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Gente rica dá um trabalho... Ocorre que dinheiro é garantia de consumo, luxo e opulência, mas, nem sempre, educação, cultura e ética. Patrimônio e aplicações financeiras valorizam e podem gerar uma sensação de poder de transcende a sensatez e a decência, de tal maneira que margeia o ridículo. Ricos presunçosos perdem a compostura num estalar de dedos. Se provocados, escancaram a sua essência. Se etilizados, salve-se quem puder...
No último sábado, convidaram-me para uma feijoada num clube da alta sociedade desta cidade. Não sou grã-fino, mas gosto de um feijão temperadinho, muito mais do que o glamour. Então, fui. Refeição para cento e cinqüenta talheres. Chope e caipirinha descendo que nem água. Decoração cuidadosa, impecável. Pagodinho da melhor qualidade.
A feijoada estava boa, mas o clima ficou ruim quando um dos comensais invadiu o vestiário feminino e tentou agarrar, à força, uma adolescente nua que, alheia ao “regabofe”, banhava-se depois de malhar na academia.
Embora outras mulheres tenham também deparado com o alienígena naquele claustro, ele negou veementemente o ataque e se manteve na bebedeira, sorrindo e debochando, como se nada de relevante tivesse acontecido, esbanjando arrogância. Preocupados em resguardar a imagem do clube e dos seus freqüentadores VIP, a gerência e os seguranças optaram apenas por monitorar o embriagado ricaço, que continuava a importunar outras mulheres.
O assédio etílico só terminou quando o pai da moça chegou ao clube e fez questão, sim, de chamar a polícia e enquadrar o marmanjo desajustado. Eu soube mais tarde que o sujeito é casado, pai de três meninas adolescentes, freqüentador assíduo do clube, um “gentleman”. Apesar da pressão dos amigos abastados, a polícia cumpriu o seu papel, algemou o agressor e o entregou na delegacia mais próxima. Desta vez, não deu pra ir de BMW...
Bebedeiras geralmente terminam mal, pelo simples fato do álcool costumeiramente liberar determinadas taramelas da mente, quase sempre travadas na sobriedade. Portanto, não se deve brincar com o subconsciente, muito menos provocá-lo. O resultado poderá ser bastante inconveniente e deixar seqüelas duradouras.
O que chamou a atenção no inesperado “ataque da ducha” foi o contingente de apelos, recados e telefonemas recebidos pelo delegado durante a permanência dos envolvidos na delegacia. Suplicaram pelo tarado ilustre uma “renca” de advogados, dois ou três promotores de justiça, um juiz de direito, o “primeira-voz” de uma emergente dupla sertaneja local, e até um Senador da República que é muito amigo do pai do acusado. O homem não estava mentindo ao ameaçar a todos com o famigerado “vocês não sabem com quem estão lidando”...
É claro que eu não presenciei, mas me contaram um detalhe hilário da estória. O acusado apanhou de chinela da própria irmã dentro do toalete no DP. Questões de reincidência. Coisas de família. Bem, conforme reza o bom senso e manda a lei, os reclames de última hora dos “pistolões” não surtiram efeito. Não aliviaram pro sujeito e ele vai se haver com a justiça.
Este episódio real ilustra que o ser humano, em matéria de prepotência e insensatez, não respeita limites. Acontece todo dia, a despeito de classe social ou do saldo na conta corrente do banco. O mau gosto, a falta de ética, a desonestidade e a truculência são atributos dos homens, sejam pobres ou ricos.
Mas, cá entre nós, o erro humano se torna muito mais abjeto quando dele se tenta apartar à custa de ameaças, propinas, tráfico de influências, ferramentas de um suposto poder virtual (leia-se, dinheiro).
Quem, afinal, haverá de se livrar da euforia dos vermes após a morte? Se o corpo tem ou não tem botox, se há silicone mesclado à carne, não faz a menor diferença para os micróbios. É. Não aprendemos nunca.





