Gente burra
De uns tempos pra cá inventaram um eufemismo politicamente correto para burrice — analfabetismo funcional. O sujeito sabe ler, mas não sabe interpretar. Considero um insulto aos analfabetos — de fato — inteligentes, além de se perder em contundência, o que é uma pena, esteticamente falando.
Sei que um escritor elegante deve ignorar comentários idiotas ao que escreve de forma magnânima, que não adianta defender-se atacando, e sei que parecerá que é o que farei aqui. Mas não. Quer dizer, sim e não. Sim, quebrarei o protocolo e citarei comentários idiotas a coisas que escrevi aqui e alhures. Não, não pretendo me defender de nada, até porque acho divertido e, mesmo, confesso, eventualmente faço de propósito, já sabendo que a gente burra morderá a isca. O que não me impede de me surpreender com o fato de que sempre há gente burra mordendo minhas iscas.
Disponibilizarei abaixo uma crônica minha publicada no jornal “O Popular” de 09 de agosto de 2010 e minha coluna de Filosofia & Cinema da revista “Filosofia Ciência & Vida” (Editora Escala) de No. 40 (a que está nas bancas é a No. 49, portanto a que cito é de 9 meses atrás. A propósito, Carlos Willian, seu preguiçoso, não vai trocar a imagem da revista no lado direito da Bula, não?!). Estas, juntamente com “Por que Avatar é idiota”, receberam a manifestação “carinhosa” (atenção gente burra, estou sendo irônico, quase sarcástico) de alguns leitores imbecis que levaram ao pé da letra o que está escrito. No caso da crítica a “Avatar” e da coluna, meu crime foi menosprezar as mulheres, incluindo minhas próprias esposa e filhas (!!!!!). Já no caso da crônica, eu “incitei ao assassinato” (tive uma crise de riso com essa) e... o que mais? Deixa ver se lembro... Algo como “o mundo já está violento e sentimos nossa pequenez, etc, etc”. Pequenez de neurônios, só se for.
Aqui vão meus textos criminosos (no caso da coluna eu “pintei” de vermelho o que incomodou a leitora burra). No caso de “Por que Avatar é idiota”, está disponível aqui na Bula mesmo.
Gente demais
(Crônica publicada no jornal O Popular de 9 de agosto)
Tem gente demais no mundo. Carros e motos demais, filas pra tudo, cinemas, teatros, museus, parques, bares, restaurantes, pra todo lugar que se vai, é aquela cambuia de gente. Lazer vira desprazer. Trabalho vira suplício. E quanto mais gente, mais o ser humano revela seu lado animal. Seu lado lei do mais forte e mais esperto. Fura-fila é o que não falta. Porcos jogando papel na rua também (me lembra aquele curta do Eric Rohmer, La boulangère de monceau). Não tem estacionamento, lugar pra sentar, lugar na sombra. Você não consegue apreciar direito um quadro, um filme, uma peça, um jantar, um chope.
Por esse motivo, em tempo de eleições quebrarei o galho de candidatos dispostos a aproveitar idéias brilhantes e nem cobrarei por isso. Seguinte. Controle de natalidade não serve, pois eu e você (principalmente eu, claro) não desfrutaremos dele. Então é preciso reduzir a população desde já. Isso mesmo, você leu direito. Proponho matar pessoas. Mas, calma lá, não sem critérios rigorosamente éticos. Por exemplo, poderíamos começar eliminando os torcedores do Vila e as pessoas alérgicas a frutos do mar. Não me levem a mal, nada tenho contra essa gente. Aliás, é o exato oposto. O que proponho vem de uma compaixão profunda. Pra que eles querem continuar vivendo?
Pela mesma lógica (por que insistir numa vida sem sentido?), dizimaríamos as populações da Suécia, Suíça, Dinamarca e Noruega, pois eles são perfeitinhos demais, têm suicídios demais. Então a gente dá uma mãozinha.
