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POR EM 02/02/2010 ÀS 01:56 PM

Esquerdistas, esquerdóides, mamadores e inocentes úteis

publicado em

Chavez e Ahmadinejad Estou internado em minha biblioteca, disposto a terminar coisas que estão pela metade, mas, como não deixei de ler jornais (acabo de sair de um auto-ostracismo, há pouco tempo voltei a assinar jornais), infelizmente tenho conhecimento de notícias escabrosas que me fazem aumentar o crescente desgosto com o ser humano.
           
Sou um ex-esquerdista. Já acreditei no socialismo. Não mais. E não por causa da queda do muro de Berlim. Meu desgosto é mais recente, vem do primeiro governo Lula. À época, cheguei a pensar em me filiar ao PT, mas fui demovido da idéia por um professor que é uma mãe e que usou a mesma tática que meu pai, quando eu, criança, lhe pedi que me matriculasse num curso de violino: “Espere um pouco, daqui a uns seis meses, se você ainda quiser, eu te matriculo.” Claro, meu pai sabia que minha intenção não duraria nem dois, quanto mais seis. Dito e feito. A história da música perdeu a oportunidade de ter o embaraçoso verbete “pior violinista do mundo”.
           
Da mesma forma que minha paixão pela música erudita não se estende ao talento para tocá-la, meu gosto por política é muito mais filosófico do que prático. O professor Joel Ulhôa, em toda sua sabedoria, percebeu isso, mas teve a elegância (que lhe é peculiar) de não me escancarar, valendo-se da mesma tática de meu pai. Não que ele tivesse algo contra o PT, Ou qualquer partido. O professor Joel é dessas pessoas que você, se quiser brigar com ele, terá de fazer um monstruoso esforço, pois é um gentleman. Ele até se propôs a me apresentar a seus amigos no partido, na remota possibilidade d’eu insistir no assunto.
           
Essa idéia de jerico me passou pela cabeça na mesma época que me baixou um espírito sartreano (que, graças a Deus, durou pouco) de engajamento. De repente me dei conta de que estava rodeado das mais brilhantes teorias explicadoras do mundo, mas não agia. A primeira besteira que fiz foi entrar pra diretoria do Sindicato dos Médicos de Goiás. Convivi com pessoas boas, com a real intenção de melhorar a imagem e a vida do médico. Mas convivi também com sindicalistas profissionais, que consideram importantíssimo ir a posses de outros sindicatos, a despeito da pobreza do nosso, e, o que mais me enoja, com políticos que usam o sindicato como trampolim para suas pretensões pessoais. A segunda e ainda maior bobagem foi participar de uma eleição para um conselho de ética. Mas essa é outra história, sobre a qual ainda falo um dia.
           
As notícias escabrosas a que me refiro são as duas novas investidas de Hugo Chávez, para consolidar sua ditadura bolivariana petro-banânica. Chávez fechou a TV a cabo que um dia foi canal aberto e que ele já tinha fechado (na verdade, tomado pra passar suas próprias baboseiras, que ninguém que tenha opção assiste), e ainda outra pérola, típica de alguém que não pode ter oposição de jeito nenhum: está criando uma lei que reparte diferente as regiões da Venezuela, com o objetivo de nomear gente sua para os poucos Estados que ainda são governados pela oposição (alguém aí se lembra dos biônicos de nossa própria ditadura?). O movimento estudantil, notadamente o de Caracas, é majoritariamente anti-Chávez (e alguém se lembra da UNE da década de 1960 e o que ela sofreu nas mãos dos militares? Não? Perguntem aos esquerdóides Josés Dirceu e Serra). Chávez faz lembrar a música do Caetano: “Será que a América católica sempre precisará de ridículos tiranos?”. E também os centuriões romanos do Asterix.

Outra notícia, esta mais grave, a condenação à morte (morte!) a dois opositores do governo do Irã. Bata isso no liquidificador junto com o recém saído do forno, requentado pão envelhecido, ‘Decreto dos Direitos Humanos’ e terá um Frankenstein chamado (pseudo)esquerda brasileira.
           
Quer diferenciar um esquerdista verdadeiro (peça raríssima), de um esquerdóide, um mamador no governo e um inocente útil? O esquerdóide, o mamador e o inocente útil dão desconto pra isso tudo. Dependendo de seu preparo intelectual são capazes de elaborar malabarismos argumentativos a favor das ditaduras chavista, iraniana (e chinesa, e cubana, ou qualquer outro país cujo governo seja anti-EUA). São capazes de defender a abertura da caixa-preta de nossa ditadura e, ao mesmo tempo, defender pragmatismo de boas relações com o governo do Irã (olha que nem estou citando a negação do holocausto, etc, estou me atendo à execução de dois caras cujo crime foi ser oposição!).
           
