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POR EM 16/03/2009 ÀS 09:06 PM

Leitura do processo de desumanização do homem

publicado em

 Parte I  

M E T R Ó P OL E

Central de Alta tensão

Esta cidade que brotou como colossal cogumelo, era um enigma para seus próprios habitantes, perplexos, tentando entendê-la como podiam, enquanto lutavam para não serem devorados. — Nicolau Sevcenko, Orfeu estático na metrópole .

LOBOS NO LABIRINTO

Homo homini lupus.

Thomas Hobbes, Leviatã.

A selva densa, árvores de pedra, vidro e aço, com as mungubas e seus frutos bobos. Espaços de fumaça e doença, onde as flores só enfeitam a trágica ilusão de tudo. Dança de cabeças, pernas, braços, uma ameaça de bocas que assustam; os bafos de fogo da Besta, os dragões da cachaça, os dentes em cacos e pústulas. O animal da distinção de classes, o animal do credo e da raça, o animal da contradição social, o animal da injustiça, o animal da violência, o animal caçador, o animal do dia da caça: o cobrador da exclusão social. Os nomes animais da mortal sobrevivência, e o cão de estimação.

A cidade cerebral, o ventre, a vulva, o útero, as vísceras de tudo que explode, os dentros de tudo que vomita. Surdos socos, o coração; o sangue no ringue, a vida de pé, o animal da multidão. Feixe de nervos em atrito, a cidade um corpo convulso, de um produto em estado bruto. Fios elétricos, o tecido social. Usinas humanas, central de alta tensão.

A cidade o animal parido, o ganido faminto, o cão danado. A cidade mãe de todas as fomes, todas as mordidas; um cão ferido a lamber suas feridas. O homem lobo do homem. O predador no labirinto sangrento, nas esquinas, nos becos sem saída, nos túneis do horror e de todos os gritos, todos os danos. Todo grito é itinerante. Todo grito nos diz respeito. Todo grito. O grito caminha com a multidão, a multidão caminha com a fome, a fome é sua própria carne. Cotidiana, diuturna, a multidão uma fome que não dorme. As ruas frias engrenagens, vertigem, voragem a moer carne viva — a vida nua e crua — para a fome insone, que a tudo consome. Come, come, come, a carne com fome. Tritura-se a carne, e o que mais dói, além do sangue que se esvai em rios de avenidas, são os gritos do silêncio e do medo, coagulando a vida.

Troféu de Lobo do Ano ao homem, diploma de Honra ao Mérito a Necrófila, metrópole que se alimenta de seus mortos. Da própria carne gerado, o que nela penetra e se dissimula, a devorá-la infestada de si mesmo — o verme —, uma fome que engendra sua forma, uma forma que se anima do homem, e dele se engorda. Crua a demanda da vida, cadela dos nacos sanguinolentos, malsaídos de frescos defuntos. E beber-se o tinto feito sangue, comer-se a hóstia como se corpo: transubstância ou arquétipo canibalesco? Pois não lembra, incubo antropófago, o altar dos sacrifícios? Ó mísera, patética vida! Toma, coma os rins, que os olhos já são teus. Ai, que escurideus! O cão para os ossos da posse, nas ruas de famintas ambulâncias.

Abertas sirenes, veias da gangrena, celeradas as ruas se aceleram; algumas se arrastam que nem lesmas, havendo-as também de olhar vacum, alheias ao veneno que ruminam. Certo é que as ruas andam, se movem com os lobos na pele do inimigo público. As ruas geram lobos para devorá-los vivos. Força motriz do próprio umbigo, as ruas eletrizam o perigo. A vida das ruas se alimenta de medo. Vive de medo. O medo se alimenta de sustos. As ruas são animais assustados, desconfiados de tudo. Pelas ruas do absurdo, aquele que se descuida de seu medo já é o inimigo. O inimigo se alimenta de gritos.

CACTOS DE AÇO INOX

Teceu-se o homem com fios perversos; os olhos frios, esferas de aço. Ácidos insultos, a metalurgia dos vocábulos. De ferro batido a face humana, à semelhança da paisagem urbana. O homem copia suas estruturas, no meio delas não vale nada sua vida: mais-valia, vale menos que as folhas varridas pelas vassouras da prefeitura. O homem é um bicho entre o aço e o lixo.

