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POR EM 03/07/2010 ÀS 03:03 PM

José Saramago é o Dunga da literatura

publicado em

José Saramago A melhor crítica literária da obra do escritor português José Saramago, recentemente falecido, foi escrita por alguém do Vaticano. Os padres disseram que sua literatura é populista. Acertaram na mosca.

Saramago é o Pablo Neruda da prosa, um escritor cuja fama foi pacientemente construída com o apoio das patotas comunistas que ainda infestam os cadernos culturais dos jornais, dos grandes, dos médios e dos pequenos. Os comunas cumpriram a tarefa, fizeram críticas majestosas deste escritor do terceiro time, o Dunga da literatura, e contribuíram, diretamente, para que ganhasse o Prêmio Nobel da Literatura. Agora, sendo bom ou ruim, está consagrado. O Nobel, para a maioria dos leitores, é consagrador. Jorge Amado, um bom escritor do quarto time, quase ganhou o Nobel de Literatura, graças ao apoio da máquina de propaganda dos comunistas.

Li, no “Estadão”, que Harold Bloom disse que Saramago é um grande escritor, uma espécie de Shakespeare de Portugal ou da língua portuguesa. Há muito, diante de algumas abobrinhas ditas por Bloom, comecei a avaliar que o crítico literário norte-americano havia enlouquecido. Agora, tenho certeza que o sujeito pirou o cabeção. Bloom é um grande crítico porque examina os livros de perto, sem firulas linguísticas e invencionices acadêmicas, e, o que é ótimo, sem perder tempo discutindo teorias literárias. Seus livros contêm citações dos próprios livros analisados e muito raramente referências bibliográficas. No Brasil, nas faculdades de letras, ensina-se teoria literária mas incentiva-se muito pouco a leitura de obras literárias. Muitos alunos sabem quase tudo a respeito do que disseram alguns críticos, mas pouco sabem do que disseram os grandes escritores. Fazem uma leitura de segunda mão, empobrecedora. Limitadora. Perguntei para um estudante de letras: “O que acha da prosa de Graciliano Ramos?” Ele respondeu, sem ficar corado: “Bem, o que terá dito Antonio Candido?” O sociólogo é um crítico literário fascinante, dos melhores, mas temos a obrigação, antes de conhecer sua análise, de ler as obras por ele examinadas. Por mais que Candido seja um crítico brilhante, a obra de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa é muito mais importante.

Em Goiás, ninguém disse, mas, como se sabe, Saramago foi descoberto no Brasil por José J. Veiga, que, por acaso, era goiano. Veiga, escritor dos melhores, adepto de um realismo mágico mais para o irônico, escreveu as orelhas do romance “Levantado do Chão”. Mais tarde, como quase sempre, Millôr Fernandes disse e re-disse que descobriu Saramago. Millôr só não descobriu o Brasil porque, na época, era muito velho e não pôde acompanhar os navios de Pedro Álvares Cabral.

Só pode dizer que Saramago é um grande escritor aqueles que não leram a prosa de António Lobo Antunes, José Cardoso Pires, Miguel Torga, Agustina Bessa-Luís (também autora de uma bela biografia de Florbela Espanca), Lídia Jorge e, entre outros, Vergílio Ferreira. Nem citei Eça de Queiroz, o clássico português por excelência, ao lado dos poetas Camões e Fernando Pessoa.

Portanto, leitor nem sempre amigo, não derramei nem derramo uma lágrima pelo escritor e pelo homem (que amava ditadores comunistas) Saramago. Crueldade? Sim. Mas o que seria do mundo se contasse apenas com a voz dos bonzinhos? Imagine o mundo sem sal...

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Comentários (22)

  • Não quero parecer um fã efusivo, que está a escrever esse comentário somente para defender José Saramago com a loucura cega tão habitual dos fãs medíocres. Seu texto, Euler, parece ter sido escrito as pressas, já no 45 do segundo tempo, com a edição quase fechando ou apressado por alguém para sair da frente do computador. O argumento aqui é o falacioso ad hominem, critica a obra por causa da pessoa do escritor. Claro que existe o importante detalhe do gosto pessoal, mas acho que isso nem conta aqui porque nem foram apresentados os supostos pontos literariamente equivocados do obra samaraguiana. Pra se ver a pressa com que o texto foi escrito é o trecho onde se diz que Antônio Cândido é um crítico brilhante. Mas deixemos de rinhas bobas. Não discordo que Lobo Antunes, Miguel Torga e Vergílio Ferreira, ou mesmo Eça (que dos que você citou foram os que li) sejam escritores de alta literatura, de literatura genial, mas esse tipo de comparações são pobres. Seria o mesmo que eu compara Harold Bloom com Wyndham Lewis e dizer que um crítico é melhor do que outro sem apresentar as devidas razões para isso. Se esse tipo de comparação fosse válido Bertolt Brecht não deve ser levado a sério como dramaturgo porque Shakespeare é melhor do que ele. De qualquer forma, tenho que concordar que Jorge Amado é um escritor mediano, e estou usando de eufemismo o classificando como "mediano", e que uma parcela da fama de Saramago foi construída por intelectuais de esquerda (que não deve ser o seu posicionamento político, haja vista os termos que utiliza para descrevê-los). Ao contrário de você, Euler, senti muito a morte de Saramago, porque além de um grande homem (mesmo sendo comunista), foi um expoente de grande relevância que a literatura portuguesa perdeu. Mas como bem você disse, o mundo não é feito só de vozes bondosas, doces e angelicais.

