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POR EM 02/01/2010 ÀS 06:19 PM

Frio, sombrio e vazio

publicado em

Foi assim o primeiro dia de 2010, passados os momentos de euforia da contagem regressiva e da virada do ano. Janeiro se inicia. Cadê todo mundo?, podia-se perguntar naquele primeiro dia do ano, como num conto de Reymond Carver, contido no livro “Iniciantes”, que se recomenda e se encontra nas livrarias. Com a virada do ano, veio a virada das águas. Tempo chuvoso, dia sombrio, cidade vazia, silêncio. Salvo umas sobras babacas de foguetes, peidando o dia inteiro e apavorando os pobres cachorros de todo mundo, cujo sistema auditivo não suporta estouros de bomba, cães  havendo que até sofrem parada cardíaca e morrem. No mais, naquele dia, nem buzinas, nem risos, nem relinchos, seres humanos havendo que relincham ao invés de rir. Uma gente quadrúpede, se estão me entendendo, oriunda dos estábulos nas trevas da ignorância, bufando e escoiceando com a sua peculiar estupidez. Pois é com algumas pessoas assim, em meio às de melhor qualidade, que vamos atravessar 2010. Se me dizem que ninguém é melhor do que ninguém, ouso exibir meu sorriso de desdém. Por outro lado, sustento que, malgrado as diferenças, todos os homens se igualam no vaso sanitário e no caixão.

A convulsão dos elementos. Toda a água do mundo. Um céu cinzento, cambiante a negro. Mortes no Rio. Ilha Grande. Angra dos Reis. Morro da Carioca. Morro abaixo às toneladas. A terra e as pedras da destruição. Com água e tudo. Quebra, fragmentação, soterramento. Casas, vidas e utensílios. Moradores e turistas. Jovens, adultos, idosos, crianças. Todos. Funesto “Réveillon”. Um dia muito triste. Um desses que parece mesmo sem Deus. A ausência Dele. E uma dor que perdura, tão dura de suportar quanto o peso da terra e das rochas morro abaixo. O primeiro dia do novo ano. Parido com muita dor, pela hora da morte, sob o manto negro da noite. Um dia que, aceso pelos fogos, haveria de vir luminoso como o sol que seria de trazer para toda a humanidade. Mas não foi assim que ele veio, como assim não foi que ele chegou. 

De um sol que mal se abriu, 2010 deu o ar de sua “graça” no Brasil. Graça nenhuma, com tamanha desgraça caindo sobre as cabeças, simultaneamente ao júbilo dos fogos, às saudações do Ano Novo, ao espetáculo piroténico das esperanças de um povo. E aqui a fala sincopada da perplexidade que se escreve ao que descreve, com o peito opresso, com a voz embargada. Quinta-feira, 31 de dezembro de 2009. Chove sobre os morros do Rio de Janeiro, como chove em outros estados, causando mais estragos e outras mortes. Chove fortemente no litoral carioca. A torrente castiga Angra dos Reis e atinge, sobretudo, a Ilha Grande, com maior impacto na Enseada do Bananal, ali a Pousada Sankey e as casas próximas. 

Quase cinquenta horas de chuva. Sobrevem um grande deslizamento. Morro abaixo. Chove muito sofrimento. Tristeza muita. Terra e água e pedra e lama e corpos humanos amalgamados numa liça de morte, dor e desolação. Ilha Grande está de luto. Ali com os escombros de uma grande tragédia. A procura dos corpos. O resgate das vítimas. Fatos, imagens e cenas que se repetem a cada ano, em várias partes do país. 

Divulga-se que a Pousada Sankey, na Praia do Bananal, “ao contrário do que dizem os boatos, era totalmente regular, registrada no Ministério do Turismo e costruída em área permitida, ou seja, totalmente dentro das normas de edificação”. Os donos da pousada, Geraldo e Sônia, perderam a filha única, Yumi Amanishi, soterrada com um grupo de oito amigos. Acima de tudo, o que pesa neste momento são as pedras e a dor das perdas. No desabamento do Morro da Carioca, no Rio, uma só família perdeu dezesseis parentes. 