Emparedado, empedrado, empedernido, o homem não é nada sólido. No fundo, é só um sonho mineral, com a carne do animal Um pesadelo real. Uma fera, uma fúria incubada, remoendo seus modos, roendo seus medos, malgrado seus blocos de pedra, seus muros, seus cadeados, seus dobermanns. Um rosto duro, de pedra chapada; um olhar pontiagudo, de aço lavrado. Petrificado por dentro, por fora encouraçado, pedra dentro da pedra sem sentido. Mas fora ou na fundura do tecido, perdura uma dor endurecida e surda, uma dor de nome enorme, com o sobrenome do homem, a soma de todos os anônimos. O mendigo e seu cão — o vira-latas Rex —, perdidos na multidão. Cactos de aço inox, espetados no céu ocre da metrópole, bem no meio do olho de Deus, o Ciclope. Clop-clop, clop-clop, uma cadência de cascos. Cloc-cloc, cloc-cloc, a mecânica do tempo. Um homem-bomba no Shopping Center.

Parte II

USINAS HUMANAS

Cidadania na Sociedade Anônima & Cia. Ltda.

Há no olhar das bestas uma humildade profunda e docemente triste que me inspira uma tal simpatia que minha alma se abre a todas as dores animais. — Francis James.

AS GARRAS DOS GUINDASTES

Concerto para Igor Stravinsky

Gritos metálicos, dilacerantes, de letras em ricochetes pelos dentes da máquina. Filetes de sangue nas entrelinhas da noite para o dia. Versos impressos em lâminas, gritos ainda úmidos de graxa, metalurgia de unhas gigantes, ranhuras em chapas de aço. Gritos próximos dos guinchos agastantes dos guindastes, ou de um Igor Stravinsky, nas ranhuras da orquestra. E como se imputasse culpa ao texto pela devassa do silêncio, emite a folha em branco uns gritos de estupro. Mas o texto é só uma sombra das formas da noite, com o lacre das portas secretas e perguntas sem respostas. A doença do crepúsculo é tudo que fica. Crepúsculos de ocre e acrílico, cromos oblíquos, e lâminas, que aniquilam o ânimo do homem.

A PARTE SEMELHANTE

Olhos alagados entre o rímel que os realça, tristonha vai a moça pelo eixo cotidiano dos anônimos. Uma lágrima que desce pela face de blush da superfície, camada que enrubesce mas não disfarça da infeliz a feia cicatriz. Um choro solitário em meio ao que chamam de massa os sociólogos, e que logo se perde no rush de pernas ambulacrárias e olhos de vidro blindado, nas cabeças que arremedam hidra. Mas sobra ainda um vislumbre de seus pés: as sandálias novas e azuis! E antes que tudo se torne apenas poema de circunstância, prevaleça a epifania dos fragmentos. Todo fragmento é o que somos do outro. É a nossa parte semelhante. A metrópole brota do monólito, e cada lasca do bloco em que se esculpe a metrópole — o colosso, o Minotauro, o mito, o obelisco, a catedral, o bem e o mal —, cada lasca nos toca de perto. Toda perda ou conquista nos toca. Isto que somos, do mesmo bloco: públicos e anônimos, carne e osso do labirinto.

TRÊFEGO TRÁFEGO

Fonfooon! Fonhenhémmm! Quer morrer, mané? Vai te foder, chulé! Trêfego tráfego. O sistema caótico, os semáforos hipnóticos, o funesto alarde tóxico. O rush, o stress, o corpo feito chapa na prensa; os ossos moídos, rangidos de ferro e nervos retorcidos; calculem-se os ais dos cálculos renais! A hora do crepúsculo, a cãibra e a câimbra nos músculos. Os pulmões poluídos, arfando à força, fole de cansaços. Os primeiros sintomas num sistema de autômatos. A bomba injetora, a válvula, o curto-circuito, a catástrofe: o pneu estourando em pleno cruzamento. O sinal fechado, outro sinal aberto... Crash! A batida fatídica, na parada cardíaca. Ó vida! Oh, vida! Um zero à esquerda, na placa do nada.

O BRILHO CARNÍVORO

Homens e cães sofrem os malefícios da cápsula de pó ao pé dos edifícios. Poetas lêem ao inverso os letreiros do comércio, forma de letrar-se o trágico episódio. Os pobres da vida triste, sem remédio, passam com seus pacotes a qualquer preço, e abrem nas feias faces um falso ar feliz. Borboleta no fio de lâmina que reluz, a vida trisca por um triz. Anda pelas ruas um demônio reluzente, a morte de azulínea luz. Ó Leide, acorde! Acorde-se das neves frias da morte. Fundo silêncio de tumba o que responde: É tarde. E retumba: É tarde. Não há quem acorde as bonecas quando mortas.

