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POR EM 12/07/2010 ÀS 08:59 PM

Imagine um mundo sem religiões

publicado em

Múcio é um homem velho, vivido, vívido e voraz quando o assunto é Deus. Ateu pacífico, destemido, provocador gentil, ele tem certeza absoluta: “acabe com o dinheiro e você assistirá ao fim de todas as religiões”. Como assim, Múcio?!

A conversa começou com José Saramago, escritor português recentemente ceifado da superfície do planeta, igualmente ateu e cheio de impaciência com a parcela crente da humanidade (e que deve corresponder à maioria). Polêmico, Saramago tornou-se uma criatura deveras distante da unanimidade entre leitores e críticos literários. Certamente, teve a sua literatura afetada (ou mesmo, superestimada) por causa das suas convicções políticas. Política e literatura: taí uma farofa indigesta.

Apesar da idade avançada e do câncer de próstata recentemente descoberto, Múcio não sucumbe à tentação da crença inabalável a um ser divino, no “apagar da luzes”, como ele mesmo gosta de dizer. Embora o médico tenha afirmado que ele morrerá de outra doença que não o câncer — pois se trata de um tumor minúsculo diagnosticado em fase muito precoce —, Múcio anda entregue às reflexões existencialistas. “Meus amigos e ex-colegas de trabalho já morreram, ou estão inválidos em suas cadeiras de roda sendo cuidados por terceiros. Eu continuo na ativa. Sendo assim, de hoje em diante, só vou fazer aquilo que tiver vontade. Por exemplo, enquanto houver juízo, não paro de trabalhar”, ele comenta.

Na semana passada, Múcio reviu o Agenor, um amigo de infância também sorteado com a mesma doença. O ambiente na sala de espera da clínica de radioterapia ficou deveras agitado, porque ambos não continham a animação do encontro, recordando episódios da juventude, listando os que já se escafederam ou se entrevaram, debulhando uma piada atrás da outra. Os demais pacientes assistiam à cena sem entender o por quê de tamanha animação.

Não custou muito, apareceu uma enfermeira — tão bonita quanto aquela do clássico cartaz — que colocou o dedo indicador em riste na frente do rosto pedindo silêncio, por favor, meus senhores. Os dois sorriram abafados até os olhos vazarem de tanta lágrima e a vermelhidão tomar conta das suas cabeças há muito desprovidas de cabelo.

Ao mesmo tempo em que ouço as anedotas que o Múcio conta, penso o que seria do mundo se não houvesse as religiões. Seria melhor ou pior do que vemos hoje? Seria mais pacífico? Haveria menos fome e injustiça social? Faço do meu octogenário amigo um guru, e ele não titubeia, garante: “seria bem melhor, pode ter certeza”.

A conversa com o velho Múcio conduz-me a um pingue-pongue mental não verbalizado, marcado pelo antagonismo. Penso naqueles que possuem uma fé irremovível, comovente, incondicional, criaturas devotas absolutamente comprometidas com as ações desenvolvidas pelas suas respectivas igrejas.

Penso nas campanhas solidárias, na arrecadação de alimentos, agasalhos, remédios e outros mantimentos. Penso na sopa comunitária que os voluntários da igreja do meu bairro servem aos moradores de rua da cidade (uma vergonha, um dos maiores descalabros sociais que se tem notícia, e que ninguém resolve).

Penso nos crentes fervorosos que percorrem os hospitais a fim de levarem algum lenitivo aos doentes graves, terminais, e aos seus parentes com a fé já miudinha, judiada, duvidosa. Penso também nas mulheres carpideiras que percorrem funerais de gente conhecida ou desconhecida, cantando hinos, encomendando almas, consolando os sobreviventes, garantindo que há sim um local bem melhor do que este aqui, a ser desfrutado na companhia do Pai, do Filho, e do Espírito Santo (o que afinal significa esta trinca?!), dos anjos, dos santos, e de todas as pessoas que a gente amava e que já desencarnaram. Ora, perante tamanha iniquidade no planeta, uma vala profunda, per si, já seria uma redoma pra lá de tranquila.

Penso nos auditórios, templos, galpões lotados com o povão, nos cultos, nas cerimônias das mais variadas agremiações religiosas, e de como um inestimável contingente de pessoas busca nestes lugares refúgio, combustível pra tocar a vida. Rezam alto, cantam, buscam convencer-se mutuamente que a fé vale a pena, e que é fundamental continuar acreditando.