Seguindo adiante, voltaríamos nossa atenção aos países super-populosos. No caso da China, pode deixar que o Partido Comunista faz o serviço. No caso da Índia é mais complicado, pois lá não há por um partidão, de forma que teríamos escrúpulos. Então a gente escolhe uma cidade maior, tapa o nariz, fecha os olhos, e joga uma bomba. Pronto.
No caso da Venezuela e da Colômbia, seus povos não têm culpa de ter os governantes que têm, então a gente elimina só o Chávez e o Uribe. Deixa o povo em paz. O mesmo não vale pra Argentina, que deverá ser sumariamente eliminada do mapa. Não se deve deixar escapar vivalma, que isso é feito praga. No Brasil acabamos com petistas e tucanos. Até o ar ficará mais limpo, eu garanto.
Algumas cidades devem ser mantidas, mas seus cidadãos eliminados e trocados por outros. Os nova-iorquinos devem todos morrer (com exceção de Woody Allen) e trocados pelos bostonianos. Com isso libera Boston pros brasileiros, de uma vez por todas. Os parisienses, que estão mais humildes com a crise, mas não enganam ninguém, é só acabar a crise que eles voltam a ser, bem, parisienses, devem ser trocados pelos madrilenhos. Com a vantagem de que Paris ficará aberta a noite toda.
Quanto aos parques de Orlando, na Flórida, a gente joga uma bomba (tapa o nariz, fecha os olhos, etc) no mês de julho. Acaba com as crianças, deixa só os aposentados de Massachusetts, que são inofensivos. Pra não perder a viagem, a gente joga uma bomba no Texas, no Arizona e nos estados simpatizantes do Bush.
A goianada a gente deixa em paz (exceto os vilanovenses). Tudo bem, um ou outro podemos trocar por mineiros, mas isso decidimos depois. O importante é por logo mãos à obra, que eu não agüento mais esse monte de gente no mundo.
Kantiano, ma non troppo
(Minha coluna na revista “Filosofia Ciência & Vida”, da Editora Escala, de 9 meses atrás. O que interessa está logo no começo, em vermelho, de forma que não precisa ler tudo se não quiser)
Na primeira aula de Ética para calouros de Medicina da Universidade Católica de Goiás, eu costumo fazer logo duas coisas, que é pra eles saberem de cara (o doido) com quem estão lidando. Já dou a questão da prova a ser realizada daí a dois meses e uma tarefa para casa. A comemoração por conta de saber com tanta antecedência o que vai cair na prova se esvai em sorrisos amarelos diante da questão proposta: O que é ética?
Como assim, professor, “O que é ética?”. O senhor quer uma dissertação de quantas páginas? Onde a gente pesquisa? O senhor quer ética médica? Qualquer ética? Pode não ser muito ético de minha parte (incoerência de um professor de ética?), mas confesso que saboreio sadicamente a angústia daqueles garotos e garotas (muito mais garotas! Absurdo, o mundo está sendo invadido pelas mulheres! Quem mandou deixar votar!), calouros de medicina, doidos pra estudar anatomia e fisiologia e vestir branco, sendo obrigados a “desviar sua atenção” para algo que, num primeiro momento, parece não ter nada a ver com eles. Num primeiro momento. Depois, paulatinamente, consigo fazer-lhes ver o quanto a reflexão ética tem a ver conosco, médicos e futuros médicos.
Mas o que me diverte mesmo é a “tarefa para casa”. Escrevo bem grande no quadro: “Eu não presto”. Daí peço para eles lerem. Surpresos, desconfiados, começam lendo baixinho. Mas eu insisto, peço para lerem cada vez mais alto, até chegar no nível de catarse desejado por mim. Então, prescrevo: vocês repetirão esta frase diante do espelho duas vezes ao dia por 30 dias. Alto.