    5 meses atrás por Ricardo Silva
  • esse manja mesmo, chamar saramago escritor de terceiro time!!
    lamentável...

    10 meses atrás por sergio
  • Em outras palavras, caro, é só um pavoneio rebuscado e vazio que sua pessoa exibe diante de tanta carne de vaca que a mídia lhe vomitou. Não se cansa de ser um anti-anti?

    2 anos atrás por Dalmer
  • Bom é Paulo Coelho, né Euler!!!!
    Você não deve ter lido Saramago e se leu, não entendeu, o que, sem dúvida, te faz menor, literariamente falando.
    Não é pela ideologia que se "classifica" um autor.

    2 anos atrás por Paulo Stockler
  • Gosto do Saramago desde que o li pela primeira vez, muito antes de saber o que era o comunismo ou populismo.

    Virei fã mesmo com A Jangada de Pedra. Quem tem família ibérica percebe a genialidade com que Saramago tratou a antiga rivalidade entre portugueses e espanhóis, traduzindo-a como reflexo das semelhanças históricas entre os dois países. Leitura divertida, texto muito bem elaborado.

    Se não gosta, não lê, respeite sua obra e aqueles que a admiram, independente das convicções políticas do autor e de quem o lê.

    2 anos atrás por @thiago37
  • Por acaso, é algo negativo alguém ser comunista ?

    2 anos atrás por Phil

  • Caro Euler, além do fato de Saramago ser comunista, por quais outros motivos ele é ruim? Sempre leio seus textos, quase sempre primam por argumentos bem elaborados, mas nesse caso, parece que “seus argumentos” foi apenas sua opinião, estou errado? Parece que a ojeriza que nutre pelo escritor português não permitiu fazer uma análise isenta! Estou errado?


    2 anos atrás por José Carlos
  • Enfim, uma observação lúcida sobre a morte de José Saramago.
    http://blog.brunamaria.com/

    2 anos atrás por Bruna Maria
  • Não lerei mais os seus textos. Adeus.

    2 anos atrás por Luiza
  • No Brasil as pessoas viram santos depois que morrem. Saramago não passou de um escritor mediano. Foi incensado pela esquerda que habita universidades e suplementos literários. E só. O resto é silencio.

    2 anos atrás por Rubens Santos
  • Miguel Torga é superior a José Saramago
    por Irapuan Costa Junior

    O grande barulho feito por ocasião da morte de José Saramago contrasta com o quase silêncio da imprensa e da crítica quando da morte de Miguel Torga, em 1995. Os grandes autores portugueses da era moderna foram os que escreveram romances e novelas históricas, como Julio Dantas, Alexandre Herculano, Henrique Lopes de Mendonça, Eça de Queiroz. E dos contemporâneos, tenho Miguel Torga como muito superior a José Saramago, na capacidade descritiva dos sentimentos, que faziam seus personagens “de papel e tinta”, como ele dizia, palpáveis como se fossem de carne e sangue. E também no estilo claro e sem os rebuscados modernosos de Saramago. Não estou sozinho nesse juízo.

    O próprio governo português achou por bem fazer-se representar no concurso literário europeu de 1992 por um livro de Torga, o que enfureceu Saramago (por isso mudou-se para a Espanha). A vasta rede informativa de esquerda sempre exaltou Saramago além da conta, por seu engajamento. Torga, embora de esquerda, era somente escritor. Por isso não mereceu os destaques do outro. Se critico Saramago por ser comunista? Claro, mas são coisas diferentes. Ele não tinha caráter, pois sempre apoiou ditaduras de esquerda, como a cubana. Como não tem Gabriel García Márquez, pelas mesmas razões, mas que, contudo, escreve bem. Além disso, Saramago levou para sua literatura todo ateísmo, todo materialismo de sua doutrina, o que, convenhamos, só interessa, no fundo, a quem é marxista. Por falar em marxista, Dilma Rousseff compareceu ao velório de Saramago. Aposto que nunca leu um livro do “companheiro" morto.

    2 anos atrás por Reply - Revista Bula
  • Depois de artigu e geito... Lígia Jorge? Não conheces mesmo, ein? Lídia Jorge, me parece, não? Me parece que Saramago não era populista, mas, você, autor desse texto, sim. Falar mal dos grandes sempre é pretexto para aparecer melhor, já que todos dizem num só coro, o melhor!, o melhor!, há de existir alguém fale fora do tom. Acho que para falar de qualquer escritor há que se despir de certos valores. Ninguém se faz bom escritor senão por mérito, rapaz. E Saramago teve. Quanto a opinião do Vaticano elogiada por você: um desperdício e mais um ponto à corda a hipocrisia!



