Grandeza e miséria do jornal
Há no romance “Ilusões Perdidas”, de Balzac, situações que parecem ter sido inspiradas em nossa época. O jornalismo é a porta pela qual o personagem de Ilusões perdidas entra para o hospital das letras, em busca de glória e dinheiro. Entre nós, não faltou exemplos de literatos de nomeada que exerceram atividade jornalística, seja no batente duro das redações, ou na moleza de serem cronistas do cotidiano — a ponto de terem cunhado o bordão: “O jornalismo é a lata de lixo do literato frustrado”. Sejamos justos: nem todo jornal é lata de lixo, e nem todo literato que nele trabalhou ou trabalha é frustrado. Muitos se tornaram celebridades, a começar de Machado de Assis.
Mas falo aqui não do jornalismo literário, onde não estão presentes as injunções e pressões “alienígenas”, vindas de fontes dignas, digo, detentoras do crédito e do vil metal, que atingem o noticiário político. Assim como nos tempos de Balzac, pior talvez em nossos tempos neocínicos, onde há formas de pressão inexistentes na Europa romântica. Com pequenas mudanças, vemos que as eras se repetem, não só nas modas, como também nos costumes. “Essa gente bebe copázios em maior número do que os livros que vende”.
Não faltam no livro alusões à intemperança etílica dos escritores e artistas em geral. O que reverbera a sátira de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, à irresponsabilidade crônica do poetariado de todos os tempos: um bando de bardos (desempregados crônicos dos lumpen das letras) entra em um bar, come, bebe, toca piano com os pés e sai sem pagar, dando-se ao luxo de ameaçar o bodegueiro de denunciá-lo na gazeta periférica em que escrevem suas lamúrias & louvaminhas.
Mas isto se deu no tempo em que escrever em jornais conferia algum poder e prestígio, visto no halo de santidade que também ostentavam os poetas, segundo Baudelaire, ao anunciar, com as avenidas da modernidade, a decadência do prestígio que conferia o ter alma e espírito. Como tudo o que é sólido desmancha no ar, o halo do poetariado caiu na lama, e foi despedaçado pelos rios de aço do tráfego. “E então, meus filhos, disse Luciano, ostentando um ar de superioridade: vocês verão que o pequeno farsante pode vir a ser um grande político!”. Quantos pequenos ou grandes farsantes não conhecemos, que — entra governo e sai governo — transformam-se em notáveis eminências da vida pública, gatos de palácio, cevados na gamela das benesses palacianas!
Sobre a inveja e a maledicência, inerentes à indigência mental e espiritual do animal humanóide, mas que abunda e prejudica mormente nos meios artísticos e literários: “A inveja, que persegue todas as obras belas como o verme aos bons frutos, tentou morder este livro. Para conseguir encontrar-lhe defeitos, a crítica foi obrigada a inventar teorias como o propósito de distinguir duas literaturas — a que se entrega às ideias e a que recorre às imagens”. Motivo pelo qual em reunião de artista plástico e literato quem sai primeiro fica no prejuízo, passando a ser a bola da vez — alvo da malhação ilimitada. Daí os costumes registrarem o uso de saírem de as rodas desmancharem-se de uma só vez, em debandada geral.
Há pessoas que não têm importância alguma, mas têm amigos nas redações. Senão, leiamos o que escreveu o gênio de Balzac em seu romance iniciático “Ilusões Perdidas”: “Quanto aos redatores, são singulares patifes, gentinha que eu não aproveitaria para bagageiros, e que, só porque põem as patas de mosca sobre o papel em branco, têm o vezo de desprezar um velho capitão, aposentado como comandante de batalhão, e que entrou com Napoleão em todas as capitais da Europa...
Luciano, empurrado para a porta pelo soldado de que Napoleão que escovava sua casaca azul, e manifestava intenção de sair, teve a coragem de atravessar: - Vim para ser redator, disse. E juro-lhe que sinto o maior respeito por um capitão da Guarda Imperial, esse homem de bronze...