PEIXES NO POMAR

Com as mamas famintas, despejadas pelos trapos que drapejam ao vento, a vida sobre a favela do tempo, e leva o futuro no vente. Ò grávida de fome, foste estuprada pelos brutos ou foi por gozo o peixe que te morde e come a pêra dilatada do útero? E será Benvindo ou Malvindo, o nome do rebento que te arrebenta o dentro? Flora ou Floriano, o futuro da história que te deflora? Que fruto aflora no pomar do teu sofrimento?

TEIA DE ARANHA DO TEMPO

O tempo teceu fios de prata nas faces da tarde. O sol mortiço agoniza nos cromos e nas caixas de remédio da farmácia. Os velhos no bar bebem a menta da melancolia; os corações se fecham feito aeroportos sem pássaros. Há os malefícios do tédio e do óxido, comendo com garfo o coração miserável da cidade e suas inutilidades. Triste, a noite se veste. A noite é outro sofrimento. Néons de sangue tremeluzem nos terraços de funestos impulsos. Amiúde um corpo se solta, espalha miolos feito flores no asfalto. As flores da noite em toda parte, nos bares oferecidas aos tristes amantes, ou presas nos vestidos de outras mortes. Um gato se esgoela no fundo escuro da viela, como se lhe fosse a garganta rasgada à faca. Vende-se, urgente, um relógio de bolso, ou troca-se pela ilha de Creta.

A TIRANIA DA CULPA E O TIRO DA IRONIA

Filhos, melhor não tê-los, mas se não tê-los, como sabê-lo?

Vinicius de Moraes

O labirinto urbano e suas artérias viciadas, todos os vícios, todos os venenos. Meninos-zumbis, nos becos obscuros, injetam overdoses nas necroses dos corpos. A noite é dos mortos. Tiros no escuro. A tirania da culpa e o tiro da ironia. Independência ou morte! Eles têm a força, pelos poderes de Grayskull!, e a bússola, que lhes oriente o Norte... Com que roupas, todas as desculpas? O pico é um barato, você é que é careta. E viva o morto! Dizia-se dono de si, bem saber o que fazia. Negra (t)ironia! Renato Russo mandando ver no CD: Você culpa seus pais por tudo. São crianças como você.

Filhos. Um crime fazê-los, um sofrimento amá-los, intolerável não tê-los, como não ter o sol. Pelos poderes de Grayskull!

JINGLE BELLS

O inferno de Deus

Jingle bells! Jingle bells! Tilintam as estrelas no céu, e não se trata de sininhos nas renas de Papai Noel. No céu se recortam feito rosetas de esporas de prata, e como se andasse a cavalo o bom Deus de quem se fala — ou lhe serão rosetas os olhos com a fria forma das estrelas?

No inferno cá embaixo, as fila aflitas, umas salas de ásperas esperas, umas falas de arestas, a cuspe ríspido. Na parede cinzenta, um patético deus de lata, a funilaria de uma farsa, em formato de crucifixo. A noite gelada. Hipócrates abjurado na portaria dos hospitais da madrugada, quando nas ruas os desvalidos de tudo abraçam cachorro e pedem socorro.

O Natal e os metais da cidade sem alma, aços recurvos, bicos de harpias. Quando, Aurora, tuas harpas, teus olhos de ouro, teu cheiro de lápis de cor, teus lábios de amora madura? Aurora, Aurora, por que demoras?

Batem os sinos e os pequeninos choram na cidade enferma, choram os filhos do abandono, choram os meninos da fome, choram. Batem os sinos de Belém, e agora vou bater nos rins de alguém, doa o que doer. Enquanto Aurora não vem, aborta-se o deus-menino em Belém, os tarados estupram os bebês e os anjos dizem amém. Assim caminha a humanidade, pensa que a vida é um filme, e a vida é um crime. Mas é Natal. A noite dos excluídos, como se viver lhes fosse dado por castigo, o inferno que lhes coube da terra prometida, o inferno caído do céu, a mando de Deus; dada a boa vida aos donos do mundo, calçados com as esporas de Deus. Deus inimigo.