Por outro lado, alicerçado na História da Humanidade, penso nas incontáveis vertentes religiosas, na intolerância mútua, nas barbaridades cometidas pelos homens em nome da divindade, desde as sociedades mais antigas, as tribos primitivas, até a atualidade, em que homens-bombas continuam explodindo qualquer tentativa de se compreender como seria este ser divino que referenda a morte de outrem. Matar é preciso, com toda a fé, em nome de Deus, amém.

Penso na Inquisição, no desserviço à ciência e ao intelecto humano, nas perseguições covardes, na manipulação da fé alheia, no massacre da liberdade de pensamento, nas fogueiras que queimaram bruxas, hereges, doentes mentais, homossexuais, gênios da ciência e demais seres ameaçadores, adversários da igreja.

Penso nos crápulas travestidos como líderes religiosos enveredados na pedofilia, uma das modalidades mais abomináveis de violência contra o ser humano.

Fantasio um mundo sem religiões, conforme propõem Múcio, Saramago, e John Lennon, na canção Imagine: “...imagine que não existam países, nada pelo que matar ou morrer, e nem religiões também...”. Religião é ferramenta de dominação ou controle? O mundo subsistiria, organizadamente, sem o pecado, o castigo, o medo, o inferno, e a certeza da vida eterna após um último suspiro?

Enquanto ouço meu adorável e senil amigo teorizar a respeito da vida e da morte, da crença e da descrença, da alma e da falta dela, viajo em meus pensamentos, traço paralelos, mas não chego a qualquer resposta, senão que já é tarde da noite e o meu corpo tem fome de pão. Se é assim com o corpo, imaginem só com o pensamento, ao que alguns preferem chamar alma, espírito, sopro, energia, cataplasma, fantasma, luz, etc...

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Comentários (5)

  • Caro amigo Eberth, demais do leitorado desta Bula: A primeira vantagem de um mundo sem religiões seria a não existência de guerras religiosas. Se é que em mente sã uma pessoa possa chamar uma guerra de religiosa. Pois o próprio significado da palavra religião é religare, isto é, ligar de novo a mente separatista à unidade da Vida. A segunda vantagem seria não haver intolerância, e nem sacerdotes e pastores assalariados, escalpelando como bem queiram suas incautas ovelhas. Nada tenho contra qualquer religião ou quem se diga religioso. Mas digo que religiões têm serventia para quem é movido pelo espírito de rebanho, de que falou Nietsche. A bem dizer, nem Jesus Cristo ou Buda foram religiosos. Não escreveram tratados ou evangelhos, e menos ainda fundaram instituições religiosas para seu culto próprio.Teria mais a dizer, mas isto já seria começar outro artigo.rss

    9 meses atrás por Brasigois Felicio
  • Eberth, o seu texto é bastante reflexivo e você tocou em um assunto que muita gente tem "medo" e/ou receio de falar. Isso porque o tema "religião" não pode ser discutido como qualquer outro assunto com naturalidade e no mínimo de civilidade. Devido ao fato de o ateu ser visto como algo ou alguém diabólico com tendências para o lado do mal, o único motivo de não acreditar em Deus já presume o caráter de um indivíduo, ou seja, para os cristãos a existência tem que ter algum sentido e esse sentido é buscado através do divino. O próprio Richard Dawkins em seu best-seller "Deus, um delírio" trata sobre essa questão e prova através de seus fortes argumentos que Deus não existe e a religião nada mais é do que um grande mal de nossos tempos, todas as batalhas e desgraças da humanidade foram em nome da religião. A citação que segue abaixo li a primeira vez no texto "O Calvário dos Ateus" de Ademir Luiz e retrata bem o que você demonstrou:

    "A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa, e pelos governantes como útil." (Sêneca)

    9 meses atrás por Roberta Ribeiro
  • Parafraseando meu amigo Nietzsche, “deus esta morto, tudo é permitido” sou um ateu convicto, esse papo de religião é só mais um meio de alienação de levar os incautos a perder seus poucos trocados pelo pequeno pedaço do céu!
    O homem veio e esta aí para destruir tudo e todos, já diziam por aí “o homem é o câncer na terra”, aquela porra que ficou vazando dias e dias destruindo o oceano é para o que? Para satisfazer os desejos de consumo do homem, para levar o bonitinho de carro até a padaria da esquina, ao mercado do outro lado do quarteirão e por aí vai... enquanto tiver vamos usar.
    Provos Brasil
    www.provosbrasil.blogspot.com

    2 anos atrás por Provos Brasil
  • Grato pelo seu comentário, Marco.

    2 anos atrás por EBERTH VENCIO
  • Ótimo texto.

    2 anos atrás por Marco


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