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POR EM 26/01/2012 ÀS 12:32 PM

Felicidade suprema

publicado em

Às vezes vale a pena pensar sobre a vida. Não sobre o que temos ou não consumido, tampouco a respeito do que fizemos ou deixamos de fazer. São aspectos factuais que, mais do que ajudar em uma reflexão mais profunda, tornam-se barreiras ao pensamento abstrato, aquele onde vamos encontrar as verdadeiras significações. Chegamos quase à Ideia de Platão, mas aí já o terreno é extremamente perigoso e podemos nos enredar.

Tentar entender o que é a felicidade talvez seja um dos caminhos para se chegar ao sentido da vida. É um assunto para o qual não há dona de álbum de pensamentos que não tenha uma resposta pronta: A felicidade não existe. Existem momentos felizes. Essa é uma verdade chocantemente inócua, pois não chega a pensar o que seja a felicidade como também não esclarece o que são tais momentos felizes. Pois bem,

O assunto me ocorre ao me lembrar de que vivemos em uma sociedade excessivamente consumista, sociedade em que a maioria considera-se feliz se pode comprar. Assim é o capitalismo: entranha-se em nossa consciência essa aparência de verdade fazendo parecer que os interesses de alguns sejam verdades inquestionáveis. O que é bom para mim tem de ser bom para todos. Isso tem o nome de ideologia, palavra tão surrada quão pouco entendida. E haja propaganda para que a máquina continue girando. Não sou contra o consumo, declaro desde já, mas contra o consumismo. Erigir o consumo de bens materiais (principalmente) como o bem supremo de um ser humano é tirar-lhe toda a humanidade, é reificação.

Para Diógenes, filósofo contemporâneo de Aristóteles, a felicidade, a verdadeira realização de uma vida, consistia em alcançar o autodomínio e a liberdade espiritual. E Diógenes viveu o que pensou. Para tanto, vivia em um barril, desprezava a opinião do mundo e os bens materiais.

Conta-se que Diógenes saía à rua em pleno sol com uma lanterna na mão. Indagado sobre o que fazia, costumava responder que estava à procura de um homem, mas de um homem de verdade.

Mas eis que aparece Schopenhauer, aquele mesmo, o inimigo do Hegel, e desenvolve seu sistema filosófico quase todo sob a convicção de que o ser humano só pode ser infeliz. É o filósofo do pessimismo. Às vezes sinto-me tentado a pensar que o Schopenhauer, lá do século XIX, já vislumbrava nossa época, a sociedade do consumismo desenfreado. Ele afirmava que o desejo é a regência do mundo. E que desejamos é aquilo que não temos. Portanto, somos infelizes. E se o desejo é satisfeito com a obtenção de seu objeto, novos objetos surgem em seu caminho. Esta insaciabilidade do ser humano é que o vai manter preso à infelicidade.

Bem, e a que chegamos? Enquanto alguém que circule melhor do que eu pela filosofia, que mal tangencio como curioso, vou continuar pensando que a vida não tem sentido, apenas existência. E isso, um pouco à maneira do Alberto Caeiro, para quem pensar é estar doente.

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Comentários (6)

  • Uma beleza o texto, irretocável. Tomei a liberdade de publicá-lo em meu blog aqui em campo grande, ms.

    1 semana atrás por MANOEL AFONSO
  • Parabéns pelo texto, perfeito.
    Sem querer fazer nenhum tipo de merchandising, mas esse texto ajuda a espressar muito bem toda a nossa cultura cosumista, empregada em nossas mentes no dia a dia, como conta gotas de frases de efeito. Tenho ira ao ouvir o slogan de uma certa rede de magazines, que ao final de suas massantes propagandas de ofertas "imperdíveis" apresenta o slogan "VEM SER FELIZ!", como certeza de que nossa felicidade está em comprar, e melhor ainda para eles, se comprarmos lá, ai sim seremos "felizes".


    3 semanas atrás por Osvaldo
  • Outrora, andei à cata de formação na filosofia, galgando uma graduação apenas começada, de onde sai para as Letras e para o autodidatismo de estudante de filosofia. Agora mesmo puxei um volume pequeno da estante, "Vidas de los filósofos más ilustres", de autoria de Diógenes Laercio, publicado pela Espasa-Calpe, da Argentina. Enfim... O Nietzsche tem certa razão: cada filósofo é a filosofia. À parte isso, a felicidade tem um excelente tratamento na literatura do Tolstói, nas novelas curtas. O filme "A última estação", que tematiza a fase final da vida do escritor de Guerra e Paz, também nos dá uma dimensão do que foi a busca da felicidade ao lado da condessa.

    3 semanas atrás por Wagner Coriolano
  • Texto simples que expressa ideias e questionamentos comuns a todo ser humano. Penso que a culpa não seja do consumismo, aliás, não é um sistema ou uma ideologia que represente toda a problemática. São questões, muito bem observadas no início do texto, estritamente individuais. O saber real acontece subjetivamente. Quando nossa busca pela saciação de nossos desejos estiver concluída estaremos aptos a morrer. Logo, atingir a felicidade s

    3 semanas atrás por Karen Greco
  • Excelente texto. Eu concordo contigo e o pior de tudo é que tenho consciência disto, mas cara é difícil separar as coisas quando se está vivendo isto.

    4 semanas atrás por Linkowski
  • Gostei do texto.....A felicidade como assunto vem me acompanhando há algum tempo, tanto que até escrevi um texto intitulado: "E a felicidade, é quando?" no blog taemchoque.wordpress.com
    No texto discuto a respeito do querer sempre mais e nunca se satisfazer...
    As ofertas são inúmeras e incessantes....o que fazer? se entregar a essa busca ou ficar consciente do que a vida está se tornando.....
    Oh céus, oh vida....
    http://bit.ly/w5o6qx

    4 semanas atrás por Gabriela Giamoniano


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