SHOPPING CENTER ON NIGTH

Quantos homens comporta uma compota de pêssegos? Quantos mil, numa lata de doce 4em1? Quanto custa reduzi-los a massa de carne e osso, a troco do lucro? Cálculos diabólicos, alucinada roda da fortuna. Triturar-se o homem, doce de carne humana. Hipócritas, desse doce comemos a que preço?

AS LUZES

Solidão da metrópole

Antenas de televisão no alto dos arranha-céus, teias de aranha no céu. Solidão. As luzes acesas lá dentro. Todas as luzes dos apartamentos. Oh, quanta solidão se acende com a eletricidade da infeliz cidade? Ligue 0900. Solicite uma suíte e aproveite a noite com Suzete, mais quente que um site de Laura Croft na Internet. Melody Motel, pertinho do céu. Ambiente seleto. Aceitam-se cartões de crédito.

A noite se veste, a noite fechada em seda negra, seda japonesa. A obra em negro. A dama da noite se despe, a carne viva da noite se abre, se exibe, se oferece. Boca de loba, a carne tem seu preço. Afoitos, aflitos, os faróis no asfalto. Homens e autos, feito ratos no labirinto, aceleram a adrenalina e adentram os túneis da noite, a vulvagina de seus destinos, por quem os homens se alucinam.

OS OLHOS AZUIS DA NOITE

Vanusa mariposa das luzes mundanas, coisa de usos e abusos, à espera do esperma e do dinheiro dos homens. Inimigo do amor, o animal caçador a investir-se contra a flor sexual da vida, sem ver da vida a flor mais funda. Quantos, nos lençóis dos lares e motéis, aqueles que se livram de si mesmos, e um do outro se livram, após o coito, e a nojo do peso-morto?

Vanessa às expensas dos orifícios do corpo. O odor mênstruo, oriundo da espessa vagina do mundo. A cabeça arrancada de uma boneca, tão tragicamente linda, e ali tão expressiva, tão viva, tal fosse a cabeça da vida. Lábios vermelho-vivos, róseas faces de borracha, imundas de gosma de ovo e borra de café, como se maquiadas para um poema deprê. Os olhos azuis perplexos, espiando, de dentro da lata de lixo, a imensa tristeza de tudo. 

Parte III

OLHO DE CÂMERA

O vírus do Ipiranga às margens plácidas

Poema de choque, contundência, hematomas, socos na boca do estômago.

A hora clara e o sol, ovo estrelado na frigideira do dia. O recomeço do mundo na serenidade das coisas simples e essenciais. A paz, duradoura até que os homens se levantem com suas explosões e espalhem flocos humanos em todas as direções, gerando focos de atrito e o conflito de se viver o cão com os ossos do outro. As coisas renascidas para os homens, e os homens, entre as coisas, apenas passam, autômatos em trânsito. Alguns não passam de sombras, outros passam em transe, enquanto não lhes arrebentam os glóbulos em coágulos de desatinos. Cogumelos malignos, disseminando venenos, corrompendo o coração dos meninos.

A metrópole cospe fuligem e vomita o homem que come alumínio e respira o veneno que escapa dos canos. O homem que entra e sai pelo cano. Monóxido, dióxido, hidróxido de carbono. Entra ano e sai ano. O aço. O homem oxidado, o homem ácido, o homem tóxico. Nossos bosques tem mais bosta e o vírus do Ipiranga. Nosso hino é o mais ufano, mas a dengue é quem manda. O lodo do Eldorado. A vertigem e o vômito. A miséria absoluta se ramifica à margem dos outdoors, que anunciam vida melhor. Desloca-se a multidão de autômatos, um mar de cabeças anônimas e monótonas. Outros são passos que se apressam. Chumbo miúdo aos pombos da praça. Bala perdida o pássaro da violência. 

A flor humana

se anima do húmus

e da fedentina

que emana do rio.

 

A céu aberto,

a flor brota do excremento

no lote baldio,

e abre suas pétalas.

 

O lírio impuro

do futuro.

