Fumando cracks da Copa
É incrível. Parece que 2010 nunca vai começar. Êita, calendário estranho! Reza a tradição que por aqui o ano fiscal só principia depois do carnaval. Só que, então, surge a Copa do Mundo de Futebol, e não se fala noutra coisa. Na visão do brasileiro, o globo terrestre estacionou no tempo neste mês de junho. Coisa mais chata...
E mais: depois da Copa da África começa a campanha eleitoral para as eleições de outubro, período no qual candidatos ficha-suja mentem à beça para conquistar o voto fácil e impensado de otários. Será que eles serão mesmo impugnados? Enfim, com a pauta brasileira trancada mais uma vez, sinto como se 2010 tivesse nascido morto.
Recentemente, reencontrei uma amiga, profissional da saúde que há anos cuida de pacientes alcoólatras e viciados em drogas de todo tipo. Magda trabalha num hospital psiquiátrico e me contou que anda muito aflita. A dedicada doutora garante que, de fato, o crack tomou conta da cidade.
Ela se diz desassossegada com o incremento da “legião de zumbis”. De tratamento complexo e pouco eficiente (contam-se nos dedos aqueles que escapolem da lama), o vício pelo crack atinge homens e mulheres de todas as idades e classes sociais, inclusive “filhos de gente rica”.
Sempre que atende uma criança viciada, Magda se sente acuada, deprimida, impotente, apesar da longa experiência profissional. Em momentos de cansaço e “fraqueza”, pensa na própria filha adolescente, bailarina apaixonada pela dança: “E se fosse com ela?”, ela reflete apavorada (ainda que seja treinada para lidar com mentes medrosas e moribundas).
Magda sabe que a filha, mesmo criada num ambiente doméstico estável, fica constantemente exposta ao risco das drogas. Arrebatada pelo vício, ela sucumbiria sim à doença, apesar de toda estrutura educacional e afetiva a que teve acesso (coisa rara nos dias de hoje; pais que não têm tempo para ouvirem os filhos).
A psiquiatra sente-se desconfortável porque sabe que a filha, uma vez capturada pela droga, não hesitaria em mentir, furtar, agredir e até matar. Ajustar-se aos viciados, tentar demovê-los do vício valendo-se de discursos sentimentais ou altruístas é pura perda de tempo. Simplesmente não se espera que um ser humano cuja mente esteja corrompida pelo crack sinta-se “tocada” pelo choro de uma mãe ou os argumentos racionais de um pai. A “fissura” não respeita parentesco, ética, moral, nem o suposto amor (sentimento mais relegado a cada dia).
Estupefato, ouvi um representante do Ministério da Saúde assumir em recente entrevista que o Governo Federal não faz ideia do real contingente de viciados em crack no Brasil. Às pressas, um levantamento dos dados está sendo providenciado. Ao que parece, as autoridades em Saúde Pública finalmente despertaram para a gravidade do fato e estão se mobilizando, tirando o atraso, correndo atrás de estatísticas para dimensionarem o tamanho do estrago social que o fajuto entorpecente tem impingido ao país.
Alheios às planilhas e à deficiência de informações oficiais, os moradores das grandes cidades convivem diuturnamente com a realidade nua e crua do vício, uma vez que os “escravos da pedra” perambulam pelas ruas numa busca frenética e vergonhosamente marginal (para toda a sociedade) a fim de aplacarem o desejo incontido.
Assustada com a epidemia, a população clama por ações dos gestores públicos, mas é surpreendente constatar que não existem programas oficiais específicos, e nem locais apropriados onde acomodar e tratar os degradados sociais. Chamar a polícia, prender os sujeitos, surrá-los, exterminá-los, nada disto resolve, pois é a forma mais covarde e medíocre de lidar com o problema. Não é caso de polícia, mas de educação e saúde.
Hoje, vi pela TV que o atleta Jobson foi reapresentado com muita festa à torcida botafoguense, no Rio de Janeiro. Flagrado pelo exame antidoping, o atacante assumiu o uso de crack e foi suspenso por seis meses. O clube carioca apoiou o atleta e bancou seu tratamento. Uma atitude inusitada, digna, solidária, e que deveria ser seguida pelas autoridades públicas responsáveis pela Saúde Mental no Brasil.
Sinceramente, não me preocupo com “vuvuzelas”, não me sinto incomodado com as provocações do Maradona (este, também ex-viciado em drogas), e nem sei se os craques brasileiros vão ganhar a Copa. Porque, no placar da vida real, estamos perdendo de goleada.