Já desenvolvi aqui (“Os canalhas de Shakespeare e a natureza humana”, No.37 da revista) minha tese Hobbes-dawkinsiana (devo ser mais hobbesiano do que Hobbes) acerca da canalhice humana, de forma que não me repetirei, mas rogo a permissão do leitor para voltar ao assunto. Minha intenção com a tarefa é lembrar aos alunos que somos, todos, animais sem escrúpulos, egoístas, egocêntricos, nepotistas, vaidosos, orgulhosos, competitivos e, se necessário à preservação da espécie, cruéis, traiçoeiros e violentos. Apesar disso, temos um excelente conceito de nós próprios. Conjugamos o verbo “não-prestar” sempre na segunda e terceira pessoas com extrema facilidade, jamais na primeira. Parafraseando Descartes, inexiste no mundo coisa mais bem-distribuída do que um bom conceito de si próprio, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem[1].
A tarefa tem, portanto, duas utilidades. Uma teórica e outra prática. A teórica é deixar evidente a diferença entre as duas formas de abordagem ao estudo da Ética: descritiva e normativa. É ética descritiva a constatação de que o ser humano não presta. Disso não se depreende que não deva prestar. Será normativa a ética que tentar consertar isso. É o bom e velho “do ‘ser’ não se deriva — necessariamente — o ‘deve ser’”.
A utilidade prática está na tentativa de fazê-los ver o quão perigoso é confiarmos em nossa consciência como juiz de nossos atos. Como um doente que precisa primeiro admitir sua doença, é necessário que reconheçamos nossa “não-prestança” para ficarmos atentos e nos policiarmos constantemente. Não há nesse mundo juiz mais complacente do que nossa própria consciência[2]. “Manhattan” (1979), obra-prima de Woody Allen, nos ajuda a enxergar isso.
Isaac Davis (Ike, Woody) é um bem sucedido escritor para a TV. Namora Tracy (Mariel Hemingway, belíssima em seus 17 anos), mas não a leva muito a sério. Seu amigo Yale, casado, está tendo um caso com uma intelectual mal-humorada, porém charmosa e inteligente (Mary, Diane Keaton). Ike é um kantiano por excelência. Tão kantiano que não aceita mais fazer concessões artísticas e profissionais e desiste de seu excelente emprego na televisão. Yale é um utilitarista que não comete grandes pecados, e, quando os comete, toma cuidado para não machucar ninguém. Ou, pelo menos, o menor número de pessoas. Como não tem coragem de se divorciar, Yale termina seu relacionamento com Mary e a “empurra” para Ike, que acaba por se apaixonar, terminando o seu com Tracy.
Acontece que Yale se arrepende e começa a se encontrar com Mary às escondidas. Finalmente, Mary confessa a Ike que, fulo da vida, vai até a escola em que seu amigo leciona para confrontá-lo com suas mentiras. A cena da conversa entre os dois, com um esqueleto ao fundo, é antológica. Yale, hipocritamente, se defende: “Não venha transformar isso numa de suas grandes questões morais!”. Ao que Ike retruca: “Você é muito mole com você mesmo! Você racionaliza tudo! Não é honesto consigo mesmo!”. E então Yale lembra a Ike o grande conceito que ele faz de si próprio: “Você pensa que é Deus!”. Ike: “Eu tenho que ter me espelhar em alguém!”. E, apontando pro esqueleto: “Um dia nós acabaremos como ele. (...) É importante ter integridade. Um dia estaremos dependurados numa sala de aula. E eu quero que tenham um bom conceito de mim quando isso acontecer!”[3]
Se “Manhattan” fosse de outro diretor que não Woody Allen, seria uma peça de óbvia maniqueísmo (ou de maniqueísta obviedade). Mas é de Woody, o maior filósofo contemporâneo (notem que eu não disse “o maior cineasta”, apesar de também o ser. Quem suspeita de uma provocação aqui está bem próximo da verdade). O que equivale a dizer que há muito mais no filme do que sonha nossa vã primeira impressão. Woody deixa várias pistas pelo caminho de que seu personagem só tem pose de kantiano. No fundo não passa de um reles utilitarista (no sentido neutro do termo) como o resto dos personagens. Senão, vejamos.
