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POR EM 23/12/2009 ÀS 03:41 PM

Jonas Brothers x Lenine

publicado em

Lenine por Lucas LimaFelipe estuda num tradicional colégio de freiras acostumado a matricular e educar (sempre que consegue, apesar dos pais) os filhos de famílias das classes média, média alta e alta (será que o IBGE ainda utiliza esta nomenclatura ou prefere letras do alfabeto?). Enfim, não se pode negar, trata-se de uma escola que recebe, em maioria, crianças abastadas da sociedade.

O rapagão tem quatorze anos. Está concluindo o Ensino Fundamental que, na minha época (vejam só como estou velho...) chamavam Ginásio, num tempo em que “ficar” era sinônimo de “permanecer”, e “dar uns amassos” significava, na pior da hipóteses, algum tipo de procedimento culinário como fazer pão de queijo ou rosca.

Felipe ficou sabendo que o cantor Lenine estava na cidade e faria um show logo mais à noite. Lampeiro e confiante, ele convidou amigos da escola para assistirem ao espetáculo, cujos ingressos estavam com preços promocionais, uma verdadeira pechincha (será que a moçada de hoje sabe o que significa “pechincha”?! Do jeito que estão precoces é bem capaz de acharem que “pechincha” seja vagina, punheta, sexo oral ou outro tipo de sacanagem...).

Bem, Felipe tomou uma baita vaia. Foi alvo de chacotas dos outros adolescentes e ganhou algumas “pedaladas” (tapas na parte de trás da cabeça... não é legal?!..). “Quem é este tal de Lenine?!”, quis saber a menina de aparelhos nos dentes e I-Phone plugado nos ouvidos. Mesmo desapontado com a reação da galera, Felipe insistiu que fôssemos ele, eu e sua mãe ao show do menestrel pernambucano. Considerando que adolescentes têm vergonha e odeiam passear com os pais, não perdi a oportunidade para sairmos juntos. Fomos. Animadíssimos.

Quando chegamos ao anfiteatro situado no campus universitário, uma enorme fila já se formara, praticamente dando a volta completa no prédio. O público, em sua maioria, era constituído por jovens universitários, criando uma aura que, naquela noite, me conduziu inúmeras vezes ao passado.

Ordeira e pacificamente, as pessoas adentraram o monumental teatro que ficou completamente abarrotado. Além de ser segunda-feira, um dia incomum para a realização de eventos na cidade, chovia e uma apresentação do Ivan Lins disputava a audiência. Quem foi que disse que as segundas-feiras não prestam?! Nada como quebrar paradigmas...

Quando vi e ouvi Lenine pela primeira vez, numa apresentação feita ao estilo “violão e voz”, eu já ficara deveras entusiasmado. Desta feita, Lenine vinha com a banda, ou seja, perspectiva de um belo espetáculo. E não deu outra.

Movido pela simplicidade (desde o figurino básico à básica educação com a platéia), competência técnica e carisma, Lenine fez uma apresentação eletrizante como há tempos eu não via. A presença massiva dos universitários deixava o ambiente ainda mais energizado. Foi impossível não entrar no clima.

Embora eu não use relógios (tenho raiva do tempo), suponho que o show tenha durado uns oitenta minutos. O desempenho da banda mais os rebolados e trejeitos de Lenine contagiaram. Igualmente animada, uma senhora sentada ao meu lado confessou que “o Lenine é lindo demais”. Entendi o que ela queria dizer. Nada a ver com atributos físicos. Num debate instantâneo feito aos berros, tentamos classificar o gênero musical do artista, em vão. A obra de Lenine nos pareceu tão particular que os rótulos ficavam descabidos. Então decidimos chamá-la de ótima música ou música de verdade.

O magnetismo do artista provocou uma reação peculiar e um exagerado clima de endeusamento pairava sobre o ambiente. Em coro, a multidão gritava “Lenine! Lenine! Lenine!” como se o cantor nordestino fosse uma espécie de profeta, messias, um Antônio Conselheiro em pleno século XXI.

A comoção da platéia foi tão honesta que o cantor não conseguiu arredar os pés do palco sem cantar a saideira quatro vezes. Fiquei impressionado com a comovente reação do artista que, ao agradecer a ovação do auditório, socava o peito e a cabeça, parecendo mesmo surpreso e grato.

Saímos do teatro absolutamente felizes. Caminhamos abraçados pelo vistoso gramado do campus. Garoa sobre as cabeças. Pensamentos livres. Versos reverberando nas mentes. A emoção do poema “Continuação” recitado no palco, a meia luz, sem a banda, sob um silêncio sepulcral surpreendente:

O contra, o encontro, a contração
A era, o Eros, a erosão
A fera, a fúria, o furacão
O como, o cosmo, a comunhão
O pré, a prece, a procissão
O pós, o póstumo, a possessão
A cor, a corte, a curtição
Amor, a morte, a continuação 

Toma esta, Jonas Brothers!!

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Comentários (3)

  • Que belo texto Eberth! Nota 10 pra vc. e 20 para o Felipe, que mostra tão precocemente a que veio. Se nadar contra a correnteza em qualquer fase da vida é difícil, na adolescencia é proeza pra poucos.

    2 anos atrás por Margareth Giglio
  • Parabéns, Eberth Vêncio. Você foi dez, como dizem os garotos de hoje. Eu também estava lá com meu filhote, o Virgílio, de 21 anos de idade, e percebi justamente isso que você colocou em seu texto. Gosto muito do trabalho do Lenine e no mais recente CD dele, o Labiata, trouxe com música e poesia a discussão sobre o atualíssimo tema da preservação ambiental.

    2 anos atrás por Hélverton Baiano
  • Bela crônica de Eberth Vêncio - um de quem se pode dizer o que se aplica ao próprio Lenine, cuja arte ele louva:"O tempo não para e ele nunca envelhece". Quanto aos que não gostam, fazer o que? Desde que não proibam os outros de gostar:Também foi dito e escrito por Gurdjieff, em seu Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem :“Gastamos mais energia do que a necessária, utilizando músculos de que não precisamos, deixando nossos pensamentos darem voltas e reagindo com nossos sentimentos. Relaxem os músculos:só utilizem os que são necessários, mantenham seus pensamentos em reserva e só expressem seus sentimentos quando quiserem. Não se deixem afetar pelas aparências. Elas são em si mesmas inofensivas. Nós é que aceitamos ser feridos”. E o próprio amor próprio, objeto de geral adoração, papo cabeça de terapeutas e psicólogos, ocupa metade de nossas vidas, mas não é amor, nem nos é próprio. Vem do considerar demasiado a consideração (opinião) dos outros. Com isto nos tornamos seus escravos. Não se pode dizer que é livre a pessoa que permanece servil e algemada a toda e qualquer consideração, opinião ou conceito que os outros têm em relação a ela.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio


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