O verdadeiro esquerdista é fácil de diferenciar. Ele não dá desconto. Para ele, se FHC vendeu a alma pela emenda da reeleição, ou se as privatizações foram uma farra, isso não é justificativa pro mensalão do PT. Roubou, cadeia. Não importa a cor da camisa do time. Já para diferenciar esquerdóides de mamadores e inocentes úteis, é necessário saber se o indivíduo tem pontos de interesse no governo. O esquerdóide geralmente é o político (não necessariamente petista, embora este partido seja pródigo nessas figuras), aquele que fala o que os inocentes úteis querem ouvir. Para diferenciar o mamador do inocente útil é mais difícil. É preciso saber se o cidadão mama, direta ou indiretamente, no poder, o que nem sempre é fácil, pois pode acontecer de mamar de forma indireta e/ou ilícita. Os inocentes úteis, infelizmente, são maioria. E costumam repetir mantras anti-EUA e pró-Chávez como robôs, que é o que são. Adoram palavras como “dialética” e “fenomenologia” mesmo sem ter a mais remota idéia do que significam.
           
Eu já ia parar por aqui, porque isso acabou ficando mais longo do que produtivo, mas leio outra notícia, Na "Folha" de 01/02/2010: “Executiva ‘rainha do papelão’ tem segunda maior fortuna”, sobre Cheung Yan, que tem a fortuna estimada em U$4,9 bilhões (atenção: bilhões!!!). Isso na mesma página em que a legenda de uma foto com militares mulheres (muito belas, por sinal) diz assim: “Chinesas participam em Pequim de parada comemorativa dos 60 anos do regime comunista”. Sem comentários.
           
Meus ex-colegas esquerdistas que me perdoem, mas a única alternativa verdadeiramente autêntica hoje (sempre?) é o cinismo, que é como a morte: feio, mas inevitável.

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Comentários (16)

  • Obrigado, Antônio.

    2 anos atrás por Flávio Paranhos
  • Parabéns. Parabéns e parabéns de novo. A esquerda brasileira sem nenhuma exceção chafurda na mesma lama que parte da imprensa brasileira come.

    2 anos atrás por Antônio Bentes
  • Um exemplo: a literatura de Chico Buarque sempre credita todos os males do mundo aos ricos, vide o bom ‘Leite Derramado’...mas soa estranho para um Buarque de Holanda, burguês desde o nascedouro.

    2 anos atrás por Léo
  • Um fato curioso me intriga há anos. Por que a esquerda é composta na maior parte por burgueses?

    2 anos atrás por Léo
  • Saiu na Folha On line (da série 'acredite se for capaz'):
    Ex-presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, o deputado distrital Leonardo Prudente (sem partido) entregou nesta terça-feira sua defesa à Corregedoria da Casa no processo de cassação que responde por suposto envolvimento no esquema de corrupção que envolve o governo local.

    Flagrado colocando dinheiro de suposta propina no terno e nas meias, Prudente argumenta que espera ser absolvido e que os R$ 60 mil eram uma doação não declarada à Justiça Eleitoral.
    A estratégia de alegar caixa dois pode favorecer Prudente porque o crime já estaria prescrito.


    2 anos atrás por Flávio Paranhos
  • enio, meu amigo, eu desisto. Escolha aí outra língua pra gente conversar, pois parece que eu estou escrevendo em latim e você está lendo em grego.

    2 anos atrás por Flávio Paranhos
  • O exemplo máximo da esquizofrenia da esquerda no mundo é Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez juntos.

    2 anos atrás por Olavo
  • Um bom texto. Um bom debate!

    2 anos atrás por João Carlos
  • Olá, caro Flávio!
    Esta é a primeira vez que comento uma matéria da Bula. Concordo com seus argumentos. Não tenho conhecimento científico suficiente para discorrer sobre teoria dos partidos políticos e dos sistemas ideológicos ou coisa que os valha. Mas acredito que esta zona toda se deve ao fato de termos atualmente partidos que forjam "ideologias", e não o contrário. E, concordo com você mais uma vez, não é porque o moleque da esquina de cima está arrancando os olhos dos outros com uma faca que o debaixo também pode. Como somos cínicos! Em coisas bem mais simples, não precisa nem citar o caso do Irã não. Esse meu cinismo me deixo puto. Exemplo: ontem um patrão meu e eu fomos visitar uma usina de reciclagem da indústria moveleira. Ele me falou que o dono é o cara que tem mais dinheiro vivo na cidade (apesar de ser um município pequeno -100 mil habitantes, só de móveis são quase 200 indústrias). Vi surgir das montanhas de serragem uma imensidão de funcionários, a maioria com uma mascarazinha preta na qual não cabia nem o nariz dos caras. Estavam granulados de pó. Falei: "Coitados, esses caras vão chegar nos 50 anos tossindo e cagando pó de serra." E ele: "Coitado daquele povo no Haiti, no Quênia etc., que não têm o que comer. Estes têm emprego e levam uma cestona pra casa no fim do mês." Disse uma barbaridade dessas e o muito que fiz foi responder que "esses caras não têm saúde, Fulano." Ele soltou um "Blah!" e a conversa morreu. Olha o tamanho do disparate que eu não retruquei do jeito que deveria porque quem o falou é um de meus 13 patrões. Somos cínicos e porcos. PS. Andei lendo uns contos seus. Escreve muito bem, parabéns!

