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POR EM 19/08/2008 ÀS 06:30 PM

Lamarck e os grandes enigmas da vida

publicado em

Aprendemos na escola que Darwin não foi o único à imaginar um processo de evolução para as espécies. Quase que inevitavelmente no ensino deste tema, os livros didáticos e professores contrapõem a teoria darwiniana com a lamarckista. Em muitos casos, inclusive, Lamarck, e sua hipótese de evolução, são ridicularizados. Com a exposição Darwin, estreando em Goiânia esta semana (19/08/08) , vale à pena sabermos um pouco mais sobre este suposto “inimigo” de Darwin.
 
Jean Baptiste Lamarck nasceu em 1o de agosto de 1744. Tinha 10 irmãos e pertencia à uma família da nobreza inferior e decadente francesa, isto é, nariz empinado mas quase sem ter o que comer (o mundo não mudou muito de lá para cá...).
 
Lamarck serviu ao exército durante 6 anos e, com o espírito científico já aflorando no soldado, aproveitou as inúmeras viagens dentro da própria França para estudar as variedades de plantas que encontrava pelo caminho.
 
Quando saiu do exército, por problemas de saúde, foi estudar medicina, mas era mesmo interessado em Química e Meteorologia. Ainda assim, a maior contribuição de Lamarck para a ciência foi sua Flora francesa de 1779. Nesta obra, ele estabelece chaves dicotômicas de identificação das plantas francesas, um método mais fácil daquele empregado por Linnaeus, que se baseava mais na diferenças sexuais das plantas, o que para a maior parte dos naturalistas dificultava o trabalho, pois o restringia à época da floração, etc.... O livro fez sucesso, mas como todo cientista que escreve livros sabe, não dava nenhum dinheiro e ele vivia financeiramente na corda bamba.
 
Em outras publicações sobre botânica, ele tentou classificar as plantas numa escala linear (escada aristotélica) da mais simples para a mais complexa estruturalmente, pensando então nos organismos como um todo e não apenas como um amontoado de curiosidades ou criações divinas sem um processo unificador por base.
 
Durante o terror da Revolução Francesa muitas mudanças ocorreram nas instituições científicas que eram encaradas pelo novo governo como “elitistas”.
 
Apesar das muitas modificações, não consta, ainda bem, a implantação do sistema de cotas....Assim, Lamarck foi transferido do departamento de botânica do recém criado Museu de História Natural (antes se chamava Jardim do Rei) para a seção de insetos e vermes, que ele viria a rebatizar de invertebrados, cunhando um importante conceito em Biologia . Ele adorou a nova área de pesquisa.
 
Publicou inúmeros trabalhos, sempre classificando os invertebrados também do simples para o mais complexo, incluindo os fósseis, cuja diferenças com os organismos vivos eram devido ao fato que as espécies tinham passado “por mudanças”, algumas lentas em longas escalas de tempo. Era 1800 e a evolução começava a fazer sentido na sua cabeça. Em 1802 publica Pesquisa da organização dos corpos vivos, cujo desenvolvimento culmina em sua obra mais conhecida, Filosofia Zoológica, de 1809.
 
Nesta Lamarck explicita suas idéias: tendência inata dos organismos para maior complexidade e a influência do ambiente como fator responsável pelas variações em torno de uma norma básica.

Também diz que os animais superiores eram capazes de gestos voluntários que poderiam se tornar um hábito e, se constantemente repetido, o resultado seria um novo e mais desenvolvido órgão (lei do uso e desuso, isto é, quando usado o órgão muito usado ficaria melhor e seria transmitido à gerações posteriores. Se não o usasse, a espécie o perderia). Isto seria conseguido através do que Lamarck chamou de “sentimento interno”, um sentimento físico, involuntário resultante da agitação do fluido nervoso.
 
Nesta obra, ele ainda tem o crédito de introduzir uma árvore genealógica ramificada da teoria evolutiva que não perde nada para os arranjos ramificados que hoje são usados para explicar a evolução, mas infelizmente não consegue ir além disto, pois a visão da escada aristotélica ainda era forte dentro dele.
 
Todas estas idéias (excluindo a da árvore) ficariam mais claras com a publicação dos sete volumes de História Natural dos Animais Invertebrados (1815-1822).
 
Apesar da publicação de todas estas obras, Lamarck morreu pobre. Suas filhas (de quatro casamentos, pois ele ficara viúvo três vezes) ainda tentaram receber um dinheiro da Academia Francesa para o funeral, mas ele foi enterrado mesmo numa vala comum em 1829. 
 
Por uma ironia do destino, as idéias evolutivas de Lamarck só ganharam fama, quando os detratores de Darwin tiveram que se apegar a algo mais palpável para criticar o inglês. Mas os próprios darwinistas foram unânimes em reconhecer as principais contribuições do francês para a evolução: gradualismo (mudanças lentas) e a influência do ambiente nas mudanças das espécies.
 
Apesar da teoria lamarckista não ter “sobrevivido na luta” contra sua oponente mais forte e muito mais consistente, Lamarck não merece a lata do lixo da história científica, em especial por sua personalidade: com 55 anos alterou sua concepção de fixidez para a da modificação das espécies, já que os fatos falavam mais alto.
 
Reflita leitor: ainda hoje quais pesquisadores com 55 anos mudariam completamente sua concepção de mundo, mesmo baseado em fatos? Poucos, muito poucos...é só reparar nos departamentos de humanidades das universidades brasileiras, com seus socialistas, estatistas, etc... 

 
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