José Saramago é o Dunga da literatura
A melhor crítica literária da obra do escritor português José Saramago, recentemente falecido, foi escrita por alguém do Vaticano. Os padres disseram que sua literatura é populista. Acertaram na mosca.
Saramago é o Pablo Neruda da prosa, um escritor cuja fama foi pacientemente construída com o apoio das patotas comunistas que ainda infestam os cadernos culturais dos jornais, dos grandes, dos médios e dos pequenos. Os comunas cumpriram a tarefa, fizeram críticas majestosas deste escritor do terceiro time, o Dunga da literatura, e contribuíram, diretamente, para que ganhasse o Prêmio Nobel da Literatura. Agora, sendo bom ou ruim, está consagrado. O Nobel, para a maioria dos leitores, é consagrador. Jorge Amado, um bom escritor do quarto time, quase ganhou o Nobel de Literatura, graças ao apoio da máquina de propaganda dos comunistas.
Li, no “Estadão”, que Harold Bloom disse que Saramago é um grande escritor, uma espécie de Shakespeare de Portugal ou da língua portuguesa. Há muito, diante de algumas abobrinhas ditas por Bloom, comecei a avaliar que o crítico literário norte-americano havia enlouquecido. Agora, tenho certeza que o sujeito pirou o cabeção. Bloom é um grande crítico porque examina os livros de perto, sem firulas linguísticas e invencionices acadêmicas, e, o que é ótimo, sem perder tempo discutindo teorias literárias. Seus livros contêm citações dos próprios livros analisados e muito raramente referências bibliográficas. No Brasil, nas faculdades de letras, ensina-se teoria literária mas incentiva-se muito pouco a leitura de obras literárias. Muitos alunos sabem quase tudo a respeito do que disseram alguns críticos, mas pouco sabem do que disseram os grandes escritores. Fazem uma leitura de segunda mão, empobrecedora. Limitadora. Perguntei para um estudante de letras: “O que acha da prosa de Graciliano Ramos?” Ele respondeu, sem ficar corado: “Bem, o que terá dito Antonio Candido?” O sociólogo é um crítico literário fascinante, dos melhores, mas temos a obrigação, antes de conhecer sua análise, de ler as obras por ele examinadas. Por mais que Candido seja um crítico brilhante, a obra de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa é muito mais importante.
Em Goiás, ninguém disse, mas, como se sabe, Saramago foi descoberto no Brasil por José J. Veiga, que, por acaso, era goiano. Veiga, escritor dos melhores, adepto de um realismo mágico mais para o irônico, escreveu as orelhas do romance “Levantado do Chão”. Mais tarde, como quase sempre, Millôr Fernandes disse e re-disse que descobriu Saramago. Millôr só não descobriu o Brasil porque, na época, era muito velho e não pôde acompanhar os navios de Pedro Álvares Cabral.
Só pode dizer que Saramago é um grande escritor aqueles que não leram a prosa de António Lobo Antunes, José Cardoso Pires, Miguel Torga, Agustina Bessa-Luís (também autora de uma bela biografia de Florbela Espanca), Lídia Jorge e, entre outros, Vergílio Ferreira. Nem citei Eça de Queiroz, o clássico português por excelência, ao lado dos poetas Camões e Fernando Pessoa.
Portanto, leitor nem sempre amigo, não derramei nem derramo uma lágrima pelo escritor e pelo homem (que amava ditadores comunistas) Saramago. Crueldade? Sim. Mas o que seria do mundo se contasse apenas com a voz dos bonzinhos? Imagine o mundo sem sal...