Muito bem, paisaninho... respondeu o oficial, batendo na barriga de Luciano. Mas a que classe de redatores aspira o senhor? Ora, pois temos diversos corpos de redatores: há o redator que redige e tem sua paga, o redator que redige e nada recebe, o que nós chamamos de voluntário, e enfim o redator que nada redige e que não é o mais tolo. Este jamais comete erros, apresenta-se como escritor, pertence ao jornal, paga nos jantares, sustenta uma atriz, é bastante feliz. De qual deles o senhor quer ser?
Mas, redator que trabalhe muito, e portanto, bem pago.
Aí está o senhor, como todos os conscritos, que querem ser marechais da França!.”
Um bom conselho dado ao escritor que sentia as ferroadas da fome:
( ... ) Depois de várias tentativas, após haver escrito um romance anônimo comprado por duzentos francos ( notar que Balzac falar primeiro em escrever, e depois em comprar), pelo Doguereau, que como ele, não ganhou grande coisa, ficou provado que somente o jornalismo poderia dar o que come”. ( Confirma-se aí a tese de que o jornalismo é a lata de lixo do literato frustrado ou faminto?).
Mas como entrar em uma dessas barracas de feira?, pergunta o artista da fome. E a pena-bisturi do implacável Balzac continua a dissecar um vício bem da tradição da imprensa marrom, que escreve contra ou a favor de Jesus Cristo, só para levantar a poeira da polêmica — e das vendas...: “As artistas pagam também os elogios, mas as mais hábeis pagam as críticas. É que, mais do que tudo, temem o silêncio. Desse modo é que uma crítica, feita para ser alhures contestada, vale mais e é mais bem paga do que um sexo elogio, esquecido no dia seguinte. A polêmica, meu caro, é o pedestal das celebridades. Neste trabalho de espadachim de ideias e de reputações industriais, literárias e dramáticas, ganho cinqüenta escudos por mês, posso vender um romance por 500 francos, e começo a ser considerado um homem temível. Quanto a mim, não sei o que poderei ser então: ministro ou homem honesto, tudo é possível”.
Balzac alude, com ironia feroz, neste trecho de “Ilusões Perdidas”, ao vezo de certos jornais provincianos, que fazem vistas grossas, quando fazem de suas páginas chão fecundo para a citricultura política, ou de mundanismo social, quando convém ao faturamento dar guarida a criminosos de colarinho branco, ou às peruas e dondocas, teúdas e manteúdas dos abonados da hora. Acham mais cômodo abrir manchetes e páginas contra autores e livros, a propósito de erros de revisão, a que intitulam de “crime hediondo”, do que meter o malho em figurinhas carimbadas, useiras e vezeiras em meter a mão na cumbuca da coisa pública.
Não é necessário consultar bola de cristal para ter certeza: nos tempos de Balzac, de Machado de Assis, como nos de hoje, há só dois tipos de jornalistas: os que mentem honestamente em favor de quem os paga, e eles têm prazer em mentir honestamente - e os que distorcem a verdade a contrapelo de sua vontade, pois têm de vender o miolo da cabeça para comprar o miolo do pão de cada dia para a sagrada família.
P.S. Uma coisa, porém, é a relação literatos e jornalismo, e outra a campanha solerte e capciosa de perseguição à liberdade de imprensa, como a que se faz hoje, no Brasil populista do Lula, guia genial dos povos: jornal “Estado de São Paulo” sob censura prévia, impedido de publicar a verdade, advertências e pitacos do nosso farol dos povos, no sentido de que o papel do jornalista não é o de investigar, somente publicar o conteúdo dos boletins oficiais, são sinais reveladores de que a censura aberta à liberdade de imprensa, como a que se faz na Venezuela de Chaves e na Argentina do casal vinte, está chegando por aqui. Até em capcioso disfarce, como denuncia Elio Gaspari, em artigo publicado hoje (9/12/09) sobre o julgamento, no STF, de ação contra o jornal “A Província”, do Pará. Adverte o jornalista que o pretexto da ação é o de defender a imposição aos jornalistas, no sentido de que devam manter em sigilo informações que, uma vez publicadas, desmascaram malfeitos e “jogadas de mestre” da deslavada e arrogante prática da corrupção que avassala todas as praças deste país, em todos os níveis de governo.





