Levitação
Algo de estranho acontecia, desde cedo. Quando tocou os pés no chão sobre o tapete e se encaminhou para o toalete, estava mais leve, ligeiramente vago, os passos um tanto erráticos naquele breve caminhar. As paredes ondulavam-se, feito muralhas fluidas.
Pelo que a mãe dizia, pensou tratar-se de labirintite. Mas pelas explicações da mãe era uma coisa horrível, um desequilíbrio de quem rodopia, acompanhado de náuseas. E o que ele sentia não era bem assim: era mais uma leveza, atrelada a uma sensação de prazer, diferente de tudo o que sentira até então.
O trânsito, que sempre lhe fora fonte de aborrecimentos, converteu-se num rio mágico, por onde seu carro flutuava, que só a canoa de um pajé ancestral. Seu lado racional lhe impingiu um certo medo. Naquela instabilidade geral era bem capaz de acontecer um acidente de graves proporções. Mas após percorrer alguns quarteirões, abstraiu-se dos riscos e curtiu integralmente os prazeres da flutuação.
Mais cedo que o desejado (por ele esticaria aquele itinerário indefinidamente) chegou são e salvo ao pátio da firma, onde era diretor de produção. Parece que pelos próprios meios o carro buscou a melhor posição na vaga do estacionamento. Embutido no terno grafite, desceu anexo à pasta de executivo, buscando a estabilidade possível na grava italiana, presente da última namorada.
Pegou a rampa que dava ao elevador. Mas parecia não tocar mais o chão. Suas pernas eram agora remos ou barbatanas. Tudo parecia ter ficado ainda mais fluido. Abriu os braços, mesmo com temor de parecer ridículo. O que iriam dizer os subalternos de um diretor que levita. O que pensariam os superiores de um executivo com tamanha habilidade fora do foco do ramo da produção industrial?
Apesar dos receios, uma lufada de jeito, uma termal talvez, pegou Homero antes que alcançasse a área coberta. Seu terno abriu como asas de uma gaivota e sua gravata tremulou no ar, feito rabiola de pipa.
Inicialmente hesitou qualquer tanto, como um guardanapo aberto atirado ao vento. Depois se viu subindo como as pipas que ele soltava na primavera, nos campos de futebol de várzea, nos dias da infância.
Junto com a levitação, outras habilidades vieram em seu socorro. Conseguia ver o passado inteiro com uma nitidez assustadora. O passado não eram apenas recordações. Eram fatos vivos acontecendo simultaneamente, qual uma tela dividida em quadros. O melhor é que ele detinha destrezas para vivenciar a todos os fatos, com uma vividez incrível.
Homero agora se entretinha lépido e fagueiro com os fatos antigos, naqueles dias que pareciam felizes e eternos. Brincava com os amigos de infância nos campos e riachos de outrora. Soltava traque e rodava pião no pátio do grupo escolar. Recebia mimo dos pais na casa antiga. Tudo ao mesmo tempo.
Enquanto, no Jardim das Palmeiras, seu corpo se velava, atestado por um boletim do IML, como vítima de fulminante infarto.