Logo no início, na cena tipicamente Woody-alleniana (pessoas conversando intelectualidades em torno de uma mesa de restaurante), Ike propõe o dilema moral camusiano[4]: “E se víssemos uma pessoa se afogando num rio gelado? Quem de nós teria nervos para salvá-la?” E em seguida sai-se com essa malandragem: “Claro que esse não é um dilema para mim, pois eu não sei nadar”. Mais adiante, quando a biografia não-autorizada do casal, de autoria uma de suas ex (Meryl Streep, belíssima em seus 29 anos) vem a público, todas as suas idiossincrasias são desnudadas, o que nos dá a oportunidade de enxergar seu lado B, nada kantiano. E, no fim, ao correr de volta pros braços da adolescente Tracy, seu egoísmo descarado contrasta com a maturidade da garotinha recém-saída da “high school”[5].
A verdade é que, apesar do ser humano não prestar, há nele uma sementinha kantinana, pronta a ser cultivada pela evolução. O autor da coluna de Cinema & Filosofia do número 300.000 da revista “Filosofia Ciência & Vida”, no ano de 900.000 DC, certamente será menos ranzinza e mais otimista do que eu.
Woody Allen, o maior filósofo de todos os tempos
Há várias maneiras de se fazer filosofia. O cinema é uma delas. Há vários bons cineastas-filósofos. Woody é o melhor deles. A literatura que o cerca (dele, a respeito dele e a respeito da obra dele) é vasta. Sua prosa está disponível no Brasil por meio da editora L&PM, entre eles um que é de leitura obrigatória: “Three one-act plays. Riverside Drive. Old Saybrook. Central Park West”(Random House, 2004; no Brasil saiu como “Adultérios”, L&PM, 2008). Uma coletânea de entrevistas (“Conversations with Woody Allen”, Knopf, 2007) realizada pelo seu melhor biógrafo, Eric Lax, está disponível no Brasil pela Cosac Naify (“Conversas com Woody Allen”). Entre as muitas abordagens críticas, eu destacaria “Woody Allen and Philosophy” (Open Court, vários autores, 2004), “The films of Woody Allen” (Sam Girgus, Cambridge University Press, 2002), “Woody Allen, a life in film” (Richard Schickel, Ivan R. Dee, Publisher, 2003), “Eighteen Woody Allen Films Analyzed. Anguish, God and Existentialism” (Sander H. Lee, MacFarland & Company, 2002) e “The films of Woody Allen. Critical Essays” (vários autores, The Scarecrow Press, 2006). Há ainda um bom livro de autora brasileira (“Woody Allen”, Neusa Barbosa, Editora Papagaio, 2002). “O que Sócrates diria a Woody Allen”, de Juan Antonio Rivera (Planeta, 2003), a despeito do que dá a entender o título, dedica espaço mínimo a Woody.
“Manhattan”, o filme, está disponível isoladamente ou na caixa com “Annie Hall”, “Love and Death” e “Tudo o que você queria saber sobre sexo mas tinha vergonha de perguntar”, pela MGM. Compre a caixa. Assista 47 vezes, cada um, antes de morrer.
[1] “Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem.” Este genial insight cartesiano está logo no começo do “Discurso do Método”.
[2] Há todo um número da revista The American Journal of Bioethics, de dezembro de 2007, dedicado ao tema e... sem se chegar a conclusão alguma (Clash of Definitions: Controversies about Conscience in Medicine).
[3] Esses pedaços de diálogo são tradução livre minha do trecho do roteiro disponível na página 265 de Four Filmes of Woody Allen. Annie Hall. Interiors. Manhattan. Stardust Memories. Random House, 1982.
[4] Há algo parecido n’A queda de Albert Camus (na edição da BestBolso está na página 54).
[5] Christopher J. Knight chama a atenção a esse detalhe também, que a que aparenta mais maturidade no filme é justamente a adolescente Tracy (Woody Allen’s Manhattan and the Ethicity of Narrative. In: The films of Woody Allen. Critical Essays (Charles L. P. Silet, Ed.), The Scarecrow Press, Inc., 2006, p. 145-155).





