Esquerdistas, esquerdóides, mamadores e inocentes úteis
Estou internado em minha biblioteca, disposto a terminar coisas que estão pela metade, mas, como não deixei de ler jornais (acabo de sair de um auto-ostracismo, há pouco tempo voltei a assinar jornais), infelizmente tenho conhecimento de notícias escabrosas que me fazem aumentar o crescente desgosto com o ser humano.
Sou um ex-esquerdista. Já acreditei no socialismo. Não mais. E não por causa da queda do muro de Berlim. Meu desgosto é mais recente, vem do primeiro governo Lula. À época, cheguei a pensar em me filiar ao PT, mas fui demovido da idéia por um professor que é uma mãe e que usou a mesma tática que meu pai, quando eu, criança, lhe pedi que me matriculasse num curso de violino: “Espere um pouco, daqui a uns seis meses, se você ainda quiser, eu te matriculo.” Claro, meu pai sabia que minha intenção não duraria nem dois, quanto mais seis. Dito e feito. A história da música perdeu a oportunidade de ter o embaraçoso verbete “pior violinista do mundo”.
Da mesma forma que minha paixão pela música erudita não se estende ao talento para tocá-la, meu gosto por política é muito mais filosófico do que prático. O professor Joel Ulhôa, em toda sua sabedoria, percebeu isso, mas teve a elegância (que lhe é peculiar) de não me escancarar, valendo-se da mesma tática de meu pai. Não que ele tivesse algo contra o PT, Ou qualquer partido. O professor Joel é dessas pessoas que você, se quiser brigar com ele, terá de fazer um monstruoso esforço, pois é um gentleman. Ele até se propôs a me apresentar a seus amigos no partido, na remota possibilidade d’eu insistir no assunto.
Essa idéia de jerico me passou pela cabeça na mesma época que me baixou um espírito sartreano (que, graças a Deus, durou pouco) de engajamento. De repente me dei conta de que estava rodeado das mais brilhantes teorias explicadoras do mundo, mas não agia. A primeira besteira que fiz foi entrar pra diretoria do Sindicato dos Médicos de Goiás. Convivi com pessoas boas, com a real intenção de melhorar a imagem e a vida do médico. Mas convivi também com sindicalistas profissionais, que consideram importantíssimo ir a posses de outros sindicatos, a despeito da pobreza do nosso, e, o que mais me enoja, com políticos que usam o sindicato como trampolim para suas pretensões pessoais. A segunda e ainda maior bobagem foi participar de uma eleição para um conselho de ética. Mas essa é outra história, sobre a qual ainda falo um dia.
As notícias escabrosas a que me refiro são as duas novas investidas de Hugo Chávez, para consolidar sua ditadura bolivariana petro-banânica. Chávez fechou a TV a cabo que um dia foi canal aberto e que ele já tinha fechado (na verdade, tomado pra passar suas próprias baboseiras, que ninguém que tenha opção assiste), e ainda outra pérola, típica de alguém que não pode ter oposição de jeito nenhum: está criando uma lei que reparte diferente as regiões da Venezuela, com o objetivo de nomear gente sua para os poucos Estados que ainda são governados pela oposição (alguém aí se lembra dos biônicos de nossa própria ditadura?). O movimento estudantil, notadamente o de Caracas, é majoritariamente anti-Chávez (e alguém se lembra da UNE da década de 1960 e o que ela sofreu nas mãos dos militares? Não? Perguntem aos esquerdóides Josés Dirceu e Serra). Chávez faz lembrar a música do Caetano: “Será que a América católica sempre precisará de ridículos tiranos?”. E também os centuriões romanos do Asterix.
Outra notícia, esta mais grave, a condenação à morte (morte!) a dois opositores do governo do Irã. Bata isso no liquidificador junto com o recém saído do forno, requentado pão envelhecido, ‘Decreto dos Direitos Humanos’ e terá um Frankenstein chamado (pseudo)esquerda brasileira.
Quer diferenciar um esquerdista verdadeiro (peça raríssima), de um esquerdóide, um mamador no governo e um inocente útil? O esquerdóide, o mamador e o inocente útil dão desconto pra isso tudo. Dependendo de seu preparo intelectual são capazes de elaborar malabarismos argumentativos a favor das ditaduras chavista, iraniana (e chinesa, e cubana, ou qualquer outro país cujo governo seja anti-EUA). São capazes de defender a abertura da caixa-preta de nossa ditadura e, ao mesmo tempo, defender pragmatismo de boas relações com o governo do Irã (olha que nem estou citando a negação do holocausto, etc, estou me atendo à execução de dois caras cujo crime foi ser oposição!).
O verdadeiro esquerdista é fácil de diferenciar. Ele não dá desconto. Para ele, se FHC vendeu a alma pela emenda da reeleição, ou se as privatizações foram uma farra, isso não é justificativa pro mensalão do PT. Roubou, cadeia. Não importa a cor da camisa do time. Já para diferenciar esquerdóides de mamadores e inocentes úteis, é necessário saber se o indivíduo tem pontos de interesse no governo. O esquerdóide geralmente é o político (não necessariamente petista, embora este partido seja pródigo nessas figuras), aquele que fala o que os inocentes úteis querem ouvir. Para diferenciar o mamador do inocente útil é mais difícil. É preciso saber se o cidadão mama, direta ou indiretamente, no poder, o que nem sempre é fácil, pois pode acontecer de mamar de forma indireta e/ou ilícita. Os inocentes úteis, infelizmente, são maioria. E costumam repetir mantras anti-EUA e pró-Chávez como robôs, que é o que são. Adoram palavras como “dialética” e “fenomenologia” mesmo sem ter a mais remota idéia do que significam.
Eu já ia parar por aqui, porque isso acabou ficando mais longo do que produtivo, mas leio outra notícia, Na "Folha" de 01/02/2010: “Executiva ‘rainha do papelão’ tem segunda maior fortuna”, sobre Cheung Yan, que tem a fortuna estimada em U$4,9 bilhões (atenção: bilhões!!!). Isso na mesma página em que a legenda de uma foto com militares mulheres (muito belas, por sinal) diz assim: “Chinesas participam em Pequim de parada comemorativa dos 60 anos do regime comunista”. Sem comentários.
Meus ex-colegas esquerdistas que me perdoem, mas a única alternativa verdadeiramente autêntica hoje (sempre?) é o cinismo, que é como a morte: feio, mas inevitável.