Cai a tarde. Cai a noite. Hora da novela. Novela? Não vê-la. Mas se não vê-la, como revê-la e saber se vale a pena ver de novo? O povo. O jornal, as últimas do PIB e os lábios sensuais de Lilith Fibe. Sem nada querer insinuar e ofender, fibe é anagrama de bife, coisa imaginária na mesa da miséria brasileira, delírio na cabeça do otário. Mas a noite é bela com as suas estrelas. A hora erma e rubros coágulos a néon, boiando nas poças tristes das ruas molhadas de chuva. O ar nauseabundo, de rabugem canina, caca de cão e urina. Bolhas de escarro e o corpo bêbado de borco em golfadas de vômito sobre a calçada, como se derrubado a socos no estômago. A ressaca virá com os hematomas de um coice de burro, tanto quanto o devir de outros tombos. O ser e o nada, Heráclito caído à beira do meio-fio, o perdedor que sempre se banha nas águas sórdidas e estagnadas de um mesmo rio.

O olho atento clica sua máquina e capta o momento do assalto. Congela-se o instante, sente-se na pele o calafrio a fio de faca. O corte ou furo quente da morte, na hora em que a pistola dispara: bang! bang! e a rua coagula-se de sangue. O estupro, o massacre e outros assaltos. Tudo por conta de um par de tênis, um gozo de pênis, a vida a troco de um toca-fitas, um celular, uma nota pra descolar uma lata de cola, uma pedra de crac, uma carreira de coca, um baseado esperto, fuminho do Capeta. Voyeur da noite, o fotógrafo clica sua máquina e flagra níveas nádegas da boca no boquete, ali nas nuanças de sombra da praça. Momento em que o psicopata golpeia com a faca e a carne branca se espalha com a minissaia. Tarja negra cobrirá as frias nádegas e a sangria na fotografia de primeira página? Escândalo. O fotógrafo é um vândalo da dignidade alheia. Mórbido voyeur da intimidade morta, ao preço da imprensa necrófila e sensacionalista, que mistura as tripas do estupro com os espíritos de linha kardecista. A garota de programa era universitária, filha de boa família. Gostava de cinema, teatro e novela. Adorou Os Monólogos da Vagina, levados ao palco por Miguel Falabella. Tinha tudo na vida, a bela universitária. O que mais ela queria, aí pelas esquinas? Cocaína.

A sociedade em ruínas se reúne. O Estado, a Igreja, a Família são farinha do mesmo saco. O mais é o crime. A vida é um crime. O salário mínimo é um crime. A hipnose coletiva da religião, pra tomar sacos de dinheiro dos otários no Maracanã, é crime de extorsão, sob as barbas omissas da polícia e da justiça, cega por conveniência ou conivência. E não há pequeno crime que não rime com alguma forma de fome. Ovo de pato no prato do trem da alegria. Os corruptos comem o ovo e o povo paga o pato. Sorria. Gol do Corinthians. Urubu é preto todas as manhãs, como costuma ser até o anoitecer, e o de baixo caga no de cima. Cocô de urubu é bom pra desvio de coluna. No mínimo, ajuda na rima. Os meninos grã-finos queimando vivo o índio Galdino, que só estava dormindo no ponto de ônibus. Socorram-me! Subi no ônibus em Marrocos. Palíndromo é o que se lê ao contrário e tem o mesmo sentido. Nessas idas e vindas, o beco não tem saída, o barco se afunda e a vida que se foda.

Cão! Cão! Cão! Ladra o cão da globalização, de olho no ouro verde-amarelo do Brasil. Ondula-se o mar azul sob o céu de anil Ah, como é bela a bandeira brasileira! Bordada de estrelas que simbolizam a fome, a miséria das favelas, as balas perdidas da exclusão. O que resta na estação da esperança? O que é que se espera e não alcança na Central do Brasil? O que mais espera o povo banguela, esta bela raça brasileira? Olha a bosta! — o vendedor de cocô, o cúmulo do mau gosto e do deboche. Vai querer ou quer que embrulha? O povo-gandula que sempre pega a bola e na malha do gol se estrangula. Rebola, mulata, rebola. Arrebita a bunda bonita pros turistas. O rabo por um dólar.

Ma o que é isso, meritíssimo? Concessão de liminar e habeas corpus para os atos ilícitos? E não se corrigem os costumes? E não se acaba nunca com o circo dos horrores? Que moral é essa, afinal? Que maus costumes são esses? E essas máscaras dos códigos penal e civil? Fala, Brasil! Mostra a sua cara ordinária, cheia de encantos mil. Puta que pariu!

FIM

Nota —

Com alguns acréscimos para melhor, os textos acima publicados foram extraídos de Pilóbolos (espécie de fungo que busca a luz e muda de forma).
 

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