    2 anos atrás por Eduardo
  • Não acredito de maneira alguma que o maior problema do Brasil é a corrupção. Por aqui, patrimonialismo ruim é o dos outros e nunca o do lado de cá. Quem quiser se aprofundar nisso, pode ler o belíssimo livro de Jesse de Souza, "A ralé brasileira", lançado no final de 2009 pela editora da UFMG. Desconfio e muito de quem acha que o grande problema do Brasil é a corrupção, o patrimonialismo. Jesse explica com argumentos bem melhores.

    2 anos atrás por enio
  • Quanto ao esquerdismo, eu não tenho o direito de ser. Basta ver da classe social que venho. Só quem não me conhece para achar que tive um surto de megalomania. Somos os todos liberais, sem sal, incapazes de mudar alguma coisa. Um bando de classe média que tem tempo e capital para gastar com leituras.

    2 anos atrás por enio
  • Quem pediu pragmatismo, enio? De minha parte, pedi honestidade (honestidade em seu sentido literal mesmo, de não roubar). Será que estou muito exigente? E atenção: honestidade DOS DOIS LADOS. E um pouco de honestidade intelectual também cairia bem. Por ex., quando se criticar aqui a censura, ou descer o pau em estudantes, ou a nomeação de biônicos, ou a tortura/assasinato de opositores, NÃO DAR DESCONTO pra quem faz isso em outro país (não importa o país). A não que se seja esquerdóide, mamador ou inocente útil. E você não me parece ser nenhum dos 3. Será um dos últimos esquerdistas autênticos? Se for, meu caro ex-colega, é questão de tempo para se juntar a nós, os cínicos (ou filosoficamente derrotados, se preferir).

    2 anos atrás por Flávio Paranhos
  • Quanto ao cinismo, sempre vale a pena ler o livro de Vladimir Safatle, "Cinismo e falência da crítica".
    http://bit.ly/bZSQNO

    2 anos atrás por enio
  • Se os partidos de esquerda só criticam as coisas, dizem que falta pragmatismo e senso de realidade. Quando eles aderem ao realismo político e governam como foi pedido (usando até Henrique Meirelles, the king of Goias), daí é corrupta e aproveitadora. Quando se paga R$ 11 bilhões por ano para o bolsa família, é populismo. Quando se paga R$ 170 bilhões por ano de juros da dívida pública, para os happy few, tem fundos DI, é racionalidade e livre iniciativa. Afinal, é para se manter imaculada a esquerda ou é para entrar no jogo? Porque, no meio termo, estão todos lá, com aprovação de 71,4% da população brasileira e ganhando uma boa grana.

    2 anos atrás por enio
  • Dou um significado diferente à palavra 'cínico', Brasigóis. Seria quase um sinônimo de "amargura filosófica derrotada pelos fatos". Penso que uma palavra que serviria pra agrupar esquerdóides, mamadores e inocentes úteis seria "desonestos", ou ainda "aéticos".

    2 anos atrás por Flávio Paranhos
  • Flávio, só cegos ou cínicos não vêm Lula, o Grande Irmão, senhor do aplauso popular, dar uma banana para as leis e instituições da República em nosso país. Só incautos ou analfabetos políticos não o vêem afagar ditadores sanguinários, como Fideal Castro, Hugo Chavez e o carniceiro do Irã, que enforca pessoas em praça pública pelo crime de lhe fazerem oposição. Nós também temos nossos boliburgueses (burgueses bolivarianos),os petralhas aloprados, nadando de braçada no mar da corrupção bafejada de impunidade. Entre os inocentes úteis, nem todos são inocentes. Conheci um do MST, que entrou na UFG pela porta larga das cotas. Pontificava como teórico conhecedor de toda a obra de Gramsci, patrocinado pelo erário para ser agitador en nível universitário. Dói-me ter que dizer isto, pois já fui camarada de muito malandro engravatado, que hoje vive a mamar nas têtas do populismo neocínico.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio


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