Jonas Brothers x Lenine
Felipe estuda num tradicional colégio de freiras acostumado a matricular e educar (sempre que consegue, apesar dos pais) os filhos de famílias das classes média, média alta e alta (será que o IBGE ainda utiliza esta nomenclatura ou prefere letras do alfabeto?). Enfim, não se pode negar, trata-se de uma escola que recebe, em maioria, crianças abastadas da sociedade.
O rapagão tem quatorze anos. Está concluindo o Ensino Fundamental que, na minha época (vejam só como estou velho...) chamavam Ginásio, num tempo em que “ficar” era sinônimo de “permanecer”, e “dar uns amassos” significava, na pior da hipóteses, algum tipo de procedimento culinário como fazer pão de queijo ou rosca.
Felipe ficou sabendo que o cantor Lenine estava na cidade e faria um show logo mais à noite. Lampeiro e confiante, ele convidou amigos da escola para assistirem ao espetáculo, cujos ingressos estavam com preços promocionais, uma verdadeira pechincha (será que a moçada de hoje sabe o que significa “pechincha”?! Do jeito que estão precoces é bem capaz de acharem que “pechincha” seja vagina, punheta, sexo oral ou outro tipo de sacanagem...).
Bem, Felipe tomou uma baita vaia. Foi alvo de chacotas dos outros adolescentes e ganhou algumas “pedaladas” (tapas na parte de trás da cabeça... não é legal?!..). “Quem é este tal de Lenine?!”, quis saber a menina de aparelhos nos dentes e I-Phone plugado nos ouvidos. Mesmo desapontado com a reação da galera, Felipe insistiu que fôssemos ele, eu e sua mãe ao show do menestrel pernambucano. Considerando que adolescentes têm vergonha e odeiam passear com os pais, não perdi a oportunidade para sairmos juntos. Fomos. Animadíssimos.
Quando chegamos ao anfiteatro situado no campus universitário, uma enorme fila já se formara, praticamente dando a volta completa no prédio. O público, em sua maioria, era constituído por jovens universitários, criando uma aura que, naquela noite, me conduziu inúmeras vezes ao passado.
Ordeira e pacificamente, as pessoas adentraram o monumental teatro que ficou completamente abarrotado. Além de ser segunda-feira, um dia incomum para a realização de eventos na cidade, chovia e uma apresentação do Ivan Lins disputava a audiência. Quem foi que disse que as segundas-feiras não prestam?! Nada como quebrar paradigmas...
Quando vi e ouvi Lenine pela primeira vez, numa apresentação feita ao estilo “violão e voz”, eu já ficara deveras entusiasmado. Desta feita, Lenine vinha com a banda, ou seja, perspectiva de um belo espetáculo. E não deu outra.
Movido pela simplicidade (desde o figurino básico à básica educação com a platéia), competência técnica e carisma, Lenine fez uma apresentação eletrizante como há tempos eu não via. A presença massiva dos universitários deixava o ambiente ainda mais energizado. Foi impossível não entrar no clima.
Embora eu não use relógios (tenho raiva do tempo), suponho que o show tenha durado uns oitenta minutos. O desempenho da banda mais os rebolados e trejeitos de Lenine contagiaram. Igualmente animada, uma senhora sentada ao meu lado confessou que “o Lenine é lindo demais”. Entendi o que ela queria dizer. Nada a ver com atributos físicos. Num debate instantâneo feito aos berros, tentamos classificar o gênero musical do artista, em vão. A obra de Lenine nos pareceu tão particular que os rótulos ficavam descabidos. Então decidimos chamá-la de ótima música ou música de verdade.
O magnetismo do artista provocou uma reação peculiar e um exagerado clima de endeusamento pairava sobre o ambiente. Em coro, a multidão gritava “Lenine! Lenine! Lenine!” como se o cantor nordestino fosse uma espécie de profeta, messias, um Antônio Conselheiro em pleno século XXI.
A comoção da platéia foi tão honesta que o cantor não conseguiu arredar os pés do palco sem cantar a saideira quatro vezes. Fiquei impressionado com a comovente reação do artista que, ao agradecer a ovação do auditório, socava o peito e a cabeça, parecendo mesmo surpreso e grato.
Saímos do teatro absolutamente felizes. Caminhamos abraçados pelo vistoso gramado do campus. Garoa sobre as cabeças. Pensamentos livres. Versos reverberando nas mentes. A emoção do poema “Continuação” recitado no palco, a meia luz, sem a banda, sob um silêncio sepulcral surpreendente:
O contra, o encontro, a contração
A era, o Eros, a erosão
A fera, a fúria, o furacão
O como, o cosmo, a comunhão
O pré, a prece, a procissão
O pós, o póstumo, a possessão
A cor, a corte, a curtição
Amor, a morte, a continuação
Toma esta, Jonas Brothers!!





