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POR EM 19/04/2010 ÀS 09:44 AM

Eu, o papa e o casal Nardoni

publicado em

Quisera eu pudesse me sentar à mesa de um boteco (poderia também ser uma mesa do Vaticano cravejada com crucifixos de ouro maciço) tendo a companhia do papa e do casal Nardoni. Tomando cerveja popular em copos reciclados de requeijão cremoso (ou vinho tinto italiano em cálices de prata), haveríamos de debater a respeito dos mistérios da existência humana na Terra. Para início de conversa: como se explica tanta violência contra as crianças ao longo da história?

 Recentemente, a imprensa mundial divulgou, com a volúpia que lhe é peculiar, denúncias nas quais o Papa Bento XVI (por que não nunca fui com a cara deste papa?! Seu olhar me lembra aquele da personagem de Jack Nicholson no thriller “The Shinning”...), quando cardeal, teria protegido, acobertado, aliviado a barra de padres pedófilos na Alemanha e nos EUA.

Segundo foi amplamente divulgado pela imprensa, um deles teria molestado mais de duzentas crianças em Miami (total e maliciosa deturpação do preceito cristão “vinde a mim as criancinhas”...). As crianças teriam ido, sim, para o colo do padre, ludibriadas ou forçadas a tal, inclusive meninos surdos de uma escola norte-americana. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça!

As denúncias federam e o Vaticano bradou raivosamente, reclamando de uma suposta campanha desmoralizadora da imprensa contra igreja, comparando a “propaganda” ao massacre anti-semita da Segunda Grande Guerra. Os massacrados, no caso, seriam os religiosos, e não as crianças abusadas. Entendeu?

Estas estórias de padres tarados ou galanteadores são bem antigas, mas não se pode afirmar que a desvirtuação sacerdotal seja frequente, sob o risco de se cometer difamações e injustiças imperdoáveis. Embora pareça uma instituição bem rica, ainda sobra caridade dentro da igreja. O fato é que os pedófilos costumam buscar profissões e atividades que as aproximem das crianças, vítimas prediletas, facilitando o assédio e abuso às escondidas.

Quanto aos Nardoni, a sociedade, através do tribunal do júri, acreditou no trabalho da promotoria e os considerou culpados (qual teria sido o efeito da mídia sobre a decisão?!). Segundo ficou demonstrado nas provas técnicas, por mais incrível que pareça, o casal atirou mesmo uma garotinha pela janela do apartamento, após feri-la gravemente.

Por mais travessa que seja uma criança, é revoltante saber que adultos tirem proveito da vantagem física para surrar e maltratar os menores. Ainda mais indigno quando as agressões ocorrem dentro de casa, aplicadas por familiares frustrados que deveriam cuidar deles ao invés de maltratá-los.

Sentado numa poltrona confortável dentro de uma UTI hospitalar, fico desconfortável ao mirar o corpo inanimado e silencioso de uma criança, um pequeno e querido parente. Ontem, a equipe médica revelou: “Sentimos muito, mas há morte cerebral”. A notícia espatifou os corações dos pais e familiares, ceifando qualquer esperança de cura e recuperação. “Esperamos apenas que o coração pare de bater para que os equipamentos sejam desligados, o corpo recolhido, e o leito preparado para receber outras crianças gravemente enfermas”, explicou um dos médicos. Quanta miséria: chorar um morto que ainda vive... Crueldade ou avanços tecnológicos da ciência?!

Enquanto os pulmões do paciente que eu pajeio respiram, impulsionados artificialmente por uma máquina de última geração, admiro a enfermeira que nele dá banho, corta suas unhas compridas, apara os cabelos anelados. Promovo-a a mártir dos desvalidos, pois é assim que eu me sinto. Eu rio contido, crendo que talvez se trate de um anjo asseando outro. Então me recordo de uma frase engraçada do velho Múcio, um médico aposentado: “Todas as enfermeiras vão pro céu; médicos, só a metade...”.

No isolamento da madrugada, entre os bips dos equipamentos e gemidos infantis (ah... como este mundo é doente...), reflito sobre a vida e a morte (em especial, quando envolve crianças), perdido em contradições e desesperança, ao ponto de idealizar um sacrílego-surreal “happy-hour” nas companhias do papa e do casal Nardoni, um colóquio que talvez elucidasse a minha mente, um acontecimento tão improvável quanto aplacar a descrença que hora me destrói.

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Comentários (1)

  • Cada dia que passa mais me convenço de que o Homem é mais animal que racional.

    2 anos atrás por Maria José Speglich


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