Impressões da FLIP
— Fui para a minha primeira Feira Literária Internacional de Paraty este ano. A Flip chegou à sua oitava edição já meio esvaziada, com poucos nomes que causassem comoção e histeria do público, além de repetir alguns convidados, como Salman Rushdie e Ferreira Gullar. O poeta maranhense parece o tapa-buracos da festa: esta foi sua terceira Flip.
— Fiquei com uma visão esquisita da Flip. É incrível que o Brasil tenha conseguido organizar um evento no qual escritores renomados venham para uma cidadezinha do interior do Rio de Janeiro para ficar quatro dias conversando sobre literatura. Porém, fica a dúvida: qual é o papel do escritor na sociedade do espetáculo?
— Foi Salman Rushdie quem se aproximou desta reflexão, ao afirmar que preferia não explicar seu novo livro, que gostaria que o leitor chegasse de forma pura ao livro, sem saber nada da história nem do autor. Estamos longe de um J. D. Salinger, que raramente se deixou fotografar. Imaginá-lo na Flip é um delírio - até porque ele está morto. Dalton Trevisan, para ficarmos em um exemplo caseiro, dificilmente seria seduzido a participar de um evento como esse.
— Mais do que os eventos da Flip propriamente dita, gostei dos eventos da Off Flip na Casa da Cultura, em que pese a mediação um pouco desastrada de Claudiney Ferreira, que defendia a ideia de que o escritor faz performances. Cristóvão Tezza ficou um pouco desconfortável diante da insistência de Claudiney para que se assumisse como performer. Gostaria de vê-lo entrevistando Marcelo Mirisola sobre o assunto.
— As discussões sobre o “futuro do livro” me entediam. Não fui a nenhuma das mesas. A melhor resposta que vi até agora foi mesmo a de Salman Rushdie, que argumentou: o livro é uma tecnologia que não envelhece, pode cair no chão, dobrar, tomar chuva, que continua funcionando. Mas que eu gostaria de ter um desses leitores eletrônicos para encontrar certos trechos, ah, isso eu queria!
— Nem tudo são flores na Flip. A desorganização da bilheteria é algo de dar inveja aos clubes de futebol. Para trocar os ingressos da mesa de Lou Reed, que cancelou a vinda, levei cerca de uma hora. A organização priorizou quem deixou para comprar os ingressos na última hora, fazendo com que eles passassem na frente dos que estavam na fila normal. O nome da fila formada para os atrasados? “Fila da esperança”. Enquanto isso, a “fila dos otários”não saía do lugar.
— Falando em filas, é impressionante como brasileiro gosta de uma. Tentei ver a conversa de José Castello com Benjamin Moser na Casa da Cultura, mas a organização, em vez de liberar os ingressos com uma hora de antecedência, sugeriu a formação de uma fila para a retirada dos ingressos. Custava entregar os ditos cujos logo aos que queriam ver o debate? Desisti na hora.
— A Flip se torna melhor à medida que você é ignorante no assunto debatido. Eu apreciei muito as mesas sobre Gilberto Freyre, pois não conhecia nada sobre sua obra nem sobre seu estilo. Edson Nery da Fonseca roubou a cena ao declamar o poema “Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados” de cabeça. Manuel Bandeira se referiu assim ao poema do amigo: “ele é a minha eterna dor de corno”.
— Algumas mesas foram decepcionantes. A de literatura brasileira foi fraca. Me empolguei apenas com Ronaldo Correia de Brito, já que desconhecia sua figura. Beatriz Bracher não me impressionou e Reinaldo Moraes esteve apagado. A decepção foi causada por dois motivos. O primeiro está relacionado ao pouco tempo que cada autor tem para falar. O segundo foi a mediação de Cristiane Costa, que insistiu demais em pontos surrados, além de forçar uma tentativa de relação entre os três escritores.
— A Flip deveria rever o modo de condução das mesas. As que contêm três convidados terminam sempre por impedir que o raciocínio dos autores seja desenvolvido da maneira adequada. Se o mediador for fraco, cada um deles fala em separado, o que faz com que o público fique com a impressão de que são três conversas simultâneas, mas que jamais se cruzam.
— Outro ponto a ser revisto pela Flip é a qualidade dos tradutores. Não sei o nome do homem que fez uma parte da tradução da mesa entre William Kennedy e Colum McCann, mas ele era terrivelmente ruim: traduzia mal, errava e gaguejava, pulando falas. Os que não sabiam inglês sofreram com a tradução destrambelhada.
— Essa mesa, aliás, só reforçou minha ideia de que a Flip faz mais sentido para quem é ignorante. William Kennedy não falou nada que já não fosse sabido. E eu jamais tinha lido uma entrevista dele antes de ir a Paraty. O mesmo ocorreu com Ferreira Gullar, que ganhou o público com suas histórias engraçadas e seu bom humor. Mas não disse nada de novo. E ainda arrancou aplausos, em pé, mesmo na tenda do telão, com frases batidas. Poderia também ter nos poupado dos poemas novos: apenas mais do mesmo.
— Felizmente me poupei de ver o espetáculo deprimente protagonizado por Gilbert Shelton e Robert Crumb. Nem filei o telão dessa mesa, qualificada como lamentável pelos críticos. Bem, eu não esperava muita coisa de um cara que desenha gibis. Quadrinho não é literatura, certo?
— Qual o sentido de ir à Flip então, se as mesas são transmitidas via internet? Acredito que ela é mais interessante para os que querem viajar e conhecer Paraty, tendo de brinde palestras de autores famosos. Fazer contatos também pode ser melhor do que ver seu autor favorito repetindo pela enésima vez como é o seu processo de escrita, por exemplo. De todo modo, vale a pena ir uma vez para ver como é. Só sei que a literatura, essa mostra pouco as carnes quando os holofotes se acendem.