    2 anos atrás por Pedro Fernandes
  • Ótimo texto. Saramago foi consagrado pela esquerda. No Brasil pelos guetos acadêmicos. Parabéns.



    2 anos atrás por Fabrício Andrade
  • Caríssimo Euler, parabéns pelo texto. Saramago, Graciliano, Pessoa, Veiga e todos os citados por você, além de algumas dezenas ou centenas de outros lusófonos dos quatro cantos do mundo merecem ser lidos e apreciados e pouco importa, ao leitor, o que os críticos de críticos dirão, já que não se fazem mais críticos de obras, mas leitores de outras críticas.

    Primeiro, segundo, oitavo time? Concordo com Luiz Gustavo Vilela e pergunto junto com ele: qual o critério? Quem classifica? Os críticos? Ou os leitores de críticos? Em que time os críticos de época colocaram Camões, Cervantes e Shakespeare? José J. Veiga, que trouxe (de fato) Saramago ao conhecimento dos editores e (depois) leitores brasileiros, é menor que Saramago? É maior que Lobo Antunes? Não seria, tudo isso, uma questão de gosto pessoal? Ou a arte das letras, agora, exige um parâmetro técnico?

    Escritores não podem ser apreciados tal como se avalia um eletroeletrônico na loja, ou um automóvel quanto ao desempenho e segurança. Os "equipamentos" e "opcionais" são outros.

    Enfim, e ao contrário da grande corrente que diz por aí "foi uma perda lamentável" sobre a morte de José Saramago, festejo o fim corporal desse autor, belíssimo: a vida só nos dá a certeza do nascimento e da morte, o que nos difere é o que fazemos no meio. Ele soube fazer e a Humanidade ganhou as décadas de produção desse homem. Jamais direi que ele é O melhor ou O maior, ele foi José Saramago, a pessoa. E perpetua-se José Saramago, o escritor.

    2 anos atrás por Luiz
  • Angela normalmente não publicamos comentários que têm como único objetivo ofender. Mas como você demonstra ter grande preparo intelectual decidi publicá-lo. Achei curioso a forma como escreve “artigu” e “geito”. Como no teclado do computador a letra G fica próxima do J e a letra U próxima do O, suponho que tenha sido um erro de digitação. Nos dois casos, claro. (Carlos Willian).
    --------------------------------------------------------------
    Quem escreveu este artigu mostra o quanto é analfabeto cultural de pai e mãe. Estes tais que se fazem colunistas de qualquer geito. Paulo coelho, Saramago, Amado, e todos os escritores são o que o povo os faz ser, não é um mero intelectualóide que vai ditar a categoria de um escritor. Lave a boca ao falar de qualquer um dos citados. E lave mais ainda ao falar do grandioso Dunga!




    2 anos atrás por Angela
  • Para além de populista, Saramago era um polemista.

    Apenas um reparo e posso estar errado, porventura quereria referir-se à escritora Lídia Jorge e não Lígia Jorge.

    http://txticulos.wordpress.com

    2 anos atrás por Textículos
  • Pois é meu caro. Sou estudante universitário e um dia perguntei (por deboche) para um conhecido de Letras sobre Paulo Coelho. Ele me disse: É o maior analfabeto dos intelectuais. Perguntei o motivo e ele me disse: Não sei, nunca li. Tudo bem que Paulo Coelho não se encaixa na discussão aqui mas a impressão que tenho é que se algum professor irresponsável disser que Paulo Coelho é melhor que Fernando Pessoa esse povo vai sair por aí enchendo o peito para defender essa ideia.

    2 anos atrás por Vagner
  • Não tenho que discordar do que você escreveu, tanto à sua, dele, literatura quanto à sua postura comunista. Nunca gostei disso. Tenho um amigo que gostava de Saramago, mas que agora, como você, não o considera "grande", apenas "populista". Ele diz: "Saramago encontrou a fórmula de se fazer e vender livros ao povo".
    Abraço,
    Rodrigo
    rodrigoepoesia.blogspot.com

    2 anos atrás por Rodrigo Della Santina
  • Acho desrespeitoso comparar Lobo Antunes com Saramago. A comparação é esdrúxula. É como comparar arte com artesanato. Lobo Antunes encontramos em museus, Saramago em barraquinhas de feiras.

    2 anos atrás por Marcos Paiva
  • Finalmente alguém no Brasil disse a verdade. Alguém que escreveu algo como “A Caverna” não merece piedade ou respeito!

    2 anos atrás por Jonas
  • Primeiro, terceiro, quarto times... Que decide isso? Qual o critério?

    [Pergunto, juro, por curiosidade, não com a petulância da discordância]

    2 anos atrás por Luiz Gustavo Vilela
  • Asssino em baixo. Lobo Antunes é muito mais escritor que Saramago.

    2 anos atrás por Luis Carlos


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