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POR EM 18/01/2010 ÀS 07:22 PM

Instantes de inércia

publicado em

Acho inevitável e certamente saudável na arte o momento da paralisia. A inércia de um artista é seu ponto de crítica, onde ele se defronta com a dúvida e por isso mesmo (ou então às vezes) se mostrando maduro e cuidadoso com seu trabalho.

Um pintor, segurando seu pincel molhado de tinta, leva a mão à tela, mas vendo melhor uma sombra ou a falta dela, para: e nessa hora nasce toda uma questão de saber cuidar de sua obra, do que será melhor e do que pode arruinar um contraste, uma noção exata de profundidade entre as árvores do fundo e as cadeiras debaixo do sol. A dançarina, erguendo sua perna no palco, dando uma pirueta no ar, voltando-se graciosa e leve para os cantos do próprio corpo, corre para onde não deveria porque foi seguindo o ritmo de sua euforia mágica de passos, então para: e nessa hora nasce a dúvida de para onde e como dobrar-se de uma forma que não desafine a cadência anterior de seus movimentos ensaiados. O escritor, sob a chuva de ideias que jorra (ou pinga) em sua mente, sente a falta de uma palavra ou não sabe se deixa o vento abrir a cortina e revelar ao homem que sua mulher está com outro no quarto, e para: nessa hora ele enfrenta o mistério da própria criação e suas dificuldades, mesmo que esse mistério já esteja revelado, embora não num plano ainda alcançável; ele descobre que sua história pode ser maior do que ele, com uma cena invertida possível de alterar destinos, pessoas, o meio todo, e assim o fim.

Então é só olhar para esses três casos e perceber que uma coisa muda em todos eles: o tempo que se tem para concluir a arte sobre a qual se está debruçado. O tempo do pintor não pode ser longo, porque as tintas vão sendo absorvidas pela tela, o pincel se torna duro com as cerdas cada vez mais secas; o tempo da dançarina é quase inexistente e ela não pode se deixar abalar por um pequeno erro, assim como não pode pensar muito no que fazer porque a música não a espera; o tempo do escritor, talvez com um pouco mais de sorte, pode ser maior, mas nenhum escritor permite que seja tão maior, porque a ideia pode evaporar, o fluxo da criação pode desviar, indo para outro caminho desconhecido ou sombrio que demorará a ser encontrado. Entre estes, considero o escritor o que tem mais espaço, mais liberdade, para decidir, para deixar ou ficar, ir ou esperar, matar ou salvar, com uma dificuldade muito maior do que os outros porque ações, sentimentos, descrições e pensamentos, todos são “paridos”, colocados para existir, através da linguagem, um tanto mais trabalhosa porque envolve também a beleza de um quadro e o ritmo de uma música, a cadência de uma dança. Tudo.

Dia desses me aconteceu essa paralisia, o fluxo de repente inerte: não saber se adiaria um beijo entre dois personagens ou o faria naquele momento, tão propício, tão certo para acontecer. Não foi uma tarefa fácil (porque esse beijo não é um simples beijo e muda toda uma dimensão das personalidades envolvidas e narradas) mas segui escrevendo até não poder mais e ter de ruminar cuidadosamente sobre o caso. Outra vez esses personagens já haviam quase se beijado, mas uma interrupção silenciou tudo. Então, em respeito ao suspense, às vezes tão necessário e belo dependendo da cena descrita, mantive a ideia de adiar o beijo, novamente interrompido, mas não por uma terceira pessoa: acabei usando de ironia, de um fato inusitado, porém bobo, que pode acontecer a qualquer um. Daí, talvez, surja uma das muitas conclusões possíveis: que a aniquilação da inércia, do monte branco e pegajoso onde o corpo do artista se encontra soterrado e cuja dificuldade em sair sempre varia de acordo com a expressão, pode estar num fato simples, nada muito laborioso, nada muito complicado, mas na simplicidade que ganhará a simpatia ou a variação de humores daquele que lê o livro, que assiste à dança, que contempla o quadro. Se causa uma reação, a obra parece não ter passado por muitos temperamentos próprios, simplesmente fluida e erroneamente vista como planejada desde sempre daquele jeito em que se encontra.

E virão outras interrupções, outros adiamentos? Talvez. É divertido produzir a sensação de suspense que, na minha posição, fica entre o escritor que quer manter uma terrível vontade secreta entre duas pessoas, e o leitor, cuja curiosidade e ansiedade precisam ser testadas com respeito e paciência. Elaborar com cuidado cada dúvida, enfrentar sem pressa de se chegar ao destino cada encruzilhada, é uma das delícias de se ter a Arte em mãos, sabendo respeitar as próprias limitações dessa Arte que sempre pede o melhor e o pior de cada um.

 

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