Flagelados da chuva
Chovia. Chovia. Como chovia! Como se a chuva quisesse apagar a memória de um clima ameno, quando era possível viver confortavelmente naquele recanto de vale. Agora o rio era mar, a rua era rio e a enxurrada derrubava tudo feito horda de bárbaros enfurecidos. Estávamos num dilúvio sem arca.
Em suspenso, como se amparando apenas nos mútuos apoios, a gente se acotovelava sobre os móveis mais altos, dentro da casa, dentro do mundo, fora da proteção civil, clamando pelos céus. E chovia, como se a chuva agora fosse o dom natural do tempo.
Pela fresta da janela vi quando veio uma onda, desgarrada do cimo da serra em busca do Vale do Rio Itajaí. Nossa casa, pobre casa! – não haveria de resistir àquela vergasta. Num berro de alerta mobilizei minhas forças e minha família. Num átimo saltamos dentro da chuva rumo a um local mais seguro. Antes que alcançássemos o morrote ali nas cercanias, a onda nos pegou. Nossa casa desceu moída.
Fomos arrastados pelo turbilhão. O rugir das águas sujas se misturava aos nossos gritos desesperados. Fomos ancorados por uma pedra abaixo. Minha mãe já não requeria cuidados: estava morta. Meus filhos estavam escoriados, mas alertas e prontos para se defenderem, até a cima dos limites de suas forças. Minha mulher, coitada, grávida de oito meses, parece que teve antecipadas as dores do parto.
Deixando minha mãe para trás, começamos a empreender nova caminhada rumo à área menos vulnerável. Demos apenas alguns passos transversais, – passos difíceis, atolados, escorregadios. Foi quando vi que nova onda descia em nossa direção. Meu coração desabalou, mas não era possível imprimir maior velocidade em nossa fuga.
A onda agora era mais densa, quase um barro é que era. Como um azorrague, ela nos bateu sem piedade. Gritei por Deus. Minha mão escapou da mão de minha mulher. Minha mulher, com nosso filho dentro e nosso casal de filhos de fora, foram arrastados como se fossem detritos na fúria das ladeiras. Surfei a onda de barro como um surfista improvisado. A onda amainou-se muitos metros abaixo.
Pude perceber que minha família ainda se debatia e lutava pela vida, tentando erguer-se do visgo da terra. Comecei a cavar com as unhas, com as forças do desespero. Cheguei até descobrir o rostinho de minha filha, que deu um grito de sinal de vida.
Aí, sem que eu visse, é que veio a terceira onda. O arremate da tragédia. Um carregamento de terra que desamarrou-se da encosta e veio deslizando furiosamente, recobrindo tudo o que as ondas anteriores haviam colocado por terra.
Minha família ficou soterrada. Eu, como estava mais na superfície, fui empurrado aos trambolhões. E não vi mais nada. Só vi quando já estava aqui neste quarto de hospital. Dizem que, por um milagre, fui salvo por um bombeiro.
Eu só sei que tinha planos, eu tinha sonhos para meus filhos e minha mulher amada, o amor da minha vida. A gente já havia comprado roupinhas para o filho que ia nascer. Escolhido o nome. Ia ter o nome do avô. Agora nem sei...















