua vez e conjuntamente, têm que atuar de forma mais efetiva e eficaz. Somar vontade política com os reais interesses sociais, buscar e aplicar recursos de combate ao narcotráfico e à violência. Estão aí fazendo o quê, mesmo, já que os dados são negativos?
Nem só de corrupção — que também deve ser atacada por todos os flancos e com o máximo rigor — pode viver ou sobreviver uma sociedade que se quer evoluída, humanizada e justa, em sintonia com uma verdadeira cidadania e qualidade de vida. Estão faltando homens nesse país, eticamente falando. Está faltando governo. Mais governo.
A segurança pública é um dever constitucional do Estado, como também é dever de cada um fazer a sua parte, e tanto isso é válido quanto saber que a educação primária da criança começa na família e que temos sido pais defeituosos. Vêm do berço e do coração da família os primeiros passos e a primeira escola do filho que se coloca no mundo e se entrega à sociedade, para dela participar, viver e se realizar como indivíduo e cidadão, e não para ser assassinado. Morto por alguém já por si mesmo destituído de humanidade, quando não uma fera parida pelos porões da sociedade mal-estruturada. A loucura expulsa do negro útero social, para infelicitar os outros com um sofrimento infinito — a dor de mãe, de pai —, incrustado na alma. A marca do “X” — “Eliminado” — acrescentada na lista negra do narcotráfico.