Condolências a todos. Difícil encontrar palavras que amenizem tamanha dor. Aquele que ainda crê, certamente reza num gesto de solidariedade a essas enlutadas famílias. Eu só me entristeço. Não encontro mais a fé. Há anos que isso acontece comigo. Então eu só me condoo do meu semelhante e me entristeço, impotente e mesmo revoltado com as coisas contra as quais nada podemos. E dizem que aquele que crê, tudo pode. Pudera a mim poder tanto assim. Sim, numa hora dessas, eu gostaria muito de ser Deus. Mas não passo de um mísero homem no contexto universal e no esquema natural das coisas. Dói-me a vida, como me dói o sofrimento dos outros. Fico em estado de choro, acreditem ou não. Mas sei que isso nada resolve. Fico aqui desamparado. Vontade de gritar “Mamãe!”, “Papai”, que não estão mais neste ilusório mundo. 

A fatalidade atingiu Angra dos Reis, e não encontro palavras de conforto. Só mesmo a tristeza. Uma tristeza enlameada, que rola pelos morros e soterra-nos o coração. Sensação de uma cósmica sozinhez — a nossa no mundo —, assim de meninos largados pelo Supremo Criador, Arquiteto do Universo, como dizem os maçons. 

Sabe-se que um decreto do governador Sérgio Cabral amplia a ocupação de áreas protegidas e a construção de empreendimentos nas ilhas da Baía da Ilha Grande, inclusive a Ilha Grande e a Ilha da Gipóia. Pertinente observar que a tragédia na Praia do Bananal é um recado, como tantos outros já enviados pela natureza. Imagine-se o que mais vem por aí. 

A saber até onde vai a especulação imobiliária e que valor se dá, realmente, à vida humana, paralelamente à preservação do meio ambiente. Parece possível que a repetição das tragédias anunciadas pela natureza, com tanta destruição e sofrimento, nada pesa na consciência de especuladores e de governantes. Eles que, muitas vezes, quando não vêm de cima para baixo — a pirâmide do poder —, vão morro acima, antes de o morro vir com tudo abaixo, como um atestado de óbito. Ou boletim de ocorrência e de ordem criminal.

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Comentários (3)

  • tenho, sim, que corrigir: pousada sankay, e não sankey, como escrevi. in memoriam.

    2 anos atrás por braz
  • ... onde se lê "Cadê todo mundo?", leia-se:"Cadê todo mundo com que eu poderia contar, nessa hora do pega pra capar?". Uma sorte que temos, como criaturas viventes, é que os morrentes (os que morrem)são sempre os outros. Mesmo assim (ou talvez por isto) é uma dor atroz. Em casos de pais que perdem seus filhos ainda crianças, serenamente trocariam de lugar,pensando em dar vida aos que vêm chegando. Enfim, para não ficar muito sombrio, à guisa de faísca de ironia, vai um verso de Bertlt Brecht:"Todo Homem honesto tem que ter uma porta de entrada e uma de fuga em sua casa, porque será perseguido".

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Braz, partilho da mesma dor e da mesma sozinhês de achar que Deus se ausentou para tirar um cochilo, quando morrem crianças, em tragédias como estas. Este findar de ano foi doloroso para muita gente em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Angra dos Reis.Tempo chuvoso e sujeito a trovoadas de tragédias sobre a face das águas.Não é hora de procurar culpados, se existem, mas você tem razão:a ocupação desordenada e irresponsável de áreas de risco, incentivada ou tolerada via populismo político, contribuem para o desastre anunciado. Dizem que houve miagração em massa para Angra, por parte de gente buscando a grana do royalt, que ninguém sabe o que é, e jamais verá sua cor, ou buscando oportunidades no turismo. Todo ano a natureza dá seus recados, ignorados pelo rol das vítimas, filhos e filhas insensatas do jardim dos desavisados.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio


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