Intolerância 10
A prefeitura está demolindo os mocós. Mocó é uma palavra com significados variados. Neste contexto, quer dizer “esconderijo de malandros”, conforme definição que eu busquei no dicionário e nas palavras do secretário de obras do município.
São edificações inacabadas ou precárias, abandonadas pelos proprietários, e que servem de abrigo aos moradores de rua (homens, mulheres e crianças miseráveis, criaturas excluídas, cidadãos à margem da sociedade).
Agindo assim o prefeito acredita estar combatendo a violência na cidade e o tráfico de drogas. Patética, a vizinhança aplaude, aprecia a demolição (lembrei-me agora da “Saudosa maloca” cantada pelos “Demônios da Garoa”). Resta saber como acabar com os “mocosados”, uma vez que não dá pra passar com as esteiras dos tratores por cima deles (pelo menos, por enquanto; não na frente das crianças...).
Eles são “um duro problema para a cidade”, mas não são lajes de concreto. Já aconteceu de alguns prefeitos exportarem os seus miseráveis para cidades vizinhas, “resolvendo a questão da mendicância, da vadiagem e dos pequenos delitos”. A criatividade de alguns políticos é tão aguçada quanto a sua incompetência.
Custa compreender por que o poder público não retira dos mocós os marginalizados, dá-lhes banho, corta-lhes os cabelos, apara as suas unhas, serve a eles comida e água tratada, enfim, os acolhe em albergues até que vícios sejam tratados, os adultos sejam recolocados no mercado de trabalho, e as crianças, dentro das salas de aula.
“Falar é fácil. Faltam-nos recursos...”, os defensores do sistema hão de provocar. Trata-se de outra aberração administrativa. Falta dinheiro para investir nas questões sociais básicas (como fazer sexo com privacidade ou defecar dentro de um vaso sanitário), assim mesmo, continua-se gastando a rodo em propaganda estatal e na construção de prédios modernos concebidos por gestores inspirados e arquitetos com projetos mirabolantes.
Pipocou mais uma denúncia de corrupção na política brasileira, desta feita, no Distrito Federal. Cenas flagrantes de autoridades escondendo cédulas de dinheiro nas meias e cuecas sã vergonhodesseiro nas meias os de o risíveis, ridículas, desprezíveis. Ah, se pudéssemos deitar-lhes nos lombos a chibata... Há, contudo, um viés a ser decifrado: estão roubando mais a cada dia, ou a vigilância sobre os corruptos está mais vigorosa?
Não me surpreende que prefeitos e governadores reclamem da carência de dinheiro para investir em saúde, educação e segurança pública. Embora os governos jamais tenham arrecado tantos impostos como na atualidade, os ralos da corrupção e da má gerência dos recursos continuam sangrando o erário.
Num período dos anos 90, o prefeito Giuliani, da belíssima Nova Iorque, deflagrou o projeto “Tolerância Zero” que visava, fundamentalmente, combater o tráfico de drogas e a violência urbana. À moda brasileira, o Estado vai peitando o banditismo do jeito que dá, com a polícia subindo morros, tomando balas no peito, criando um cenário de guerra que parece não ter solução. Será que antes da Copa FIFA de 2014 tudo isto acaba?!
Destruir os mocós, principalmente aqueles situados nos bairros nobres da cidade, vai mesmo afugentar mendigos, viciados e outros párias da sociedade. Contudo, o impacto no controle da violência urbana será irrisório. Bandidos graúdos não moram embaixo das marquises e das pontes. Eles estão bem instalados em seus redutos, tramando novas investidas, arquitetando o mal, como o fazem os políticos corruptos.
Os desgraçados moradores de rua, famintos cheiradores de cola, este sim, terão de buscar novos refúgios onde aportar seus corpos sujos e suas vidas sem sentido. Ainda assim, não estarão a salvo da sociedade medrosa e seus gestores covardes. Quando menos se esperar, em mais um ato de intolerância, eles serão impelidos a deixarem seus esconderijos (malandros que são), a se afastarem dos cidadãos de bem.
No fundo, no fundo, no conforto de seus gabinetes climatizados, deve dar uma vontade danada de exterminar toda essa gente. O que se economizaria de óleo diesel para os tratores daria para financiar uma bela campanha eleitoral...





