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POR EM 06/04/2009 ÀS 05:17 PM

Gente branca de olhos azuis

publicado em

Tenho lido muitas coisas pela internet e não me gabo por gastar o tempo assim. Os livros fitam-me inconsoláveis das estantes de casa, ávidos por manuseio, retendo em suas páginas o relegado aroma da tinta. É um sentido que o computador ainda não despertou em mim.

E a gente encontra cada coisa na internet... Recebi uma mensagem endereçada por um amigo na qual é feita uma peculiar reflexão a respeito desta “crise financeira” da qual a imprensa não se cansa de insistir e falar. De tanto martelarem no assunto, acabamos numa ansiedade doentia. Será que dá pra algum jornalista nos explicar como é que se sai de uma “crise” se não for através do trabalho?!

Voltando ao assunto: a tal mensagem demonstrava através de uma aritmética bastante simplista como findaria a pobreza no mundo, caso esta fortuna (os líderes do G-20 falam em 1 trilhão) despejada pelas nações nos bancos e nas grandes corporações fosse rateada entre a população do planeta. Nas contas do matemático anônimo, rachando toda a grana em partes iguais, cada habitante da Terra faria jus a alguns milhares de dólares. De um dia para o outro, não haveria mais pobres.

Se pensarmos mesmo com calma, dá vergonha admitir que a pobreza e a miséria ainda persistam em pleno século XXI. Na minha cidade, por exemplo, um mórbido debate permeia a sociedade. Nos últimos meses, é notória a proliferação de crianças e adolescentes esmolando nas ruas e praças. A Prefeitura se defende negando o óbvio, garantido que a mendicância está controlada, normal, aceitável, e insinua que as denúncias se devem à implicância política da oposição.

A verdade é que não dá pra parar no semáforo sem manter os vidros fechados, as portas travadas e os olhos bem abertos. Meninos e meninas entorpecidos pelo vapor degradante da cola e dos solventes pousam suas mãozinhas encardidas nos vidros dos automóveis. Há motoristas que praguejam, ameaçam a pivetada, mais preocupados com os possíveis danos à pintura do veículo do que com as causas de tamanho disparate. Cuidado, gente fina! Vão-se os anéis e os dedos também.

Está escrito na Constituição Federal, mas não vale. Ainda há milhares de cidadãos passando fome no Brasil. A despeito de tanta modernidade, avanços tecnológicos e científicos, ainda há uma gente desafortunada que mora nas ruas e não tem sequer onde tomar um banho para se livrar dos odores naturais e da imundície do abandono. Quisera esses excluídos pudessem fazer um asseio nos rios e córregos que cortam as cidades brasileiras, escandalosos esgotos a céu aberto.

O Presidente do país, piadista sempre muito falante, adepto às metáforas de mau gosto, afirmou que os responsáveis pela crise financeira são pessoas brancas de olhos azuis. A charada insana, além de não apontar para soluções, serviu para acirrar as demandas racistas e dar trabalho para os diplomatas brasileiros.

Tenho um casal de filhos de pele branca e olhos cor de castanha, castanha de baru, fruto do cerrado brasileiro. Eles se banham duas vezes ao dia, escovam os dentes (ainda que à custa de muita vigilância) três vezes ao dia, vestem roupas limpas cheirando à lavanda, dormem em quartos separados, e sonham em suas camas quentinhas e seguras.

São crianças admiráveis, saudáveis, vacinadas, educadas, cujos pecadinhos mais relevantes não passam de traquinagens inofensivas. São seres humanos que tiveram a sorte de nascerem no seio de uma família de classe média.

É duro admitir, mas estou convicto que estas duas criaturas poderiam engrossar o exército de miseráveis que pedem migalhas nos recantos da cidade, caso vivessem no numa favela insalubre no qual milhares de brasileiros pelejam.

São redutos em que a água tratada não chega, e faltam comida, atenção e civilidade. Barracos feitos de lona e sucata, puxadinhos onde convivem famílias numerosas dividindo o mesmo cômodo, descansando suas carcaças desnutridas, fazendo sexo sem a mínima privacidade e tendo uma coleção de pensamentos detestáveis contra o resto da sociedade.

Em geral, são famílias com dilemas existenciais variados, um ambiente onde o medo, a violência, o alcoolismo, o uso de drogas e a pedofilia tornam as vidas destas pessoas desafios cada vez maiores.

Frequentemente, o cidadão se apavora e pergunta como é que pode tanta brutalidade nos dias de hoje. Como é que cabe tanta frieza nos meliantes? Nem precisa ser um psicólogo ou sociólogo para concluir que isto se deva tão somente às faltas de escolas públicas, presídios, munições para as polícias, medicamentos nos postos de saúde, camisinhas.

Não. Trata-se da primária falta de respeito à dignidade humana. É uma questão que deveria ser prioritária aos governos, em todas as suas esferas. Tinha que ser lei, uma espécie de pacto: proibido que pessoas passem fome e frio! Os Poderes Executivo e Judiciário jamais deveriam permitir que cidadãos, fossem eles adultos ou crianças, morassem, esmolassem e se deteriorassem nas ruas. É uma vergonha inconcebível.

Não duvidem, leitores: criados na anarquia e no caos, os meus, os seus, os nossos filhos, mesmo aqueles de olhos azul-turquesa, dariam bandidos da pior estirpe. Não há mente que sobreviva incólume ao abandono, à violência, ao desafeto. O homem é assim mesmo: bom ou mau. Só depende do berço.
 

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