Está ruim, mas vai piorar um pouco
Viver juntos sob o mesmo teto, mais que amor, exige paciência. Conheço uma senhora já avançada na quarta década que quase se separou do marido por causa de divergências sobre cirurgia plástica. Ela queria. Ele não. Ela insistiu. Ele garantiu que largasse mão daquilo, que não se importava mesmo, que ela estava muito bem daquele jeito. “Sim, senhor, eu faço se eu quiser, o corpo é meu!”. Ela fez todas as quatro cirurgias (face, orelhas, peitinhos e barriga), isso sem contar a lipoescultura que chupou economias, sangue, plasma e gordura dos quadris, das coxas e da bunda. A equipe cirúrgica foi brilhante...
Questionada pelas amigas porque se indispusera com o maridão, a ponto de quase se desquitar, ela garantiu que fez a cirurgia com a intenção de agradá-lo, porque o amava e queria manter acesos o tesão e a paixão. As amigas, evidentemente malvadas, sabiam da verdade, e riram por dentro. Sim. Claro. Ela, como sói acontece à maioria das mulheres, operou para satisfazer o restante das mulheres do mundo e, quem sabe, ela própria. Vá entender o que se passa na cabeça de um ser humano, ainda uma mulher, sempre tão sensível, emotiva, atributos que a tornam sofredora, embora, mais evoluída do que um homem.
Aliás, li no jornal de hoje que dois rapazes de uma pequena cidade interiorana estão internados no Hospital de Urgências de Goiânia, em estado gravíssimo, dando muito trabalho para Deus, enfermeiras e médicos da UTI. A desastrada dupla de halterofilistas principiantes injetou no próprio corpo medicamento anabolizante de uso veterinário. Imersa em coma profundo, a dupla não explicou por que recorreu ao produto sabidamente inadequado para seres humanos. Supõe-se eles pretendiam ficar rapidamente fortes e musculosos, motivados pela desinformação e pela vaidade excessiva, características de adolescentes.
Tenho um cunhado que é médico e do qual, aliás, gosto muito, sentimento incomum entre cunhados. Dermatologista de primeira categoria, ele tenta, a todo custo, convencer-me a implantar cabelos na cabeça. “Vida de careca já era, meu amigo!”, ele repete. Meus filhos, sintonizados às mais recentes pseudo-necessidades da espécie humana, lutam para me convencerem a endireitar os dentes com seus habilidosos (e caros) ortodontistas. Gente, eu tenho a boca crivada de dentes tortos há quarenta e três anos... Por favor, poupem-me das brocas, metais e agulhas. Não sou Amélia, mas já não tenho mais a menor vaidade.
Então, a situação está assim meio esquisita. No nosso meio, como na maior parte deste fodido globo, ex-planeta azul, o culto às aparências vigora com toda força. Como se já não bastasse parecer rico e bem sucedido (mesmo sendo um pé-de-chinelo), há que se parecer, para todo o sempre, jovem, sadio e belo. Ou seja, estamos tão absurdamente aprisionados à superficialidade que passamos a digladiar com a própria natureza, negando o pesado bastão do tempo. Fingimos, teimamos que os corpos envelhecem. Apesar de deambularmos, a cada minuto, para a vala rasa e a pá de cal, muitos despendem energia vital perseguindo uma improvável fonte da juventude que, é claro, só sobrevive no labirinto dos nossos devaneios.
Recentemente, um doutor amigo reclamava, entristecido, que fora ameaçado de morte (e de processo na Justiça) porque operou de câncer uma velhota beirando os noventa anos e esta morreu durante o melindroso procedimento cirúrgico, safando-se de ficar aprisionada ao leito nos poucos anos que ainda lhe restariam de vida, provavelmente, vegetando e sendo cuidada por terceiros, como uma samambaia. Enfim, tem gente que não se toca que a morte, única certeza dentre o nosso emaranhado de dúvidas, vai chegar inexoravelmente, a despeito do Lula, do Obama e da plena recuperação do mercado financeiro. Além de peitarem Deus, no qual eles garantem crer com toda fé, ainda querem renegar a fisiologia e promover os pobres doutores a semideuses. Não tem cabimento. Atitudes arrogantes como estas costumam proceder de gente endinheirada. Seus tolos, guardem as moedas! Vida não se compra com grana!
No reino animal — do qual devemos ser os bobos da corte — os elefantes velhos, cansados e doentes abandonam a manada, embrenham-se na savana, somem, vazam, espreitam na solidão, entregam-se à anorexia, deitam na relva, cerram as pálpebras pesadas e aguardam a faxina generosa dos chacais e dos abutres. Eu não sei se os elefantes sonham com céu; se eles temem o inferno que nem a gente teme. Quisera ser um paquiderme, pesar cinco toneladas e viver apenas por instinto, na mais pura ignorância. Um dia, quem sabe, evoluiremos tanto a ponto de nos tornarmos animais, aqueles que presunçosamente classificamos como irracionais.














